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Economia

Reforma tributária: incerteza jurídica e eleição atrasam empresas e ameaçam travar negócios

Na prática, isso significa uma descontinuidade, mesmo que momentânea, dos negócios

Redação Jornal de Brasília

09/10/2026 6h07

nota fiscal 7703

Foto: Marcello Casal jr/Agência Brasil

Empresas que não estiverem adaptadas aos novos impostos da reforma tributária poderão enfrentar uma espécie de caos: é esperado que, em algum momento do ano que vem, essas companhias comecem a ter as notas fiscais recusadas pela Receita Federal. Na prática, isso significa uma descontinuidade, mesmo que momentânea, dos negócios. É como se, de repente, a companhia fosse jogada à margem do ambiente financeiro.

Ainda não há uma data fechada para que a recusa aconteça, mas a expectativa é de que empresas com notas fiscais com alíquotas incorretas já comecem a ter problemas a partir de janeiro de 2027.

“Não vai vender um palito. A empresa para de vender, para de faturar. Simplesmente para o negócio”, resume Helio Netto, sócio da MGW Consultoria, sobre o impacto de ter notas fiscais recusadas. “Vai ficar muito difícil para operar no Brasil (se não estiverem adaptadas no prazo)”, acrescenta Maria Isabel Ferreira, líder da área de tributário da gigante KPMG.

Para afastar esse risco, é preciso que as empresas atualizem seus sistemas e processos para conseguir emitir e receber, no prazo, notas fiscais com os campos ligados aos impostos de Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e ao Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) apurados de forma correta. O CBS irá substituir o PIS e Cofins, enquanto o IBS ficará no lugar do ICMS e do ISS.

O cenário se torna mais dramático nesse último trimestre do ano, já que a janela para adaptação no prazo está se fechando. De acordo com quatro consultorias questionadas pelo Estadão, são no mínimo três meses para que uma empresa consiga atualizar seus sistemas, processos, contratos e modelo de negócios às mudanças trazidas pela reforma.

A conta não fecha, pois faltam menos de três meses para terminar o ano. Portanto, quem começar essa jornada agora, já a inicia em atraso. E ainda há muitos empresários paralisados ou no meio do caminho.

“Eu diria que 90% dos meus clientes ainda têm um longo caminho pela frente”, aponta Mariam Stenger, da Acta Consultores. Os clientes de Stenger são empresas que faturam entre R$ 100 milhões e R$ 5 bilhões.

Parte das empresas está empacada por insegurança jurídica. Faltam definições importantes sobre a reforma tributária, como qual será a alíquota de um dos novos impostos, o CBS, cuja divulgação é esperada para depois do segundo turno das eleições. Também há o constante adiamento de prazos e mudanças em modelos de documentos fiscais, grande gerador de inseguranças no empresariado.

Soma-se a isso o alto custo para a atualização. O cálculo é de que o preço mínimo para fazer todas as adaptações necessárias fique em torno de R$ 100 mil. Em multinacionais, há relatos de gastos na ordem de meio bilhão.

Outra parte está parada por “esperança eleitoral”. Por exemplo, de que o candidato Flávio Bolsonaro, se consagrado vencedor, adie ou altere significativamente a reforma. Stenger, da Acta Consultores, conta que o resultado do primeiro turno, com Flávio à frente, acentuou a dúvida dos clientes. Principalmente após sinalizações da campanha dele sobre extinguir um dos mecanismos centrais da reforma tributária, o Split Payment.

A possibilidade de mudança substancial é considerada pouco factível. Mesmo que haja alguma postergação sob um novo governo, o entendimento é de que as definições esperadas para 1º de janeiro de 2027 sejam mantidas.

“Uma eventual postergação ou alteração estrutural da reforma exigiria mudanças no arcabouço legislativo atualmente vigente, que envolve tanto a Emenda Constitucional nº 132 quanto a Lei Complementar nº 214, além de toda a regulamentação já editada. Hoje, portanto, existe uma diferença entre a expectativa política de mudança e aquilo que efetivamente está previsto na legislação”, diz Stenger.

