MATHEUS DOS SANTOS E TAMARA NASSIF
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
O Tesouro Nacional recomprou R$ 12 bilhões em títulos prefixados e R$ 15,4 bilhões em títulos IPCA+ (indexados à inflação) nesta segunda-feira (16), em uma intervenção no mercado depois de uma escalada nos juros futuros.
A estratégia buscou conter a disparada das curvas de juros nos últimos dias, quando investidores passaram a colocar na conta a possibilidade de a taxa Selic cair em um ritmo mais lento do que o esperado. A leitura é que, com o preço do petróleo pressionado pela guerra no Irã, é possível que a inflação no Brasil sofra um repique, forçando o Copom (Comitê de Política Monetária) a adotar uma postura mais cautelosa na política de juros.
A medida foi anunciada pelo Tesouro pela manhã em um comunicado que dizia que o objetivo era “oferecer suporte ao mercado de títulos públicos, assegurando seu bom funcionamento e o de mercados correlatos”.
Diversos bancos e corretoras anunciaram nesta segunda uma redução na expectativa de corte de juros pelo Copom na reunião desta semana.
Além das recompras, o Tesouro anunciou o cancelamento dos leilões tradicionais de títulos indexados a índices de preços e de prefixados, previstos para esta terça-feira (17) e quarta-feira (18). “A principal sinalização com a ação do Tesouro é de que ele está alerta ao que está ocorrendo no mercado. O leilão extraordinário de compra trouxe alívio para a curva de juros”, afirma Felipe Tavares, economista-chefe da BGC Liquidez.
Nos leilões de recompra, foram adquiridos R$ 12 bilhões em títulos prefixados com vencimentos entre 2028 e 2032. A proposta do Tesouro era recomprar até 25 milhões de títulos.
Na parte da tarde, um segundo leilão de recompra foi realizado, desta vez com títulos indexados à inflação. O Tesouro indicou que pretendia recomprar até 10 milhões de títulos. O volume financeiro somou R$ 15,4 bilhões.
Em ambos os casos, o Tesouro recomprou um volume inferior ao volume máximo anunciado.
Após as operações, a taxa do DI (Depósito Interfinanceiro) para janeiro de 2028 estava em 13,57% no fim da tarde, com baixa de quase 30 pontos-base ante o ajuste de 13,85% da sessão anterior. Na ponta longa da curva, a taxa do DI para janeiro de 2035 marcava 13,8%, com recuo de 36 pontos-base ante 14,155%.
O dólar fechou o dia em queda de 1,62%, cotado a R$ 5,230, enquanto o Ibovespa teve alta de 1,24%, a 179.875 pontos.
“Essa disparada nas taxas de juros acabou ‘obrigando’ o Tesouro a recomprar parte dos títulos, assim como havia feito em 2024, quando houve estresse no mercado financeiro, e durante a pandemia de coronavírus”, diz André Galhardo, economista-chefe da Análise Econômica.
“Não se trata de uma mudança de postura permanente, mas transitória, até que as coisas se acalmem. O cancelamento dos leilões ainda preserva a própria capacidade de liquidez do Tesouro, já que, com taxas de juros mais altas, o custo para rolar a dívida é maior.”
A estratégia foi vista com bons olhos pelo mercado diante da disparada do preço do petróleo. O barril do Brent, referência internacional, foi alçado ao patamar de US$ 100 na semana passada, quando investidores passaram a prever que as consequências do conflito no Oriente Médio não serão de curto prazo.
O temor é que o preço da commodity seja repassado para combustíveis, como gasolina e diesel, e resulte em um repique inflacionário, sobretudo em países já avançados nos ciclos de corte de juros. Caso o Fed (Federal Reserve, o banco central dos EUA), por exemplo, tenha que mudar de rota para conter o avanço da inflação, o resultado seria um efeito-cascata na economia global, com fortalecimento do dólar e retirada de investimentos de praças emergentes.
Se a inflação brasileira avançar e o Fed voltar a subir a taxa de juros dos Estados Unidos, as pressões sobre o Copom seriam ainda maiores –o que afetaria a trajetória da Selic. O mercado de juros passou a colocar essa leitura na conta.
“Olhando para os vencimentos de janeiro de 2027, 2028 e 2029, tivemos uma abertura relevante na curva. O mercado começou a precificar juros mais altos adiante, o que impacta diretamente os ativos de renda fixa e as taxas oferecidas pelo Tesouro”, afirma Viviane Las Casas, chefe de renda fixa da Valor Investimentos.
O preço do contrato DI de janeiro de 2028, por exemplo, subiu 3,31% na sexta-feira. Nesta segunda, registrou queda de 2,03%.
Diante da disparada, a estratégia do Tesouro “não foi uma surpresa”, diz Ian Lima, gestor de renda fixa da Inter Asset.
“A forte abertura das taxas em um tão curto espaço de tempo já dava indícios de que alguma intervenção deveria acontecer. E foi benigna. O Tesouro fez grande parte das emissões dos últimos nove meses a taxas mais baixas do que as dos últimos dias. Na prática, ele recompra a mesma dívida em taxas mais atraentes, o que, no final do dia, é positivo para o pagador de impostos (que é, em última instância, quem banca os juros do déficit do governo).”
O anúncio antes das 9h da manhã também foi positivo, segundo Luis Felipe Vital, estrategista-chefe de macroeconomia e dívida pública da Warren Investimentos. Na análise dele, isso contribuiu para que a abertura das negociações fosse positiva.
Ele ressalta que o Tesouro atuou em um trecho específico da curva: até 2032, nos prefixados, e até 2053, nos IPCA+.
“As partes curta e intermediária da curva de juros foram as que mais sofreram com essa reprecificação causada pela guerra e pela mudança nas expectativas para a trajetória da taxa Selic”, diz ele.
PREVISÃO
Economistas já admitem a possibilidade de o Copom manter a taxa básica de juros em 15% por mais uma reunião. Em relatório divulgado nesta segunda-feira, o banco XP afirmou acreditar na manutenção da Selic em 15% na reunião desta semana.
“Nossa projeção anterior indicava um corte de 0,50 p.p. O comitê poderia optar por uma redução de menor magnitude. Contudo, em nossa avaliação, dado o nível elevado da taxa Selic, esse pequeno ajuste faria pouca diferença. Acreditamos que, se o Copom não estiver confiante para cortar a taxa de juros em 0,50 p.p., é melhor deixá-la inalterada e fazê-lo com mais embasamento em abril”, afirma.
O banco BTG Pactual prevê um corte de 0,25 ponto percentual. “O tamanho do choque recente no petróleo e a elevada incerteza sobre sua persistência justificariam, em nossa avaliação, um início de ciclo mais conservador, com corte de 25 pontos, acompanhado de sinalização de que o ciclo deve continuar na próxima reunião, com ritmo dependente da evolução do cenário”.