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Mundo

Agricultores argentinos põem fim a três semanas de paralisação no campo

Arquivo Geral

02/04/2008 0h00

A trégua declarada hoje pelos produtores agropecuários da Argentina põe fim a três semanas de greve comercial, salve bloqueios de estradas e desabastecimento em todo o país e abre caminho para um diálogo no qual o campo e o Governo terão que curar as feridas abertas pelo conflito.

Quatro entidades que representam 290 mil produtores rurais anunciaram hoje uma suspensão de 30 dias da medida de força iniciada no último dia 13 contra um novo esquema de impostos decretado pelo Governo argentino sobre as exportações de grãos, medications que os agricultores vêem como um “confisco” de seus lucros.

O anúncio da trégua aconteceu durante um ato realizado por agricultores do país na cidade de Gualeguaychu (270 quilômetros ao norte de Buenos Aires), order um dia depois de organizações políticas, sociais e sindicais terem realizado uma grande passeata na capital em apoio ao Governo.

Os agricultores argentinos suspenderam a greve para discutir com o Governo uma “agenda” de soluções para a produção de grãos, laticínios e carnes, mas advertiram que retomarão a greve e os piquetes em um mês caso acordos não sejam obtidos.

Na segunda-feira, o Governo argentino anunciou que compensará os pequenos produtores – que na prática só pagarão os impostos vigentes até 11 de março, quando o novo esquema tributário foi anunciado -, mas os agricultores reafirmaram hoje suas dúvidas sobre essa medida.

Os dirigentes rurais asseguraram que um “ponto de inflexão” foi atingido, mas que “a luta continua até a vitória”.

O apoio da população urbana ao movimento foi considerado uma vitória por seus líderes, que pediram desculpas pelo desabastecimento gerado pela paralisação.

Durante o ato de apoio ao Governo argentino, realizado na terça-feira, a presidente do país, Cristina Fernández de Kirchner, vinculou as organizações agrárias com o golpe militar de 1976 e as responsabilizou por “humilhar os argentinos” com o desabastecimento de alimentos.

“Ficar com os contracheques do povo para engrossar o caixa, isso é ser golpista, isso é não ser democrático”, disse o dirigente rural Juan Echeverría diante de 30 mil agricultores reunidos em Gualeguaychu, após afirmar que os impostos sobre as exportações vão engordar os bolsos do Governo.

A decisão dos agricultores de não enviar sua produção aos mercados e de impedir o transporte de mercadorias afetou não só a chegada de alimentos básicos às cidades, mas também atingiu a atividade industrial por falta de matérias-primas, provocando perdas que especialistas ainda não se atrevem a quantificar.

Além disso, a medida paralisou o mercado da pecuária e o envio de grãos ao exterior, segmentos nos quais a Argentina é um dos principais produtores e exportadores mundiais.

A reação inicial de Cristina de ignorar as reivindicações dos camponeses e de não voltar atrás com os novos impostos despertou protestos nas ruas de Buenos Aires e em outras cidades do país.

Mais uma vez, o barulho de panelas batendo marcou as manifestações, lembrando a forma de reivindicação usada na crise de 2001 e que resultou na renúncia do então presidente Fernando de la Rúa (1999-2001).

O poderoso sindicato dos caminhoneiros se lançou às estradas para evitar os bloqueios, enquanto organizações de desempregados ligadas ao Governo argentino trataram de ocupar a Praça de Maio para diminuir a força dos “panelaços”, o que gerou algumas cenas de tensão.

A presidente argentina interpretou os protestos no campo e na cidade como “ataques” a seu Governo por “questões políticas”, além de questionar a origem da reivindicação agropecuária, que vinculou aos setores de direita, nos quais acredita haver ranços da sangrenta ditadura militar do país (1976-1983).

A ira dos agricultores, concretizada na firmeza dos protestos nas estradas, e a reação de desaprovação à política oficial entre os setores urbanos de classes média e alta obrigou Cristina a realizar dois atos públicos nos quais tentou reafirmar sua autoridade frente à crise.

A presidente argentina assumiu o cargo em dezembro de 2007 com uma avaliação positiva de 56%, cifra que no início de março já tinha caído para 47% de acordo com as pesquisas da empresa privada de consultoria Poliarquia.



 

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