Visando resguardarem-se de tamanha incerteza, jurídica e eleitoral, os clientes de uma outra consultoria que ajuda empresas a se adequarem à reforma tributária, a Ninecon, optaram por fechar contratos flexíveis. Até pouco antes do fim 3º trimestre do ano, metade da carteira de clientes da Ninecon, cujo faturamento médio é de R$ 1 bilhão ao ano, ainda não havia iniciado as implementações necessárias.

Com a janela dos três meses se fechando no início de outubro, 30% destas empresas optaram por iniciar os processos de adaptação, contanto que pudessem parar tudo em caso de mudanças na lei, com previsão disso em contrato. Outros 20% seguem esperando o resultado das urnas para se mexerem.

“Acho muito difícil termos uma postergação estrutural que venha a beneficiar aquelas empresas que não iniciaram (as adaptações)”, disse Lucas Andrade, head comercial da Ninecon, que frisa o risco de não estar preparado.

“Toda vez que tentarem emitir uma nota fiscal sem as informações de IBS e CBS, a Secretaria de Estado da Fazenda (Sefaz) vai rejeitar essa nota e esse documento não vai ser emitido. Isso é o maior risco possível. De fato, um risco de continuidade de negócios”, apontou o executivo da Ninecon.

O que significa se “adaptar” à reforma tributária?

Fazer com que os impostos IBS e CBS apareçam na nota fiscal parece simples, mas envolve, no geral, uma análise mais profunda do negócio. A atualização de sistemas é apenas a parte mais superficial da discussão, ainda que também seja uma etapa complexa.

Netto, sócio da MGW Consultoria, cita pelo menos três atualizações relacionadas à tecnologia. Geralmente, as empresas brasileiras usam um sistema de gestão de recursos empresariais, chamado de “ERP”. Esse sistema precisa ser atualizado para a versão mais recente, a fim de comportar os campos ligados aos tributos IBS e CBS, e às novas regras de tributação e alíquotas.

Depois, é preciso atualizar a solução de emissão de nota fiscal eletrônica, que depende das informações do ERP. O próximo passo é afinar o processo de apuração desses novos impostos dentro da companhia.

“Em linhas gerais, são o sistema de gestão, faturamento e de entrega de obrigações acessórias. São três sistemas que todo mundo vai ter de atualizar”, diz Netto. “Quando aparece uma obrigação nova (em um sistema), existem muitas variáveis que dão problema até o sistema ficar maduro, atualizado e transmitindo. Tivemos, por exemplo, problema até nas prefeituras. Muitas prefeituras não estavam prontas para emitir o novo layout de nota fiscal de serviço.”

Essa atualização pode ser mais fácil ou mais difícil, a depender do tipo de sistema que a empresa já tem. Se for um sistema de gestão empresarial padrão nacional, esse processo tende a ser menos sofrido. Se a companhia usa um programa próprio ou estrangeiro, o desafio será maior, pois poderá não haver atualização pronta para comportar os tributos IBS e CBS.

Andrade, líder comercial da Ninecon, elenca mais um fator de atenção. A reforma elimina inserções manuais nos documentos fiscais. Tudo, portanto, deverá ser apurado de forma eletrônica.

“Teremos a comunicação de eventos exclusivamente de forma eletrônica, como perdas, roubos ou a não localização de destinatário no momento de entrega”, aponta Andrade. “Tudo isso é uma estratégia da reforma tributária de aumentar controle e rastreabilidade para evitar operações frias (fraude fiscal).”

Também não basta só conseguir emitir a nota com os novos tributos; é preciso estar apto a recebê-las. E toda essa mudança enseja atualizações em contratos, com as novas alíquotas de imposto, e a análise dos impactos financeiros e no modelo de negócios.

Nesse ponto, a não publicação das alíquotas do CBS dificulta a análise financeira. “Estamos a três meses do início do novo regime e as empresas não conhecem as alíquotas. Como as empresas vão tomar decisões? Como as empresas vão renegociar preços, contratos, condições, se elas não conhecem as alíquotas e a gente sabe que isso só vai sair depois das eleições?”, afirma Stenger.

