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Economia

Tarifaço: Entenda por que China e Argentina aliviaram queda nas exportações brasileiras para os EUA

O avanço das exportações para os chineses e argentinos contribuiu para o resultado positivo da balança comercial de agosto

Redação Jornal de Brasília

15/09/2025 6h37

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

O crescimento das exportações brasileiras para a China e a Argentina, em agosto, ajudou a compensar a queda nas vendas para os Estados Unidos, afetadas pelo duro tarifaço imposto pelo presidente americano Donald Trump.

No mês passado, as exportações brasileiras para os EUA recuaram 18,5% na comparação com agosto de 2024 e somaram US$ 2,762 bilhões, de acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic). Na contramão, as exportações para a China aumentaram 31% (US$ 9,494 bilhões) e para a Argentina subiram 40,4% (US$ 1,642 bilhão).

O avanço das exportações para os chineses e argentinos contribuiu para o resultado positivo da balança comercial de agosto. Ao todo, as vendas brasileiras somaram US$ 29,861 bilhões, o que representou um crescimento de 3,9% na comparação com 2024 e ajudou o Brasil a colher um superávit de US$ 6,133 bilhões.

“No início de julho, foi anunciada a tarifa adicional de 40%. Houve um movimento de antecipar (as exportações) porque a tarifa só valeria em agosto. Em julho, as exportações para os EUA subiram. Esse movimento de antecipação ocorreu, principalmente, com aeronaves, suco, produtos de ferro e aço”, afirma Júlia Marasca, economista do banco Itaú.

“Em agosto, quando passa a valer a tarifa, houve a queda das exportações para os EUA. E foi bastante difusa entre os bens exportados para lá”, acrescenta.

Historicamente, os Estados Unidos, a China e a Argentina estão entre os principais destinos das exportações do Brasil. Juntos, esses três países responderam por quase metade das vendas de produtos brasileiros.

O crescimento no comércio com os chineses e argentinos tem sido impulsionado por diferentes motivos.

Na China, as exportações estão sendo puxadas pela venda da soja brasileira, num movimento de preferência do governo chinês pelo grão brasileiro em detrimento do produto dos Estados Unidos.

Em agosto deste ano, as vendas de soja do Brasil para a China foram de quase US$ 3,3 bilhões, mais do que os US$ 2,6 bilhões contabilizados no mesmo mês do ano passado.

“A China está comprando menos soja americana e dando prioridade para a soja brasileira e argentina”, afirma Júlia, do banco Itaú. “Pode ser um comportamento para ter uma moeda de troca para negociar com os Estados Unidos.”

A guerra comercial detonada por Donald Trump levou os Estados Unidos a aplicarem tarifas de importação sobre os seus parceiros comerciais. Ao lado da Índia, o Brasil recebeu a maior de todas — os produtos brasileiros foram tarifados em 50% ao todo. Com a China, as negociações seguem até novembro.

A tarifa recíproca inicial do Brasil era de 10%, mas ela foi acrescida de mais 40% por Trump como justificativa pelo tratamento dado pelo Brasil ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Os EUA, no entanto, abriram uma ampla lista de exceções.

“Os americanos estão com muito produto (soja) estocado. Eles estão tendo um prejuízo muito grande. E, em janeiro, já entra a safra brasileira e aí não terão como exportar”, afirma José Augusto de Castro, presidente-executivo da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB).

As exportações para a Argentina têm avançado na esteira da melhora econômica do país. Após um duro ajuste no início de mandato de Javier Milei, o país enfrentou uma recessão econômica no ano passado, mas retomou o crescimento em 2025.

“O aumento (das exportações) para a Argentina tem mais a ver com a recuperação econômica deles”, afirma Júlia, do Itaú.

A derrota de Milei para o peronismo nas eleições legislativas da província de Buenos Aires, no entanto, abriu um campo de incerteza sobre o rumo econômico do governo argentino. A dúvida é se a agenda econômica do presidente argentino terá apoio político suficiente para seguir em frente.

Um dos grandes destaques tem sido a retomada da venda de veículos para o país vizinho. Em agosto, as vendas alcançaram US$ 360,2 milhões. No mesmo mês do ano passado, somaram US$ 184,8 milhões.

“O perfil de produtos exportados para os Estados Unidos é muito mais industrial. É uma característica intraindústria, o que é relativamente raro na nossa pauta”, afirma Livio Ribeiro, pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV/Ibre) e sócio da consultoria BRCG.

“Sem entrar no mérito dos produtos em específico, a gente tem uma estrutura de comércio parecida com a Argentina. Então, de imediato, o fato de ter uma estrutura de comércio intraindústria com a Argentina seria um fator que poderia fazer com que houvesse algum tipo de suavização do efeito americano”, acrescenta.

Reorganização

Os dados do comércio exterior ainda são insuficientes para apontar uma tendência clara de como as exportações brasileiras devem se direcionar nesse cenário de tarifaço imposto pelos Estados Unidos.

“Tem de lembrar que os efeitos gerais de um corte na balança de produtos de vendas para os EUA não são muito grandes. É um tarifaço bem aguado com as exceções que foram colocadas na mesa”, afirma Lívio.

O Itaú, por exemplo, estima que a tarifa efetiva adotada pelos EUA para as importações brasileiras subiu para 30%. O impacto nas exportações brasileiras pode ser de US$ 13 bilhões em 12 meses, mas o banco avalia que esse montante deve recuar para US$ 7 bilhões, dado que o Brasil deve conseguir redirecionar parte das suas exportações, sobretudo as commodities.

“Se o Brasil conseguir realocar parte das exportações, o impacto ficará mais na casa de US$ 7 bilhões em 12 meses, mas vai depender muito de como esse comércio global deve se reorganizar”, afirma Júlia.

Por ora, já há alguns indícios de como o Brasil tem conseguido driblar o tarifaço imposto pelos EUA. As exportações de carne bovina estão aumentando para países como México, Argentina, Chile, China e Rússia. E as vendas de pescado e frutas estão sendo realocadas para nações da América do Sul.

“A parte de alimentícios está sendo mais fácil de realocar. O que não parece que está sendo fácil de realocar é essa parte de ferro e aço, aeronaves, máquinas e equipamentos. Essa parte de manufaturados é mais desafiadora, seja porque tem uma exposição muito grande aos EUA, seja porque é um produto de demanda específica.”

O banco projeta que o Brasil deve colher um superávit de US$ 65 bilhões em 2025. No ano passado, o saldo comercial foi de US$ 74,6 bilhões.

Estadão Conteúdo

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