Menu
Economia

Servidor do Banco Central tentou intermediar venda de braço do Master ao Nubank, mostram mensagens

O negócio não foi concretizado, e a PF não aponta suspeitas de irregularidades do Nubank no caso

Redação Jornal de Brasília

12/08/2026 6h18

sergio

Foto: Divulgação Câmara dos Deputados

A investigação da Polícia Federal sobre a cooptação de dois servidores do Banco Central pelo banqueiro Daniel Vorcaro obteve diálogos que indicam a atuação de um funcionário da autarquia para auxiliar Vorcaro a vender um braço do Banco Master para o Nubank. Procurado, o BC não se manifestou.

O negócio não foi concretizado, e a PF não aponta suspeitas de irregularidades do Nubank no caso. Procurado, o Nubank afirmou que declinou a proposta de aquisição do Letsbank, do grupo de Vorcaro.

“O Nubank recebe regularmente propostas de diversas instituições e submete cada solicitação a uma análise de viabilidade de negócio, aplicando critérios rigorosos de compliance, governança e gestão de risco a toda avaliação preliminar. A maioria não avança além das etapas iniciais. Nesse contexto, o Letsbank foi uma das várias instituições apresentadas como possível oportunidade de aquisição nos últimos anos, e o Nubank declinou a proposta”, diz a nota.

Belline Santana e Paulo Sérgio Souza, respectivamente, ex-chefe e ex-chefe adjunto do Departamento de Supervisão Bancária do Banco Central, foram alvos da terceira fase da Operação Compliance Zero e afastados das suas funções, por suspeita de terem recebido pagamentos de propina de Vorcaro em troca de fornecer informações internas do BC sobre a fiscalização do Master e prestar uma assessoria informal ao banqueiro para a defesa dentro da própria autarquia. Eles negam terem realizado atos ilícitos para favorecer Vorcaro.

Segundo apuração do Banco Central, Paulo Sérgio Neves de Souza é suspeito de receber cerca de R$ 8 milhões em propina do Master. Já Belline Santana, também de acordo com o BC, recebeu pelo menos R$ 4 milhões.

Diálogos inéditos obtidos pelo Estadão indicam que, além dessas suspeitas, Paulo Sérgio Souza também teria usado sua influência no setor bancário para tentar intermediar a venda do Letsbank, que pertencia a Vorcaro, para outros bancos privados. Paulo Sérgio era subordinado à diretoria de Fiscalização do BC, na época desses diálogos.

O Letsbank era um um banco vinculado ao Master que operava no mercado financeiro e de câmbio. Fora adiquirido por Vorcaro e tinha o nome original de Voiter.

Em relatório sigiloso da investigação, a PF afirma que essas conversas mostram que Paulo Sérgio não apenas dava orientações e informações internas do BC a Vorcaro, mas atuava em defesa dos negócios do banqueiro, conduta incompatível com sua função: “Indica que PAULO SÉRGIO também buscava intermediar interesses comerciais de VORCARO”.

Procurada, a defesa de Paulo Sérgio afirmou que sua atuação nesse negócio foi solicitada pelo seu superior hierárquico, o diretor de Fiscalização Ailton de Aquino. “A intermediação da venda do Letsbank para o Nubank em 2024 consistiu em procedimento absolutamente normal e de pleno conhecimento da Diretoria. Essa atuação parte do pressuposto de qualquer banco simplesmente não poderia anunciar sua própria venda, diante dos riscos reputacionais, razão pela qual é bastante frequente a intermediação de servidores do Banco Central entre a parte compradora e a instituição bancária a ser vendida. Sobretudo nessa negociação envolvendo a Nubank, o próprio Diretor Ailton solicitou a intermediação de Paulo Souza, que cumpriu a ordem de seu superior hierárquico”, afirmou a defesa. Procurado por meio da assessoria de imprensa do BC, Ailton não se manifestou.

Em 25 de outubro de 2024, Paulo Sérgio escreveu a Vorcaro: “Quando puder me liga pois tem gente interessada no Lets novamente”. Em seguida, complementou: “Nubank. Mas teria que reabrir limite na plataforma”.

Vorcaro, então, disse que chegou a conversar com o CEO do Nubank, David Vélez, mas que as negociações travaram. Por isso, pergunta ao funcionário do Banco Central se seria possível ajudar nessa intermediação.

“Mas vc acha que pode me ajudar nisso com eles? Porque a conversa com o Velez foi ótima mas quando caiu no CFO não andou em nada mais, nem na plataforma”, disse o dono do Master. Paulo Sérgio respondeu: “Acho que sim. Ele está louco pelo Lets. Opção melhor para ter licença bancária”.

No dia seguinte, Paulo Sérgio retornou com as condições das tratativas. “Falei com ele que se tiver um limite de 5 bi na plataforma acreditava que vc topava vender o Lets. Segunda-feira volto com ele”, afirmou a Vorcaro. “Ótimo”, respondeu o dono do Master.

O Nubank procurava ampliar sua atuação no mercado e conseguir licença bancária no Brasil após a norma de novembro também que proibiu instituições financeiras sem autorização de funcionar como banco de usar termos como “banco” ou “bank” em seus nomes empresariais ou marcas.

Mesmo com a ajuda de Paulo Sérgio, a negociação com o Nubank não foi adiante. Em julho deste ano, o Nubank, que se identifica como a maior instituição financeira digital da América Latina, anunciou a compra do Banco Porto Real de Investimentos S/A.

Já Vorcaro acabou tentando efetivar a venda do Letsbank para Maurício Quadrado, seu ex-sócio, mas o Banco Central vetou o negócio em setembro de 2025 por suspeitas sobre a origem dos recursos. Pouco depois, o Letsbank acabou sendo liquidado em conjunto com o Master.

A defesa de Belline disse, por meio de nota, que o cliente não comenteu irregularidades nem receber benefícios de Daniel Vorcaro. Os advogados sustentam que Belline espera um julgamento justo e já prestou os esclarecimentos devidos ao Banco Central e está à disposição da Polícia Federal para novos esclarecimentos se for necessário.

Estadão Conteúdo

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado