MARIANA BRASIL E ISABELLA MENON
FOLHAPRESS
A reunião do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com seu homólogo dos EUA, Donald Trump, foi concentrada na discussão sobre tarifas. O petista, como anunciou nesta quinta-feira (7), conseguiu um prazo de 30 dias ao propor um grupo de trabalho entre os países para resolver questões ligadas às cobranças e à investigação comercial aberta pelos americanos em 2025.
Ao comentar o encontro, o presidente americano afirmou que representantes dos dois países manteriam contato e que novos encontros poderiam ser agendados em breve. Segundo integrantes do governo brasileiro, apesar da reunião ter tido uma avaliação positiva, não há uma vitória definitiva.
Isso porque interlocutores do petista avaliam que o mandato de Trump é permeado por idas e vindas e classificam seu comportamento como “errático”.
A investigação sob a Seção 301, que iniciou em julho do ano passado, é conduzida pelo USTR (Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos). Seu representante, Jamieson Greer, também esteve na reunião. A apuração tem entre seus alvos o Pix, o comércio da rua 25 de Março, em São Paulo, e o etanol.
Vinculado a uma legislação americana de 1974, o regulamento autoriza o governo dos EUA a retaliar, com medidas tarifárias e não tarifárias, qualquer nação estrangeira que tome práticas vistas como injustificadas e que penalizam o comércio americano. China e União Europeia já foram alvo.
Segundo integrantes do governo brasileiro, Greer foi quem assumiu uma postura mais dura durante o encontro. Porém, relatos indicam que, durante as três horas da reunião, os temas mudavam constantemente e, por vezes, eram atropelados.
Durante a conversa, o governo brasileiro afirma que os EUA insistem em tarifas específicas para justificar um suposto déficit com o Brasil. Para o governo petista, a postura demonstra falta de substância e tenta reduzir margem para medidas unilaterais.
Porém, o governo brasileiro admite que o resultado da Seção 301 pode ser negativo para o Brasil, uma vez que se trata de uma decisão unilateral e o governo Trump costuma tentar sempre sair vitorioso de negociações. Diferente do que se imaginava, temas como minerais críticos foram tratados, mas não tiveram tanto peso quanto as tarifas.
Em relação aos minerais críticos, não houve a assinatura de memorandos ou documentos formais sobre o assunto até o momento. Mas, em entrevista a jornalistas, Lula disse que o país está disposto a negociar com todos os países, mas quer manter soberania.
“Queremos compartilhar nosso potencial com quem queira fazer investimentos no Brasil. Não temos preferência”, disse Lula. “Queremos compartilhar com empresas americanas, chinesas, alemãs, japonesas, francesas. Quem quiser participar conosco, para fazer a separação e produzir riquezas, estão convidados ao Brasil. E isso é permitido pela regulação aprovada”.
Já no tema das big techs, o interesse americano foi centralizado na questão do comércio eletrônico na OMC (Organização Mundial do Comércio). No fim de março, as negociações ministeriais da organização chegaram a um impasse entre EUA e Brasil, uma vez que houve a prorrogação da moratória do comércio eletrônico que isenta de tarifas os downloads digitais.
O principal impasse está concentrado nos serviços digitais, como streaming e downloads, e também nas tarifas unilaterais. O Brasil, como a Turquia, bloqueou a renovação dessa isenção de 28 anos, buscando manter a soberania para tributar os serviços, enquanto os EUA pressionam pela isenção contínua.
Quando a pauta apareceu na reunião, o Brasil explicou que não é contra a moratória, mas defende um prazo de 2 anos, enquanto os EUA queriam prazos muito mais longos ou indefinidos.
O ano deve ser marcado por eleições no Brasil e nos Estados Unidos. Os EUA passam pelas midterms (eleições do legislativo) em novembro, e há uma chance de os governos democratas retomarem o controle do Congresso. Porém, na visão do governo brasileiro, não há esperança de que o cenário mundial vá mudar entre 2026 e 2030, uma vez que a extrema direita segue forte e atacando a esquerda.
Durante a reunião, houve uma mudança de protocolos quando foi anunciado que o encontro no Salão Oval, previsto na agenda oficial do presidente, não aconteceria. Integrantes do governo afirmam que o presidente Lula solicitou para que não houvesse esse momento antes da reunião começar.
Ainda afirmam que a reunião, apesar de ter sido organizada às pressas, é fruto de um constante trabalho e contato entre os brasileiros e americanos ao longo dos meses e que o convite para a reunião desta semana partiu do governo Trump.