“Hoje é só o começo, não o final”, disse o então primeiro-ministro do Reino Unido, Tony Blair, naquela Sexta-feira Santa de 1998.
De fato, foi necessário que se passasse uma década para que as instituições de Governo, divididas entre católicos e protestantes, pudessem encontrar uma estabilidade que hoje permite avistar esse “final” a que Blair se referiu.
No caminho, ficaram vários cadáveres políticos, sobretudo entre os partidos mais moderados, como o Unionista do Ulster (UUP) e o Social-democrata e Trabalhista (SDLP), principais representantes das comunidades protestante e católica, respectivamente, até pouco depois de firmado o acordo de paz.
Apesar da oposição do DUP, 71,2% dos norte-irlandeses confirmaram em plebiscito o documento, e foi dado sinal verde para a formação de um Executivo autônomo no qual se incluiu Sinn Féin de Gerry Adams, mesmo em um momento no qual seu braço paramilitar, o IRA, ainda não havia abandonado a luta armada nem destruído seus arsenais.
O partido de Paisley tomou posse, no entanto, em duas pastas ministeriais, mas se negou a deixar seus membros participarem das reuniões do gabinete do Governo norte-irlandês.
O trabalho de demolição do DUP e a demora do Sinn Féin para conseguir o desarmamento do IRA, provocaram, em 2002, a desintegração do Executivo autônomo, dirigido até então pelo unionista David Trimble e o nacionalista Seamus Mallon.
Só um ano depois, o DUP e o Sinn Féin se transformaram nos grupos mais votados nas eleições autônomas e os Governos de Londres e Dublin reconheceram que qualquer possibilidade de reativar o processo de paz deveria passar pelas mãos dos radicais.
Curiosamente, tudo o que o Sinn Féin negou a Trimble, que pagou caro por sua corajosa aposta de paz, foi concedido a Paisley após firmado o acordo de Saint Andrews (Escócia, 2006), que se comprometeu a desarmar o IRA e a aceitar a autoridade da Polícia e da Justiça britânica na Irlanda do Norte.
Mérito para o reverendo, que, em troca, aceitou em maio do ano passado, dirigir o Governo regional junto ao “número dois” republicano, o ex-comandante do IRA Martin McGuinness.
Não é estranho que Paisley justifique essa decisão, impensável e impossível até pouco tempo, negando a validade do acordo da Sexta -feira Santa e, ao mesmo tempo, elogiando o de Saint Andrews, que ele próprio negociou com Londres e Dublin.
Para Mark Durkan, líder do SDLP e um dos articuladores do processo de paz, a realidade é que acabaram as desculpas do reverendo para continuar dizendo não.
De acordo com o político nacionalista, “o pacto escocês não é nada mais que o açúcar que adoça o remédio receitado pelo acordo da Sexta-feira Santa.
Durkan reconheceu que “houve mudanças em Saint Andrews, mas não foi alterada a arquitetura da Sexta-feira Santa. O que o DUP e o Sinn Féin fizeram foi fazer alguns ajustes que o DUP pode acabar lamentado”.
O acordo da Sexta-feira Santa, segundo ele, resistiu à passagem do tempo.
Naturalmente, unionistas e nacionalistas mantêm seus objetivos históricos: alguns querem a permanência no Reino Unido e outros a unificação irlandesa. A diferença é que agora ambos os grupos consideram as instituições do Governo autônomo, nascidas em Belfast na Sexta-Feira Santa de 1998, como as únicas leais as suas aspirações políticas.