SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, afirmou nesta terça-feira (4) que o governo Donald Trump fará “o que for preciso” para apoiar os esforços do Japão para estabilizar sua moeda.
“Faremos o que for preciso para apoiá-los de uma forma que ajude a economia e o contribuinte americano”, afirmou Bessent em entrevista à emissora de televisão CNBC, dois dias depois de confirmar que o Tesouro havia se juntado às autoridades financeiras do Japão em uma intervenção, na semana passada, para sustentar o iene.
O Fed (Federal Reserve, o BC dos EUA) vendeu euros para comprar ienes em nome do Tesouro, movimento considerado incomum pelo mercado. As vendas foram conduzidas por meio do Goldman Sachs e do Morgan Stanley, de acordo com apuração do jornal Financial Times.
Usando dados oficiais e estimativas de corretoras, analistas disseram que a intervenção das autoridades japonesas na quinta-feira (30) foi provavelmente de cerca de 8,45 trilhões de ienes (R$ 270,4 bilhões). A intervenção dos EUA para fortalecer o iene foi a primeira desde 1998, quando a organização americana comprou a moeda para fortalecer a economia do Japão após o iene ter caído para mínimas de oito anos.
A medida da semana passada foi tomada após a divisa japonesa ter atingido, em 23 de julho, o seu menor nível na comparação com o dólar nos últimos 40 anos.
Bessent afirmou que a significativa desvalorização do iene poderia desencadear outros problemas econômicos ou desvalorizações competitivas de outras moedas, “o que não é saudável”.
O chefe do Tesouro evitou falar sobre os mecanismos utilizados e disse que está satisfeito com o fato de o governo japonês recorrer a uma linha de proteção criada pelo Fed durante a pandemia de Covid-19 para importantes bancos centrais, a Fima (Linha de Recompra para Autoridades Monetárias Estrangeiras e Internacionais), que permitiria ao Banco do Japão tomar emprestados até US$ 60 bilhões para sustentar o iene.
“A linha Fima foi criada em 2020, e o mercado de títulos era muito menor naquela época. Por isso, acho que seria razoável o Fed considerar a ampliação da linha”, comentou Bessent, acrescentando que seu objetivo era “proteger a economia dos Estados Unidos e manter qualquer volatilidade fora do país”.
Sobre a venda de euros pelos Estados Unidos para a compra de ienes, Bessent afirmou estar em contato próximo com parceiros europeus, incluindo bancos centrais.
“Garanti a eles que se tratava apenas de uma realocação de nossas reservas. Parece-me que o euro está muito mais próximo de um preço de equilíbrio”, disse Bessent. “Não vou falar sobre em que patamar o euro deveria ou não ser negociado, mas a questão aqui é realmente a significativa desvalorização do iene e as políticas que o governo Takaichi está implementando para mudar isso”.
Questionado sobre uma foto da agência de notícias Reuters de sua lista de tarefas de sexta-feira, que continha as palavras “Comprar ienes japoneses (JPY), US$ 5-10 bi”, Bessent respondeu: “Eu só queria ter certeza de que todos os repórteres olhando por cima do meu ombro também soubessem que JPY é o símbolo do iene japonês”.
O Japão tem um grande volume de títulos do Tesouro americano, ações e outros ativos quase US$ 3 trilhões no total e por isso a estabilização do iene é importante para o governo norte-americano
Veja por que o que acontece com o iene é importante para os Estados Unidos.
LAÇOS FINANCEIROS ESTREITOS
A intervenção dos EUA deu mais força financeira aos esforços das autoridades japonesas, que já haviam gastado dezenas de bilhões de dólares neste ano na tentativa de valorizar o iene. Até agora, as intervenções do Japão tiveram efeito limitado e levantaram a possibilidade de que o país venda parcelas significativas de seu enorme estoque de títulos do Tesouro americano para financiar novas ações. O Japão é o maior detentor estrangeiro desses títulos, com mais de US$ 1,1 trilhão em ativos.
Ao vender títulos do Tesouro, o Japão poderia pressionar seus preços para baixo o que, em última instância, poderia elevar os custos de financiamento do governo dos Estados Unidos. O rendimento dos títulos do Tesouro americano já subiu nas últimas semanas em meio a preocupações com a inflação. Na semana passada, o rendimento dos títulos americanos de 30 anos atingiu o nível mais alto desde 2007.
