DANIELA ARCANJO
FOLHAPRESS
A Argentina renovou, nesta quinta-feira (9), o hábito de divergir de temas sensíveis à agenda ideológica do ultraliberal Javier Milei em fóruns internacionais. Agora, foi a vez de discordar de um trecho relacionado à questão racial na declaração da 9ª Reunião Ministerial de Zopacas (Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul).
O grupo, criado em 1986, reúne países da região do Atlântico Sul com o objetivo de promover a cooperação e o intercâmbio militar entre Brasil, Uruguai e Argentina com nações da costa oeste da África, como Nigéria, Angola e África do Sul.
Adormecido por dez anos, o fórum foi reativado em 2023 em meio à ofensiva diplomática do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) após a gestão de Jair Bolsonaro (2018-2022). Neste ano, a Reunião Ministerial do grupo voltou ao Rio de Janeiro, onde ocorreu a primeira edição do encontro, em 1988.
Entre os pontos acordados ao fim da reunião estão o de manter a região livre da guerra, combater a pirataria e “cooperar na tarefa essencial de enfrentar as persistentes mazelas decorrentes da escravidão” este último, rejeitado por Buenos Aires.
“A República Argentina reafirma seu compromisso com a luta contra o racismo, a discriminação racial, a xenofobia e intolerâncias correlatas, assim como com a promoção da igualdade e da dignidade humana de todos os seres humanos”, afirmou o país em uma nota de rodapé.
“Nesse sentido, dissocia-se das referências a certas iniciativas e documentos mencionados no parágrafo 22, que não refletem necessariamente entendimentos atuais ou compromissos universalmente assumidos”, completou.
O artigo em questão reconhece o “peso histórico da rota transatlântica no tráfico de pessoas escravizadas”, e convoca as nações do grupo a, além de cooperar no combate às consequências da escravidão, “ampliar os esforços de combate ao racismo e de promoção da igualdade racial”, citando iniciativas multilaterais relacionadas ao tema incluindo a resolução da Assembleia Geral da ONU que reconheceu a escravidão como o mais grave crime contra a humanidade.
Na votação, no final de março, 123 dos países representados aprovaram a declaração, incluindo o Brasil, enquanto 52 se abstiveram e 3 rejeitaram o texto: Estados Unidos, Israel e Argentina.
A prática de colocar uma nota de rodapé em documentos do tipo não é inédita sob a Argentina de Milei. Na cúpula da Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos) do ano passado, a declaração final, que exige consenso de seus 33 países-membros, foi divulgada com trecho em que se lia: “Esta declaração foi contestada pelas delegações de Argentina, Nicarágua e Paraguai por diferentes razões que respeitamos e reconhecemos”.
Na ocasião, o documento rechaçou a imposição de medidas “restritivas ao comércio internacional”, em uma referência ao tarifaço do presidente Donald Trump, um aliado de Milei, e afirmou que uma das prioridades da Colômbia, que assumiria a Presidência do grupo, deveria ser a igualdade de gênero tema ao qual o ultraliberal tem alergia.
Ao fim de G20, por exemplo, em novembro de 2024, a Argentina resistiu inicialmente a um trecho da declaração final da cúpula que reafirmava o “compromisso de acabar com a violência de gênero, incluindo a violência sexual, e de combater a misoginia online e offline”. Por fim, porém, recuou.
Antes disso, em julho do mesmo ano, o veto de Buenos Aires a temas como gênero e a Agenda 2030, o plano de sustentabilidade global da ONU, impediram a redação da declaração final do Mercosul com seus Estados associados, um dos documentos normalmente divulgados ao fim da cúpula do bloco.