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Economia

Vorcaro esteve 17 vezes no BC em 2025, em quatro áreas do órgão, e chegou a ficar 8h em um único dia

Ele participou de reuniões com membros da cúpula da instituição, como o presidente Gabriel Galípolo, em diretorias e departamentos estratégicos

Redação Jornal de Brasília

05/02/2026 6h13

daniel vorcaro

Foto: Reprodução

O banqueiro Daniel Vorcaro, dono do liquidado Banco Master, esteve 17 vezes nas dependências do Banco Central em Brasília e São Paulo em 2025. Ele participou de reuniões com membros da cúpula da instituição, como o presidente Gabriel Galípolo, em diretorias e departamentos estratégicos para os seus interesses naquele momento.

Registros obtidos pelo Estadão via Lei de Acesso à Informação (LAI) mostram que Vorcaro visitou a autarquia em momentos-chave dos processos de tentativa de retomada de liquidez do banco, de oferta de venda para o Banco de Brasília (BRB) e, posteriormente, de início das tratativas de liquidação do banco. O levantamento não considera reuniões por videoconferência.

Procurados, a defesa de Vorcaro e o BC não se manifestaram.

Os registros de entrada e saída do banqueiro das dependências do BC revelam que ele passou mais de 34 horas na autoridade monetária no ano em que as atividades do Master foram encerradas.

Vorcaro, em depoimento à Polícia Federal, diz que o Master foi escrutinado pelo BC, mas que, em nenhum momento, foi avisado sobre risco de liquidação. Essa é a principal tese da sua defesa. Já o diretor de Fiscalização do BC, Ailton de Aquino, afirmou às autoridades que a sua área identificou os indícios de fraudes e encaminhou rapidamente os documentos ao Ministério Público e à Polícia Federal.

O périplo de Vorcaro pelo BC no último ano ocorreu no gabinete da Presidência, ocupado por Galípolo; na Diretoria de Fiscalização, de Aquino; no Departamento de Supervisão Bancário; na Gerência Administrativa em São Paulo; no Comitê de Governança, Riscos e Controles; e no Comitê de Informações Financeiras.

Das 17 visitas de Vorcaro ao BC, cinco foram para se reunir com Galípolo em seu gabinete. No dia 11 de abril, quando Vorcaro passou mais de três horas com Galípolo, o BRB concluiu a due diligence (auditoria interna) no Master, e R$ 19 bilhões em ativos do perímetro da negociação original foram excluídos.

No mês seguinte, no dia 8 de maio, Galípolo e Vorcaro se encontraram novamente, desta vez por uma hora e 19 minutos e, no mesmo dia, o BC decidiu dispensar temporariamente o recolhimento compulsório – depósito que os bancos são obrigados a reserva ao BC – do Master à autarquia.

Galípolo registrou em sua agenda todos os encontros com Vorcaro, mas, nos dias 1º e 11 de abril, o banqueiro ficou o dobro de tempo no BC do que o previsto na agenda. No dia 1º, ele ficou 2 horas e 42 minutos no banco; no dia 11, foram 3 horas e 8 minutos. Nas duas ocasiões, a agenda de Galípolo previa um encontro de uma hora.

Nesse período, o Master já vinha recebendo recursos de uma linha do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para honrar suas dívidas, e o Banco Central já temia que a exposição ao Master pudesse levar o BRB à crise.

A visita de 8h no dia em que venda do Voiter é autorizada

Em uma dessas visitas, no dia 22 de julho, Vorcaro ficou por 8 horas e 23 minutos na autarquia, com entrada às 9h54, autorizada pela Diretoria de Fiscalização, e saída às 18h18 registrada pela mesma diretoria e pelo Departamento de Supervisão Bancária, conforme os registros obtidos pelo Estadão.

Dois dias após esse encontro de mais de 8 horas, o BC autorizou a venda do Banco Voiter ao ex-sócio de Vorcaro, o banqueiro Augusto Lima. O Voiter integrava o conglomerado prudencial do Master e teve a venda autorizada à Lima que depois acabou sendo preso na Operação Compliance Zero. A autorização ocorreu porque Lima assumiu passivos do Master, diminuindo assim o custo para o FGC.

Meses antes, em fevereiro, quando o Master tentava cumprir o ultimato dado pelo Banco Central em novembro de 2024 para tentar melhorar os seus indicadores de liquidez, como revelou o Estadão, Vorcaro esteve três vezes na autarquia.

À época, o Master já estava vendendo carteiras para o BRB com documentações adulteradas – que, na visão da PF e do Banco Central, configurariam fraudes. Em janeiro, foram seis contratos no valor de R$ 1,66 bilhão; em fevereiro, outros seis, chegando a R$ 1,82 bilhão.

Outra data em que o banqueiro esteve no BC foi 17 de março, quando Master foi notificado oficialmente pelo Banco Central de que as carteiras vendidas ao BRB tinham documentação insuficiente.

Em setembro, logo após a negativa da operação com o BRB, no dia 3 de setembro, Vorcaro esteve no BC nos dias 4 e 9. No dia 17 de novembro, houve um último encontro, mas virtual, entre Vorcaro e Ailton de Aquino.

No mesmo dia, o banqueiro foi preso pela Polícia Federal enquanto tentava sair do País, horas após o anúncio de que a Fictor e um grupo de investidores árabes estaria interessado em comprar o banco.

Sua defesa usou essa reunião para argumentar que Vorcaro não desejava fugir, já que o BC teria sido avisado sobre uma viagem a Dubai para “assinatura do contrato e anúncio da operação com o grupo de investidores estrangeiro”.

Nesta segunda-feira, 2, a Fictor, que tentou comprar o Master, entrou com um pedido de recuperação judicial na Justiça de São Paulo, com dívida de R$ 4 bilhões.

Estadão Conteúdo

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