FOLHAPRESS
A Reag Trust, instituição financeira que faz administração e custódia de fundos de investimento, teve sua liquidação decretada nesta quinta-feira (15) pelo BC (Banco Central).
Ela é investigada por suposta participação em uma ciranda financeira que teria inflado artificialmente ativos ligados ao caso do Banco Master, por meio do uso de fundos de investimento. A Reag também foi um dos alvos da Operação Carbono Oculto, deflagrada pela PF (Polícia Federal) em agosto de 2025, que apura a atuação do PCC (Primeiro Comando da Capital) em negócios da economia formal, incluindo o mercado financeiro.
Segundo dados da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais), a Reag tinha R$ 352 bilhões sob administração em novembro, o que a colocava na 11ª posição no ranking nacional de administradoras de recursos.
Já no site oficial da empresa, a Reag informava ser responsável pela administração de 625 fundos.
A liquidação foi decretada um dia depois de a Polícia Federal deflagrar a segunda fase da operação Compliance Zero, que apura a atuação de fundos de investimentos que teriam sido usados para inflar o patrimônio do Master.
Essa nova etapa da investigação teve como alvos endereços ligados a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, a parentes dele e a empresários, incluindo Nelson Tanure e João Carlos Mansur, o ex-dono da Reag.
TIRE SUAS DÚVIDAS SOBRE A REAG
QUEM É O FUNDADOR DA REAG?
João Carlos Mansur fundou a Reag em 2012. A instituição teve um acelerado processo de crescimento, com aquisições e diversificação de investimentos. Passou também a patrocinar o Belas Artes, um dos cinemas de ruas mais tradicionais da capital paulista.
Em setembro de 2025, no entanto, a empresa anunciou uma reestruturação que, na prática, levou à saída do executivo do controle do grupo.
O afastamento de Mansur fazia parte de um esforço de recuperação da imagem da companhia, cuja credibilidade havia sido abalada pelas investigações que a associaram ao PCC.
Segundo comunicado ao mercado, Mansur negociou a venda de sua participação por meio de um MBO, operação em que os gestores da empresa compram o controle da companhia em que trabalham e passam a ser seus proprietários. Os trâmites foram concluídos em reunião do conselho de administração realizada em 6 de setembro.
QUAL É A RELAÇÃO DA REAG COM O BANCO MASTER?
Um relatório do BC enviado ao TCU (Tribunal de Contas da União) apontava indícios de fraude em operações financeiras realizadas pelo Banco Master em conjunto com fundos administrados pela Reag Trust Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários.
De acordo com o documento, as transações suspeitas somariam R$ 11,5 bilhões e foram consideradas pelo BC como portadoras de “falhas graves”, em desacordo com normas do Sistema Financeiro Nacional.
QUAL É A RELAÇÃO DA REAG COM A OPERAÇÃO COMPLIANCE ZERO?
A Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal em 18 de novembro de 2025, apura um esquema bilionário de fraudes financeiras que teria usado estruturas do mercado de capitais para desviar recursos e mascarar prejuízos.
Segundo as investigações, a Reag é apontada como uma das engrenagens desse mecanismo. O esquema funcionaria da seguinte forma: o Master concedia empréstimos a empresas que, na sequência, aplicavam esses recursos em fundos administrados pela Reag Investimentos. O dinheiro era investido em ativos sem valor, mas que eram superavaliados.
Os investigadores suspeitam que esses fundos pertenciam a indivíduos que atuavam como “laranjas” de Vorcaro.
O dinheiro, que deveria ser utilizado pelas empresas tomadoras do empréstimo, seria desviado por meio dessas estruturas financeiras. Os fundos seriam utilizados para adquirir papéis sem valor de mercado, mascarando o rombo financeiro da instituição.
O QUE ACONTECE AGORA COM OS FUNDOS DA REAG?
Os fundos de investimentos da Reag ficam congelados, mas não são encerrados com a liquidação extrajudicial. Isso ocorre porque o fundo é um conjunto de ativos pertencentes aos cotistas, e não à gestora.
Cabe ao Banco Central ou aos próprios participantes do fundo indicar uma nova administradora para os fundos de investimento que estavam sob responsabilidade da instituição. “Durante esse período de transição, enquanto não há um novo gestor formalmente indicado, o fundo fica bloqueado para movimentações. Não há entrada nem saída de cotistas”, afirma Cristiano Correa, professor de finanças do Ibmec.
Caso nenhuma administradora aceite assumir os fundos de investimento, eles podem ser liquidados.
Nesse caso, o lucro ou o prejuízo resultante da venda dos ativos é repartido entre os cotistas.
“Isso costuma acontecer quando os fundos são pouco atrativos, com baixa rentabilidade ou alta complexidade. Fundos bons e rentáveis geralmente encontram gestor com facilidade”, diz Correa.