O diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Mohamed El Baradei, advertiu hoje, em Viena, que a investigação do polêmico programa nuclear iraniano “chegou a um beco sem saída, a menos que Irã coopere plenamente”.
O egípcio, que deixará o cargo na próxima segunda-feira, fez esta advertência na abertura da reunião do Conselho de Governadores da AIEA.
O órgão executivo da agência nuclear da ONU deve adotar entre hoje e amanhã uma resolução condenatória ao Irã, a primeira em quase quatro anos.
ElBaradei expressou hoje perante os 35 países-membros do Conselho sua “decepção” pelo fato de o Irã ainda não ter dado o sinal verde à proposta “equilibrada e justa” de enviar urânio enriquecido ao exterior para posterior conversão em combustível nuclear, a fim de alimentar um reator científico em Teerã.
Inclusive chegou a qualificar a oferta feita ao Irã como “única” e disse que esta oportunidade “deveria ser aproveitada e seria muito lamentável se fosse perdida”.
Além disso, criticou que há um ano não ocorra “praticamente nenhum movimento nos assuntos de preocupação” que os inspetores precisam esclarecer para verificar a natureza pacífica do programa nuclear iraniano.
ElBaradei se referia às possíveis dimensões militares do programa nuclear iraniano, acusações feitas pelos Estados Unidos e por outros países, através de uma série de supostas provas, algo que Teerã nega, alegando que são falsificações.
Na sessão de abertura hoje, o Conselho se concentrou na proposta da Rússia de estabelecer em seu território um depósito de urânio pouco enriquecido que garanta o abastecimento de combustível nuclear a todos os países que quiserem.
Segundo fontes diplomáticas, os países emergentes rejeitam esta oferta “devido a uma falta de confiança”, já que consideram que é uma tentativa das grandes potências de evitar que esses países desenvolvam totalmente seu próprio ciclo de combustível nuclear, como acontece no caso do Irã.
Na tarde de hoje, o Conselho analisará a resolução apresentada pela Alemanha, na qual se expressa a “séria preocupação” com que o Irã continue “desafiando as exigências” do Conselho de Segurança da ONU, principalmente a suspensão de seu programa de enriquecimento de urânio, um material que pode ter uso tanto civil quanto militar.
O texto, que circula desde ontem à noite entre os países-membros do Conselho, critica também a construção, sem aviso prévio, de uma nova usina de enriquecimento de urânio na cidade de Qom, ao sudoeste de Teerã.
O órgão executivo da AIEA não adotava uma resolução contra o Irã desde fevereiro de 2006, quando o caso iraniano foi enviado ao Conselho de Segurança das Nações Unidas em Nova York.
Desde então, foram aprovadas várias resoluções do Conselho de Segurança contra o Irã, incluindo três rodadas de sanções diplomáticas e comerciais.
Diplomatas ocidentais se mostraram hoje “confiantes” em poder conseguir a maioria necessária para adotar essa resolução, enquanto interpretavam a mesma “como uma chamada de atenção” ao Irã de que a paciência internacional está terminando.
O ministro de Exteriores e vice-chanceler alemão, Guido Westerwelle, se expressou da mesma forma após uma reunião com ElBaradei e com o futuro diretor-geral da AIEA, Yukia Amano.
Em setembro, o Irã reconheceu que está construindo uma segunda usina de enriquecimento de urânio, muito menor que sua instalação principal de Natanz (no centro do Irã), o que causou grande inquietação na comunidade internacional.
Segundo a AIEA, Teerã deveria ter informado ao organismo antes de planejar a construção de uma usina deste tipo.
Por isso, a resolução solicita que o Irã confirme que não tomou uma decisão de construir ou autorizar a construção de outra instalação nuclear que ainda não tenha sido comunicada à AIEA.