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Economia

Projeções de inflação sobem com guerra no Irã, e El Niño traz risco para 2º semestre

O conflito no Oriente Médio, iniciado em 28 de fevereiro, provocou um salto nas cotações do petróleo, pressionando o custo dos combustíveis

Redação Jornal de Brasília

08/04/2026 5h44

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LEONARDO VIECELI
RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS)

As projeções de inflação no Brasil passam por uma onda de revisões para cima devido aos impactos da guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã.

O conflito no Oriente Médio, iniciado em 28 de fevereiro, provocou um salto nas cotações do petróleo, pressionando o custo dos combustíveis.

Analistas também chamam a atenção para um risco adicional para a inflação brasileira: a ameaça do evento climático El Niño no segundo semestre deste ano. Dependendo de sua intensidade, o fenômeno pode dificultar a produção de alimentos, com efeitos sobre os preços.

De acordo com o boletim Focus, do BC (Banco Central), a mediana das previsões do mercado financeiro para o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) em 2026 subiu pela quarta semana consecutiva.

A estimativa aumentou de 4,31% para 4,36%, ficando mais próxima do teto da meta de inflação, que é de 4,5%. A projeção vinha de um período de baixa no início deste ano, chegando a marcar 3,91% antes dos desdobramentos da guerra.

“É um cenário de pressão de preços muito evidente e que mudou em relação a fevereiro”, afirma o economista-chefe da consultoria MB Associados, Sergio Vale, que projeta IPCA de 4,2% em 2026.

“Por mais que a guerra acabe nas próximas semanas, demora até os preços do petróleo voltarem a patamares anteriores”, acrescenta.

Nesta terça-feira (7), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, recuou novamente e aceitou uma proposta feita pelo Paquistão para um cessar-fogo de duas semanas. O americano disse que sua decisão se baseou no compromisso de que o Irã reabra o estreito de Hormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial, durante a trégua.

Desde o início do conflito, o barril de petróleo Brent, referência global, saltou de US$ 72 para acima de US$ 110. Na noite desta terça, com o anúncio do cessar-fogo, os preços caíam para a casa de US$ 95.

O quadro preocupa o presidente Lula (PT) no ano eleitoral. Na segunda (6), o governo anunciou a criação de uma subvenção extra para o óleo diesel e o gás de cozinha, além da decisão de zerar as alíquotas de PIS/Cofins sobre o biodiesel e o querosene de aviação.

As medidas são uma nova tentativa do Executivo de conter a carestia dos combustíveis e das passagens aéreas.

Dados da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis) indicam que, desde o início do confronto no Irã, os preços médios da gasolina comum e do diesel S-10 aumentaram cerca de 8% e 24% no Brasil, refletindo principalmente repasses promovidos por importadores privados.

Além do efeito nos combustíveis, há o temor de repasses para produtos como alimentos no Brasil, já que o diesel é um dos insumos da cadeia produtiva. O transporte de fertilizantes, outra matéria-prima do agronegócio, também tem sido afetado pela guerra.

“É um cenário preocupante”, afirma o economista Rodolpho Sartori, da agência classificadora de risco Austin Rating. Após o início do conflito, a estimativa da Austin para o IPCA deste ano saiu de 3,8% para 4,38%.

Há, inclusive, quem aposte em uma inflação acima do teto de 4,5%. É o caso do economista Fábio Romão, sócio da consultoria Logos Economia, que passou a prever IPCA de 4,8% em 2026. A estimativa era de 4% antes da guerra.

“Mesmo que o petróleo arrefeça até o final do ano, e a gente acha que [isso] é o mais provável, o mal já está feito. Atrapalhou a formação de muitos preços”, diz Romão.

EL NIÑO TRAZ RISCO ADICIONAL

Outra instituição que revisou projeções é o banco Daycoval. A inflação estimada pela instituição para este ano subiu de 3,8% para 4,2%.
“Dado o cenário externo mais adverso com impactos potenciais sobre o petróleo e probabilidade crescente de El Niño no segundo semestre, adicionamos o viés de alta para esta projeção”, disse o banco em relatório divulgado na quinta (2).

O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal do Oceano Pacífico na região da linha do Equador. Tradicionalmente, aumenta o risco de seca nas regiões Norte e Nordeste do Brasil, enquanto favorece chuvas intensas no Sul.

Uma nota técnica do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais) concluiu que há mais de 80% de probabilidade de ocorrência do fenômeno na segunda metade de 2026, possivelmente a partir do trimestre de agosto a outubro.

“Embora, no momento, não existam previsões confiáveis sobre a sua intensidade, os modelos disponíveis apontam uma anomalia de temperatura do mar na região do Oceano Pacífico Equatorial de aproximadamente 1,5°C, o que classificaria o fenômeno como moderado a forte”, afirma o documento.

POSSÍVEL REFLEXO NOS JUROS

De acordo com analistas, o aumento nas previsões para a inflação pode reduzir a intensidade do ciclo de cortes na taxa básica de juros do Brasil, a Selic, que está em 14,75%. A mediana das estimativas do mercado indica Selic de 12,5% ao final do ano, conforme o Focus.

O presidente do BC, Gabriel Galípolo, defendeu na segunda-feira o que chamou de “cautela” da instituição na condução da política de juros. A fala ocorreu em um discurso no qual o economista abordou o cenário da economia global, marcado pelos reflexos da guerra.

“Eu acho que usei a palavra cautela desde que entrei no Banco Central mais vezes do que usei em toda a minha vida antes de entrar no Banco Central. Mas, no Banco Central, a palavra cautela vem acompanhada da palavra serenidade. Nunca está sozinha”, disse Galípolo.

“A ideia é poder tomar tempo para conhecer melhor o problema e fazer movimentos mais seguros, dar passos mais seguros, na direção da política monetária. É dessa cautela que a gente vem se beneficiando mais recentemente”, acrescentou.

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