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Resistência ao controle de preços da Petrobras leva à queda de ministro de Minas e Energia

Relatos de assessores do Planalto, no entanto, afirmam que Bolsonaro se irritou com o último reajuste de preços do diesel, de 8,87%

Por FolhaPress 11/05/2022 12h02

Julio Wiziack
Brasília, DF

O ministro de Minas e Energia, o almirante Bento Albuquerque, não resistiu a mais uma queda de braço pelo controle de preços de combustíveis da Petrobras.

Em seu lugar, assume o economista Adolfo Sachsida, um dos primeiros aliados de Bolsonaro no início de sua campanha, em 2018, hoje secretário especial do Ministério da Economia.

Oficialmente, assessores do ministro dizem que ele pediu demissão.

Relatos de assessores do Planalto, no entanto, afirmam que Bolsonaro se irritou com o último reajuste de preços do diesel, de 8,87%, que elevou o preço para os caminhoneiros, uma de suas principais bases de apoio que vinha ameaçando rompimento com o governo devido aos preços.

Com o aumento, o preço médio do combustível nas refinarias passou de R$ 4,51 para R$ 4,91 por litro.

Bolsonaro entregou um pacote de bondades para a categoria, mas, dentre as promessas, não conseguiu segurar o preço do combustível, o que levou os caminhoneiros a sinalizarem um desembarque.
Ainda segundo assessores, Bolsonaro conversou com o ministro nesta terça-feira (11) e Bento resistiu a qualquer tipo de intervenção na política de preços da Petrobras.

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O presidente decidiu então demitir o ministro. A destituição e nomeação de novo chefe da pasta saiu publicada no Diário Oficial da União desta quarta-feira (11).

A relação de Bento com Bolsonaro vinha estressada há bastante tempo e atingiu o ápice em abril, quando o ministro -para atender o presidente- aceitou retirar do comando da Petrobras o general Joaquim Silva e Luna pelo economista.

Para o lugar dele, Bento indicou o economista Adriano Pires, consultor do setor de óleo e gás cujo nome acabou sendo barrado pela política de recrutamento da petroleira.

O presidente responsabilizou Bento não somente pela malsucedida indicação de Adriano Pires para a presidência da Petrobras, mas também pela proposta de adiamento da assembleia que, posteriormente, mudou a composição da diretoria da empresa.

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O desgaste foi parar na conta do ministro que, segundo Bolsonaro, não poderia ter dado aval para o nome de Adriano Pires -um nome próximo aos políticos do centrão, base de apoio do governo no Congresso e que atende empresas em conflito de interesses com a Petrobras.

Bento sugeriu então o nome de José Mauro Coelho, que já fazia parte do conselho de administração da Petrobras e, por isso, seria aprovado para ser presidente da companhia.

A solução caseira deu certo. No entanto, Zé Mauro, como ele é conhecido no mercado, assumiu reforçando o compromisso com a política de preços da companhia, indicando que não cederia à pressão do Planalto pelo controle dos reajustes.

O primeiro ataque de Bolsonaro contra ele surgiu logo após o anúncio do resultado da empresa no primeiro trimestre deste ano, um lucro recorde para o período de R$ 44,5 bilhões.

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Pouco antes da divulgação do resultado nesta quinta (5), Bolsonaro disse em sua live semanal que os elevados lucros da Petrobras são um “estupro” e que um novo reajuste nos preços dos combustíveis pode quebrar o país.

“A gente apela para a Petrobras: ‘não reajuste o preço dos combustíveis’. Vocês estão tendo um lucro absurdo. Se continuar tendo lucro dessa forma e aumentando o preço dos combustíveis, vai quebrar o Brasil”, disse o presidente.

Os elevados lucros da estatal são alvo de críticas tanto no governo quanto na oposição, diante da alta dos preços dos combustíveis no país. Por outro lado, o setor de combustíveis, que reclama que a elevada defasagem gera risco de desabastecimento do mercado.

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Para Bolsonaro, a sinalização de um controle de preço será fundamental em sua campanha pela reeleição. Assessores políticos detectaram que será preciso bater na Petrobras e sinalizar que o presidente está do lado do consumidor.

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Pesquisa do Datafolha mostrou que 68% dos brasileiros consideram que o presidente é o responsável pela alta da inflação que vem sendo alimentada basicamente pelo aumento dos combustíveis e pela energia.

O instituto Ipesp também mostrou em uma pesquisa recente encomendada pela XP que 83% dos brasileiros preferem votar em um candidato mais intervencionista na Petrobras.
Bolsonaro concordou em esticar a corda com a empresa e com o Ministério de Minas e Energia em busca da reeleição. O resultado desse cabo de guerra foi a demissão de Bento Albuquerque.

Adolfo Sachsida, que assumirá o comando da pasta, foi um dos primeiros apoiadores de Bolsonaro, quando ele ainda era um candidato inexpressivo.

Coube a ele arregimentar quadros para o time. Sachsida, então no Ipea (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas), saiu consultando especialistas para montar um plano de governo. Os militares chegaram depois.

Com a chegada de Paulo Guedes para a campanha, que convenceu o empresariado a embarcar no programa de Bolsonaro, Sachsida permaneceu como fiel escudeiro do presidente e foi nomeado secretário de Política Econômica com a promessa de, futuramente, receber um cargo com status de ministro -o que tinha ocorrido recentemente com sua promoção a secretário especial da Economia.








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