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Mundo

À sombra da guerra na Ucrânia, Europa critica ação de Trump contra Maduro

União Europeia reage com cautela à ação dos EUA na Venezuela e cobra respeito ao direito internacional

Redação Jornal de Brasília

03/01/2026 14h48

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Foto: Christian Mang/AFP

JOSÉ HENRIQUE MARIANTE
FOLHAPRESS

A Europa amanheceu neste sábado (3) presa ao gerúndio. Ao comentar a operação dos EUA contra Nicolás Maduro, líderes e governos do continente inicialmente não arriscaram nada muito além de “observando” e “monitorando” a situação. Faltavam elementos para falas mais profundas, mas o comedimento tinha origem no próprio quintal: a guerra da Ucrânia.

“A guerra de agressão” russa, como frequentemente escreve a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, tem como argumento crítico para os europeus as leis internacionais. Vladimir Putin as violou ao invadir a Ucrânia, em 2022, e, nas projeções da própria União Europeia, se prepara para repetir a dose em territórios do bloco em futuro próximo.

A ameaça existencial representada pelo presidente russo não poderia ser ignorada no momento em que Donald Trump, um aliado ambíguo neste segundo mandato, faz algo juridicamente semelhante na Venezuela. Em sua primeira manifestação sobre o assunto, Kaja Kallas, chefe da diplomacia da UE, lembrou que, “em todas as circunstâncias, os princípios do direito internacional e da Carta das Nações Unidas devem ser respeitados”.

As críticas a Maduro e preocupação com os cidadãos da UE no país tinham espaço na postagem feita no X, mas o pedido de “contenção” era o que chamava a atenção.

Respeito ao direito internacional também apareceu no comentário de Von der Leyen, que acrescentou uma menção otimista sobre apoiar “transição pacífica e democrática”.

Na manhã europeia, os comunicados só foram ganhando corpo com o passar do tempo e a revelação de mais detalhes sobre a operação militar em território venezuelano. O governo espanhol, do socialista Pedro Sánchez, apelou “à desaceleração e à adoção de medidas em conformidade com o direito internacional”.

O comunicado lembrou ainda que a Espanha “continuará a acolher, dezenas de milhares de venezuelanos que tiveram de abandonar o seu país por motivos políticos e que está disposta a ajudar na busca de uma solução democrática, negociada e pacífica para o país”.

E na Espanha que se encontra Edmundo González Urrutia, o candidato do grupo de María Corina Machado derrotado na eleição de 2024 não reconhecida pela UE e pela maioria dos países europeus.

De junho a setembro de 2025, última estatística disponível, 18.595 venezuelanos pediram asilo na UE, respondendo por mais de 11,2% do total. A nacionalidade lidera os pedidos neste ano, desbancando sírios e afegãos.

Pego em entrevista para comentar o assunto, Keir Starmer declarou que o Reino Unido não havia participado da operação nem tinha sido informado sobre seu planejamento _talvez em reflexo do desastrado apoio britânico à invasão do Iraque, nos anos 2000.

Questionado se condenava a ação americana, o primeiro-ministro declarou que aguardava mais informações da Casa Branca.

Condenação de fato veio horas depois da França, do governo e da principal força de oposição a Emmanuel Macron. O ministro de Relações Exteriores afirmou que “a operação militar que levou à captura de Nicolás Maduro viola o princípio de não recorrer à força, que sustenta o direito internacional”.

“A França reitera que nenhuma solução política duradoura pode ser imposta de fora e que somente os povos soberanos podem decidir seu futuro”, escreveu Jean-Nöel Barrot no X.

Em mensagem mais elaborada, a líder de ultradireita Marine Le Pen escreveu que “havia mil razões para condenar o regime de Nicolás Maduro”, um líder “comunista, oligárquico e autoritário… que mergulhou milhões de venezuelanos na miséria, quando não no exílio”.

“Mas há uma razão fundamental para se opor à mudança de regime que os EUA acabaram de provocar na Venezuela. A soberania dos Estados nunca é negociável, independentemente de seu tamanho, poder ou do continente em que se encontram. É inviolável e sagrada.”

Distante do tom de torcida usado por outros expoentes da direita global, como o argentino Javier Milei, Le Pen se ateve à argumentação sobre as consequências da operação.

“Renunciar a esse princípio hoje para a Venezuela, para qualquer Estado, equivaleria a aceitar amanhã nossa própria servidão. Seria, portanto, um perigo mortal, num momento em que o século 21 já é palco de grandes mudanças geopolíticas que fazem pairar sobre a humanidade o risco permanente de guerra e caos.”

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