Empresas pequenas estão mais expostas e mais perdidas

A leitura das consultorias é de que empresas de maior porte têm também maiores condições de fazer atualizações rápidas se preciso. Mesmo que estejam atrasadas em relação à implementação, elas têm condições de sanar as deficiências de forma célere. Também têm mais acesso à informação.

Já as empresas menores, como as do Simples Nacional, estão mais perdidas. Essa falta de orientação é vista até mesmo em quem deveria ajudá-las com as novas regras. “Tem uma parcela de escritórios de contabilidade menores que está tendo muita dificuldade em se adequar. É uma situação muito preocupante, porque esses escritórios são a fonte de informação para os clientes”, diz Netto, da MGW.

“Está todo mundo perdido, mas eu diria que as empresas que mais vão sofrer são as menores, porque elas têm menos recursos para estarem bem-informadas, menos recursos para adequações sistêmicas. Muitas vezes os próprios contadores delas não estão preparados”, reforça Stenger, da Acta.

A dificuldade das empresas pequenas deve se refletir em problemas para o ambiente de negócios, como um todo. Ferreira, líder da área de tributário da KPMG, vê um efeito cascata. Ou seja, mesmo que uma multinacional esteja 100% preparada para a reforma tributária, se um fornecedor estratégico ou o responsável pela distribuição dos bens e produtos não estiver pronto para emitir ou receber notas fiscais digitais, a cadeia é interrompida e a grande empresa fica sem insumos ou sem capacidade de vender.

As preocupações também não estão restritas ao ano que vem. Ferreira alerta que, quanto menos dados o governo tiver este ano, considerado o período de testes, maior será a insegurança do Fisco. A consequência é a fixação de alíquotas maiores de CBS, a serem definidas pós-eleições.

A líder da área de tributário da KPMG enxerga a situação das companhias em três níveis: empresas de grande porte estão bem-preparadas para a reforma tributária e não devem frear as implementações por fatores eleitorais; as empresas de médio porte entendem a legislação, mas não têm capital para fazer as atualizações; as de pequeno porte enfrentam grave falta de acesso ao conhecimento técnico e estrutura até mesmo para decidirem se permanecem no atual regime ou migram para o “híbrido”, com apuração de IBS e CBS, opcional para negócios do Simples Nacional.

Para quem ainda está muito atrasado, Ferreira recomenda que façam, pelo menos, ajustes básicos de “sobrevivência”.

“Primeiro, trabalhar o processo de compras; depois, o processo de vendas; o passo três é ajustar a parte de emissão de documento fiscal mínimo. Esses três elementos, se não estiverem prontos até janeiro, vão ser muito complexos para operar no Brasil”, ressalta Ferreira. “É um risco real de quebra de operação, de continuidade do negócio.”

O que diz o Comitê Gestor do IBS (CGIBS)
“As obrigações tributárias aplicáveis às empresas e demais contribuintes do IBS e da CBS estão definidas no regulamento dos referidos impostos e em atos conjuntos editados pela Receita Federal do Brasil e pelo Comitê Gestor do IBS. Atualizações referentes às especificidades de tais obrigações, bem como aos seus prazos de início de vigência, devem ser acompanhadas pelos interessados junto aos canais oficiais de comunicação da RFB e do CGIBS.

A reforma tributária terá início em 2027, com a cobrança integral da CBS. O período de testes do IBS também será no ano que vem, mas a vigência integral deve ocorrer em 2033, com período de transição gradual em que o ICMS e o ISS são reduzidos entre 2029 e 2032.

Este prazo é constitucional, não podendo ser alterado a critério da RFB ou do CGIBS. Sendo assim, recomenda-se aos contribuintes atenção em relação aos prazos necessários para ajustes de sistemas, processos administrativos, bem como outras adaptações que se mostrem necessárias, conforme a realidade de cada um.

A adequação tempestiva às novas regras é fundamental para assegurar o cumprimento das obrigações tributárias e a continuidade das operações empresariais. Recomenda-se, portanto, que os contribuintes planejem e implementem as adaptações necessárias, observando os prazos estabelecidos e as orientações divulgadas pelos canais oficiais da RFB e do CGIBS.”

Estadão Conteúdo

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