ALEX SABINO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
Todo final de tarde, Edilaine Santos da Silva, 33, soma as vendas. Ela tem um objetivo claro.
“Crédito é o que mais preciso para o meu negócio. Sempre faço isso para provar que estou me esforçando em controlar meu dinheiro”, afirma.
Com bolo na mão, ela desce correndo a estreita escada do apartamento e percorre a viela onde mora, em Paraisópolis, o maior bairro favelizado em São Paulo. A região na zona sul da capital é casa de 58,2 mil pessoas, segundo o Censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) de 2022.
A dívida de Edilaine está em cerca de R$ 10 mil. Pelos métodos tradicionais, seria impossível para ela conseguir crédito para a “Delícias da Edi”, como chama seu comércio. A aposta está em instituições que concedem dinheiro no chamado score comportamental ou social.
Criado na Califórnia, nos Estados Unidos, o score comportamental veio da percepção de que consumidores sem acesso a crédito tradicional tinham de ser analisados de outra forma. O método rastreia hábitos financeiros e analisa hábitos pessoais do interessado em obter empréstimo.
“É muito injusto, em um país como o nosso, a gente avaliar empréstimo olhando pelo retrovisor e vendo apenas quem pagou e quem não pagou alguma conta. O que importa é como eu me comporto com o dinheiro, qual é a minha relação com ele e se naquele momento estou comprometido com as minhas finanças”, diz Paula Esteves, 44, fundadora do Instituto WorkLover, dedicada a não deixar que MEIs (microempreeendores individuais) e microempresas fechem.
A receita ensinada por Paula é a necessidade de separar a entrada de dinheiro pessoal e da empresa.
Segundo ela, a mistura entre as duas coisas e a perda do controle representam uma das principais causas da desistência de empreendedores.
Voltado a moradores de comunidades, o G10 Bank, da ONG G10 Favelas, tenta encontrar maneiras de impulsionar o comércio em Paraisópolis. Um dos métodos é a concessão de crédito fora do histórico financeiro tradicional. Depoimentos de pessoas influentes na comunidade, por exemplo, servem como validadores de pedidos de empréstimo.
“Nós criamos uma espécie de comitê de crédito. É organizado por meio de um movimento chamado ‘presidente de rua’. São líderes que cuidam de grupos de 50 famílias, e esses líderes nos ajudam a tomar a decisão para que o crédito seja concedido ou não”, afirma Gilson Rodrigues, fundador do G10 Favelas.
“É algo que vai além do Serasa. É uma avaliação de participação comunitária, da nota dos filhos [na escola], do envolvimento na comunidade. Diversos fatores geram pontuação para a concessão de crédito ao morador”, completa.
Uma das portas de acesso é o programa Donas de Si, para mulheres empreendedoras de Paraisópolis. A iniciativa é comandada por Paula Esteves. Ela incentiva que suas pupilas, como Edilaine, por exemplo, usem o aplicativo “Separadin”, criado por sua ONG, para segregar a entrada de receita da empresa e pessoal.
Tanto Paula quanto Gilson acreditam que programas de score comportamental e social vão crescer porque o método apenas financeiro não é sustentável.
O número de MEIs inadimplentes em 2024 era de 6,2 milhões. São 40% dos registros ativos no país. O principal motivo é o não pagamento do DAS (Documento de Arrecadação do Simples Nacional), que representa INSS, ISS e ICMS.
De 1,8 milhão de empresas notificadas pela Receita Federal no ano passado, 1,1 milhão eram MEIs. A dívida total delas era de R$ 26,7 bilhões.
Na pessoa física, o Brasil atingiu um número recorde em abril de 2025, com 70,3 milhões de inadimplentes. Cada negativado devia, em média, R$ 4,7 mil.
“Como o crédito tradicional não pode refletir plenamente o risco, dados de fontes alternativas têm se tornado cada vez mais importantes para os modelos de avaliação de crédito porque cobrem uma gama maior de variáveis”, diz o chinês Zhongyuan Xu, pesquisador e professor da Universidade Emory, nos Estados Unidos.
Ele é autor do estudo “Score de crédito usando dados alternativos: uma máquina de aprendizado”, publicado pela Goizueta Business School.
Outros especialistas defendem também o uso de inteligência artificial que registre mudanças de hábitos financeiros, aplicativos de celular, frequência de recargas, compras feitas em e-commerces e cruzamento de informações entre vendas do comércio e deslocamentos registrados por sistema de localização.
“Dever ou não dever é o resultado final. O que vale é o desenvolvimento do hábito de estar comprometido com as finanças. Se estou me relacionando bem com o meu dinheiro, vou poder pagar. Se a minha dívida é grande demais, não vou ter nenhuma decisão para tomar. Só vou levar a vida”, finaliza Paula.
É deste ciclo vicioso que Edilaine pretende sair. Ela já deixou um relacionamento abusivo para viver sozinha com os seis filhos. Sua primeira gravidez veio quando tinha 14 anos e o mais velho está com 18. Seu antigo marido não permitia que ela fizesse cirurgia para impedir gravidez.
Atualmente, ela vende entre R$ 400 e R$ 500 em bolos por mês na comunidade de Paraisópolis. Uma vez por semana coloca um ponto na avenida Ibirapuera, onde tem uma clientela estabelecida. Vai também à estação de metrô Giovanni Gronchi.
“Assim eu vou conseguindo meu dinheiro e me mantendo. Quando conseguir crédito, vai ficar muito mais fácil”, acredita.