DOUGLAS GAVRAS
BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS)
Após um ano marcado pela tensão na relação diplomática entre Colômbia e Estados Unidos, Gustavo Petro visitará Donald Trump nesta terça-feira (3), na Casa Branca, num encontro que, em 2025, parecia impossível de acontecer.
Adversários declarados, o presidente de esquerda colombiano e o líder republicano se preparam para a primeira reunião cara a cara, que ocorrerá após uma escalada de enfrentamentos entre os dois e a necessidade de melhorar as relações de Washington com o ex-aliado na América do Sul.
O encontro ocorrerá no Salão Oval, espaço que ficou conhecido por abrigar discussões intensas entre Trump e outros líderes mundiais, o que lhe rendeu o apelido de “salão das emboscadas”.
A delegação colombiana será liderada por Petro e contará com a presença de altos funcionários, incluindo o embaixador colombiano em Washington e um grupo de ministros.
As relações entre Petro e Trump têm sido tensionadas por divergências em várias questões, incluindo imigração e combate ao tráfico de drogas.
Trump criticou a Colômbia e chegou a sugerir uma intervenção militar no país com o argumento de combate ao narcotráfico, como ocorreu na ação que resultou na prisão do venezuelano Nicolás Maduro.
“[Petro] está produzindo cocaína e enviando a droga para os EUA. Ele deveria cuidar do seu traseiro”, afirmou Trump em 22 de dezembro. O americano disse ainda que uma operação militar contra a Colômbia lhe parecia “uma boa ideia”.
“Maduro ou qualquer presidente do mundo pode ser retirado de seu cargo caso não se alinhe com determinados interesses”, disse Petro, por sua vez, numa entrevista em 9 de janeiro.
O colombiano também acusou o governo dos EUA de supremacia branca, o que piorou ainda mais a relação bilateral.
Uma conversa telefônica entre os dois ainda em janeiro, mediada pelo senador republicano Rand Paul, mudou tudo. Em tom considerado cordial, o diálogo abriu caminho para o encontro em Washington menos de um mês depois.
Esta será a terceira vez que Petro visitará a Casa Branca, após duas reuniões com o ex-presidente Joe Biden, em 2023.
Durante o encontro, Petro deverá expor as apreensões de cocaína feitas na Colômbia e contestar informações sobre um suposto aumento na produção de drogas.
Outro ponto sensível será a questão da imigração, em que Trump defende deportações em massa, e Petro denuncia o tratamento dado aos migrantes, que ele classifica de desumano.
No ano passado, Petro havia bloqueado a chegada de voos americanos, mencionando maus-tratos aos deportados. Para resolver a situação, o colombiano determinou o envio de aviões para buscar seus cidadãos e, depois, permitiu a entrada das aeronaves dos EUA com a condição de que os direitos das pessoas transportadas fossem respeitados.
Contudo, as autorizações foram suspensas em maio, com o governo colombiano acusando os EUA de não cumprir os acordos. Esse conflito sobre deportações foi um dos primeiros desentendimentos significativos entre Colômbia e EUA, aliados históricos.
Petro fez críticas severas a Trump que, por sua vez, revogou o visto do presidente colombiano e impôs sanções. No dia 30 de janeiro, Bogotá decidiu retomar os voos de deportação dos EUA usando aviões do país sul-americano, após uma pausa de oito meses.
A agenda de Petro em Washington não se limitará ao encontro com Trump. Ele foi chamado para discursar na OEA (Organização dos Estados Americanos) sobre questões de segurança regional. Também participará de eventos com a comunidade colombiana e acadêmicos, incluindo uma palestra na Universidade Georgetown, uma das instituições mais influentes do país.
A visita de Petro à Casa Branca é tratada pelo governo da Colômbia como um marco para a retomada das relações com os EUA. Segundo a ministra das Relações Exteriores, Rosa Villavicencio, o encontro com o presidente Trump representa um “relançamento do vínculo” bilateral.
“É com esse espírito que chegamos”, disse Villavicencio. “A mensagem é clara: nações ganham, e criminosos perdem.”
Enquanto isso, a esquerda colombiana prepara uma manifestação nesta terça-feira, em Bogotá, liderada pelo senador e candidato pelo Pacto Histórico, Ivan Cepeda. Ele acusa o governo americano de tentar interferir nas eleições presidenciais do país, marcadas para maio.
Trump tem apoiado candidatos de direita aliados na região, como aconteceu em 2025 nas eleições presidenciais em Honduras, Bolívia e Chile e nas eleições legislativas na Argentina.
Na Colômbia, quem estaria mais próximo de ganhar o apoio da Casa Branca é o advogado criminalista de ultradireita Abelardo de la Espriella (Defensores da Pátria). Ele disse que considerava a prisão de Maduro brilhante, enquanto outros nomes da oposição preferiram reagir com cautela.