As oscilações do iene também influenciam outras moedas asiáticas, como o won sul-coreano. Portanto, sustentar o iene pode reduzir o risco de que outros países asiáticos fiquem sob intensa pressão e precisem vender suas próprias reservas em dólares para apoiar suas moedas.
“Para Washington, apoiar o iene é um seguro de custo relativamente baixo”, analisou John Bromhead, economista da Moodys Analytics em Sydney.
Esta não foi a primeira vez neste ano que a volatilidade nos mercados japoneses chamou a atenção das autoridades americanas. Em janeiro, o Departamento do Tesouro considerou uma intervenção no iene depois que Bessent atribuiu à alta dos rendimentos dos títulos japoneses o aumento dos custos de financiamento do governo dos Estados Unidos.
FLUXOS COMERCIAIS CRUCIAIS
O outro lado de um iene fraco é um dólar americano forte, o que pode prejudicar os exportadores dos EUA ao tornar seus produtos mais caros para compradores estrangeiros. Isso também poderia dar aos exportadores japoneses uma vantagem competitiva no mercado norte-americano. No ano passado, os Estados Unidos importaram US$ 146 bilhões em produtos do Japão e exportaram cerca de US$ 82 bilhões, segundo dados do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos.
Não está claro qual será a eficácia da intervenção no iene, mesmo com a ajuda do governo americano.
Uma razão fundamental para a forte desvalorização da moeda japonesa são as preocupações dos investidores com a situação fiscal do Japão o elevado endividamento e o incentivo do governo a cortes de impostos e ao aumento dos gastos. A dívida bruta do país equivale a mais do que o dobro de sua economia, de longe o maior peso da dívida entre as principais economias avançadas.
A pressão sobre as finanças japonesas está aumentando. Os custos dos empréstimos sobem enquanto Sanae Takaichi, primeira-ministra do Japão, procura ajudar empresas e famílias a enfrentar o alto custo de vida. Isso inclui os custos de energia, que aumentaram devido às perturbações provocadas pela guerra no Irã, alimentando especulações sobre mais gastos públicos e enfraquecendo ainda mais o iene.
MERCADOS INTERLIGADOS
A aceleração da inflação levou o banco central japonês a elevar os juros para 1% em junho, o maior nível em 31 anos. Durante anos, o Banco do Japão manteve as taxas de juros extremamente baixas, até mesmo abaixo de zero, por meio da compra de enormes volumes de títulos públicos. O objetivo era estimular o crescimento. As autoridades monetárias começaram a elevar gradualmente as taxas.
Mas analistas afirmam que a fraqueza do iene persistirá enquanto os juros japoneses permanecerem muito abaixo dos praticados nos Estados Unidos, onde o Federal Reserve manteve as taxas entre 3,5% e 3,75%. Embora o Fed não tenha alterado os juros neste ano, a crescente divergência entre seus dirigentes está aumentando a pressão para que o banco central eleve as taxas. Isso poderia ampliar ainda mais a diferença em relação aos juros do Japão.
Na semana passada, o Banco do Japão manteve as taxas inalteradas, mas operadores apostam que as autoridades voltarão a elevar os juros ainda neste ano. Paradoxalmente, juros mais altos no Japão também poderiam ter efeitos negativos nos Estados Unidos, pois tornariam os ativos japoneses mais atraentes para alguns investidores e os afastariam dos ativos americanos.
Os grandes investimentos do Japão nos Estados Unidos vão além dos títulos do Tesouro: no ano passado, incluíam quase US$ 1,2 trilhão em ações e mais de US$ 300 bilhões em dívida corporativa, segundo dados do Tesouro americano.
UNIDOS POR LAÇOS ESTREITOS
O dólar é a moeda mais poderosa do mundo e figura em um dos lados de 90% de quase todas as operações de câmbio. O iene também tem peso significativo. É a terceira moeda mais negociada, atrás do euro. Sua participação nas transações globais supera com folga a da libra esterlina, do franco suíço e do yuan chinês, segundo dados do Banco de Compensações Internacionais.
Bessent e Satsuki Katayama, ministra das Finanças do Japão, disseram que novas medidas para fortalecer o iene poderão ser adotadas, se necessário. Na segunda-feira, o iene chegou a 157 por dólar, seu nível mais forte desde o início de maio.
“O Ministério das Finanças do Japão permanece atento e em estreita comunicação com nossos interlocutores no Tesouro dos Estados Unidos”, afirmou Katayama em um comunicado. “Não hesitaremos em realizar novas intervenções conjuntas.”