FLAVIA LIMA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
A perspectiva de que a taxa básica de juros da economia, a Selic, irá demorar mais que o previsto para cair deixa em situação ainda mais delicada um grupo de empresas endividadas, criando dificuldades adicionais na rolagem de suas dívidas.
Para as companhias, a redução da taxa Selic para 14,75% ao ano o primeiro movimento do Banco Central neste sentido desde meados de 2024 está longe de trazer algum alívio em um cenário em que problemas com alto endividamento ou gestão já levaram empresas como Raízen, Grupo Pão de Açúcar, Ambipar, Light, Lojas Americanas, Azul, Gol, Alliança Saúde, entre outras, a decidir reestruturar seus débitos com credores.
A combinação de juros altos e inflação perto de 4% é explosiva em um quadro de elevado endividamento, ressaltam especialistas, à medida que o faturamento das empresas é corrigido pela inflação e a correção de suas dívidas é influenciada pela trajetória da taxa Selic.
Como exemplo, as cerca de 300 empresas hoje sob avaliação da Fitch Ratings têm, na média, uma alavancagem equivalente ao consumo de 60% da geração de caixa só com juros de suas dívidas, diz Mauro Storino, diretor sênior da Fitch Ratings.
Segundo Storino, mesmo que a Selic siga o esperado e encerre 2026 em 12,5% ao ano, mais de 50% da geração de caixa ainda seria consumida com dívida, na média das empresas.
“E esse cenário de empresas representativas, uma atrás da outra, com algum tipo de restruturação de dívida, causa no credor, ainda mais fora do país, uma aversão maior ao risco, do tipo o que está acontecendo com o Brasil?”, diz Storino. “E aí, talvez, ele vá buscar outra coisa, o que pode acabar prejudicando as captações.”
Alguns participantes do mercado enxergam até mesmo um risco de perda de credibilidade nesses ativos, o que afetaria um setor que alcançou níveis recordes no último ano. Em 2025, a oferta de títulos de renda fixa no mercado local atingiu R$ 737,7 bilhões, uma alta de 3% em relação a 2024, segundo dados da Anbima (associação das entidades dos mercados financeiro e de capitais).
No mercado externo, o equivalente a US$ 31,6 bilhões (cerca de R$ 167 bilhões) foram emitidos em 2025.
Nas contas da Anbima, foi o melhor ano em volume de emissões externas em renda fixa desde 2014.
Completam o quadro de incertezas as eleições, uma economia que cresce a um ritmo de 2% ao ano e a guerra no Oriente Médio, cujos efeitos incluem expectativas maiores de inflação via preços de petróleo e desaceleração do ritmo de queda dos juros por aqui.
CAPTAÇÕES
Para este ano, já há quem fale em redução da captação de recursos. A projeção de um grande banco de investimento é de queda de 20% a 25% no volume total de emissões de renda fixa em razão do menor apetite de investidores por empresas que os façam lembrar de Grupo Pão de Açúcar ou Raízen, só para ficar nas grandes recuperações extrajudiciais mais recentes. A da Raízen foi a maior da história.
Segundo dados da consultoria RGF, cujo foco são as recuperações judiciais também uma tentativa de renegociação de dívidas, mas com supervisão da Justiça, havia 5.680 empresas em recuperação judicial no quarto trimestre de 2025, alta de 7,5% sobre o trimestre anterior e de 24,3% na comparação anual.
Investidores se dizem surpresos com o ritmo de evolução dos casos e movimentações no mercado de renda fixa ilustram sobressaltos. No início de março, uma debênture do Grupo Pão de Açúcar emitida a CDI mais 1,7% ao ano, com vencimento agora em maio, era negociada a 96% do valor de face. Dias depois da recuperação extrajudicial, a mesma debênture é negociada a 30%, segundo dados da Vitrify, plataforma para crédito privado no Brasil.
Daniel Magalhães, fundador da plataforma, explica que a cerca de dois meses do vencimento do papel, qualquer desconto no preço faria subir bastante a rentabilidade do ativo, em uma negociação que, àquele momento, parecia boa para vendedores e compradores. “E dado que a debênture estava próxima do vencimento, provavelmente ninguém apostava numa recuperação extrajudicial”, diz ele.
No mercado hoje, há também uma grande discrepância no preço dos títulos. De um lado, empresas saudáveis que encontram demanda para seus papéis, enquanto outro grupo com gestão, estratégia e estrutura de capital menos clarasdeixa investidores ressabiados.
A comparação entre Raízen e Vibra exemplifica bem essa percepção. Já na virada do ano, debêntures de Raízen eram negociadas no mercado secundário (entre investidores) na casa dos 60% do valor de face e estacionaram em 40% após o pedido de recuperação extrajudicial, em 10 de março. Já papéis da Vibra, maior distribuidora de combustíveis do país, mal se mexeram no mesmo período e seguem sendo negociados bem próximos do valor estabelecido em emissões recentes.
A explicação está no nível de endividamento de ambas em um momento de Selic alta. Enquanto na Vibra a relação entre dívida líquida e lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda, em inglês) está em 2,4 vezes, na Raízen esse indicador fica em 5,3 vezes, de acordo com os números mais recentes divulgados.
A CSN (Companhia Siderúrgica Nacional), cujo endividamento voltou a subir no quarto trimestre de 2025, também é um exemplo. Até o fim de fevereiro, uma emissão da CSN de R$ 360 milhões com rendimento de inflação mais 7% era negociada a 82% do valor de face. Em pouco mais de um mês, o desconto se aprofundou e, hoje, o mesmo papel é negociado a 67% do valor de face.
Pedro Breviglieri, gestor de crédito privado da Reach Capital, que tem R$ 450 milhões sob gestão em renda fixa, diz que os defaults corporativos no mercado local ainda são gerenciáveis para os fundos de debêntures, mas causam preocupação. “A percepção de maior risco pode resultar numa desaceleração das emissões, particularmente nas debêntures indexadas ao CDI”, diz ele.
Ele lembra que até pouco tempo atrás seria impensável falar de dificuldades de crédito de empresas como Braskem e Raízen, mas acha que é cedo para falar em choque de credibilidade. “Ao longo de fevereiro houve alguma deterioração no mercado de títulos corporativos, mas a performance segue resiliente. A preocupação é mais para a frente, há muita incerteza.”
Para Storino, da Fitch, se cada setor tem seu ponto de atenção cortes de geração no setor de energia, alto endividamento das famílias no varejo, preços baixos por período prolongado no petroquímico, o de saúde tem preocupado um pouco mais. “[As endividadas] Oncoclínicas, Hapvida. 24% das nossas ações negativas recaíram sobre o setor de saúde em 2025”, diz.
Ele ainda vê emissão de títulos de renda fixa ocorrendo no primeiro semestre do ano, antes do período eleitoral. “Talvez o dinheiro vá ficar mais caro? Não descartamos isso, mas a gente sempre diz que o dinheiro mais caro mesmo é aquele que não existe.”