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Alckmin evita guerra na Ucrânia e defende parceria estratégica em reunião com enviados de Putin

Reunião de alto nível entre Brasil e Rússia retoma cooperação após três anos e busca ampliar comércio, tecnologia e coordenação internacional

Redação Jornal de Brasília

05/02/2026 14h30

Foto: José Cruz/Agência Brasil

Sob olhar da comunidade internacional, o governo brasileiro recebe uma ampla delegação russa enviada pelo presidente Vladimir Putin a Brasília, nesta quinta-feira, 5. No primeiro compromisso oficial, o vice-presidente Geraldo Alckmin deixou de lado a guerra na Ucrânia e defendeu a parceria estratégica com a Rússia, para além da conjuntura atual.

O vice-presidente disse que a realização da 8ª Reunião da Comissão Brasil-Rússia de Alto Nível de Cooperação (CAN) reflete a densidade e a estabilidade da relação estratégia entre os países.

“Parcerias sólidas não dependem apenas da conjuntura, mas de interesses estruturais bem compreendidos”, afirmou Alckmin, em discurso no Ministério das Relações Exteriores, diante do primeiro-ministro Mikhail Mishustin, chefe da delegação russa.

O vice-presidente ignorou o conflito com a Ucrânia, iniciado por uma invasão de larga escala militar russa, prestes a completar quatro anos, em 24 de fevereiro.

A reunião do principal mecanismo de coordenação governamental entre Brasil e Rússia é acompanhada de perto pelos principais democracias ocidentais. Ela coincide com negociações entre russos e ucranianos, intermediadas pelos Estados Unidos, em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, que selou nesta manhã uma troca de prisioneiros, e pela tentativa do governo Donald Trump de convencer ambos a um cessar-fogo.

Nesta semana, porém, houve o rompimento de uma trégua de inverno e novos ataques de ambos os lados, reportados pelos dois governos. Na Ucrânia, uma maternidade foi atingida, e recentemente, um trem civil.

Além disso, expira nesta quinta-feira um acordo de não expansão do arsenal nuclear entre Rússia e EUA, sem que Washington tenha aceitado cumprir os limites previstos por mais um ano, como proposto por Putin. A situação pode levar a uma escalada na corrida armamentista por mais ogivas e lançadores.

O premiê russo também evitou citar diretamente a guerra na Ucrânia, mas afirmou que seu país conta com o Brasil para atuar em prol da “estabilidade global” e deseja estreitar mais as relações estratégicas.

“Nós, em conjunto, criamos a nova ordem mundial baseada nos princípios de respeito, soberania, no direito de cada país de escolher seu destino. A cooperação entre a Rússia e o Brasil vai contribuir para manter a estabilidade global, levando em conta a coordenação estreita de nossos representantes em plataformas internacionais como o Brics e a ONU”, disse Mishustin.

O primeiro-ministro citou que Rússia e Brasil estão na base do Brics e na criação de uma ordem global multipolar mais justa.

Apesar do contexto geopolítico tensionado, a reunião em Brasília busca focar em cooperação econômica e científica e conta com ministros dos dois países, de áreas-chave.

Pelo lado brasileiro, além de Alckmin, também ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, participaram ministros ou secretários-executivos do Itamaraty, da Saúde, Ciência, Tecnologia e Inovação, Anvisa, Agência Espacial Brasileira, Agricultura, Desenvolvimento Agrário, Portos e Aeroportos, Cultura e Gabinete de Segurança Institucional.

Moscou enviou os ministros da Indústria e Comércio, Agricultura, Cultura, Saúde, Transporte, Desenvolvimento Econômico e Ciência e Ensino Superior.

Mais de 10 anos depois do último encontro da CAN, a viagem recebeu atenção da mídia russa, com cerca de 50 jornalistas credenciados enviados de Moscou, e oito ministros, além de autoridades de agências estatais.

A reunião estava suspensa desde 2022, quando deveria ter sido realizada em Brasília, mas passou a ser postergada por causa da guerra na Ucrânia e seus efeitos e de temores de indisposição política pela aproximação com Putin, conforme relataram ao Estadão integrantes do governo Lula.

Ao falar na abertura da reunião, Alckmin citou a necessidade de fortalecer canais institucionais, reduzir obstáculos logísticos e diversificar a qualidade do comércio bilateral. O vice-presidente disse que a CAN deve buscar coordenação, previsibilidade e “visão de longo prazo”.

O vice-presidente disse que o intercâmbio está “aquém do potencial” das duas economias e que os números são “expressivos, mas modestos”. Ele defendeu o crescimento das trocas com “mais equilíbrio e valor agregado”.

Conforme dados do governo brasileiro, em 2025, o comércio bilateral alcançou a cifra de US$ 10,9 bilhões. O Brasil tem déficit. As exportações brasileiras à Rússia somaram US$ 1,5 bilhão, e as importações russas para o País, US$ 9,4 bilhões.

Em 2023, após duas décadas de parceria estratégica, o comércio bilateral rompeu pela primeira vez a casa de US$ 10 bilhões. Naquele ano, foram US$ 11,3 bilhões em total, e, em 2024, US$ 12 4 bilhões.

O Brasil importa principalmente óleo diesel e fertilizantes e exporta, sobretudo, carne bovina, soja e café.

O premiê russo ressaltou o papel do Brasil como garantidor da segurança alimentar russa e disse que compartilhava da tese de que os países devem aumentar o volume de trocas comerciais.

Ele defendeu a aliança tecnológica e acelerar projetos científicos. Afirmou que a Rússia está disposta a compartilhar tecnologias de átomo pacífico (o Brasil tem interesse em pequenos reatores nucleares), inteligência artificial e soluções automatizadas, além de medicamentos.

Mikhail Mishustin disse que os países devem “aumentar pagamentos em moedas locais, a interação bancária e usar a arquitetura financeira independente”, assim como criar corredores de transporte e cadeias logísticas. A fala expressa um mantra da diplomacia de Moscou, que busca alternativas ao dólar para escapar do regime de sanções ocidentais e a exclusão do sistema financeiro internacional, severamente ampliado após a invasão da Ucrânia.

Mishustin ainda vai conversar em reservado com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em sala no gabinete do Itamaraty, e depois almoçar com o presidente, o vice, autoridades governamentais e empresários russos e brasileiros.

Estadão Conteúdo

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