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Economia

Preço do café cai, mas ainda remunera produtor, e mercado vive incertezas com juros e guerra

Devido aos preços elevados da saca na última safra, a cooperativa anunciou em 2025 faturamento recorde no ano anterior

Gabriel Resende

21/03/2026 10h32

Café coado

Foto: Freepik

MARCELO TOLEDO
RIBEIRÃO PRETO, SP (FOLHAPRESS)

Numa safra em que os preços do café estão mais baixos do que em anos anteriores –mas ainda assim remuneradores–, cafeicultores de Minas Gerais e São Paulo vivem incertezas em relação principalmente aos efeitos da guerra no Irã e das taxas de juros.

Os temas foram discutidos por produtores rurais dos dois estados durante a 25ª Femagri (Feira de Máquinas, Implementos e Insumos Agrícolas), realizada pela Cooxupé (Cooperativa Regional de Cafeicultores), em Guaxupé (MG), entre quarta-feira (18) e esta sexta (20).

Cotada atualmente em valores que vão de R$ 1.500 a R$ 1.950 –oscila conforme a região–, a saca de 60 quilos chegou a ser comercializada a mais de R$ 2.500 um ano atrás, ou R$ 2.595, valor atualizado pela inflação.

Isso impulsionou investimentos no campo e, ao mesmo tempo, aumentou a ação de criminosos nas propriedades rurais, que chegaram a furtar café ainda no pé.

Agora, sem os preços mais atrativos de 2025, com os efeitos do tarifaço aplicado no ano passado pelos Estados Unidos e com a taxa de juros em 14,75% ao ano, os cafeicultores também terão neste ano uma safra menor.

A cooperativa, a maior do país, estima embarcar 4,4 milhões de sacas, cerca de 400 mil a menos do que em 2025, mas com perspectiva de melhorar nos últimos meses deste ano, o que deverá representar um cenário mais positivo em 2027.

Nos dois primeiros meses deste ano, o país exportou 5,41 milhões de sacas, redução de 27,3% em comparação com o primeiro bimestre de 2025, conforme dados do Cecafé (Conselho dos Exportadores de Café do Brasil).

“O café a R$ 1.500, R$ 1.800, para pagar a conta, é, sem dúvida nenhuma, um bom nível de preço. Nós, enquanto produtores, sonhávamos há poucos anos com US$ 100 a saca. Hoje, US$ 100 não sei se a cafeicultura sobreviveria, mas a gente vive US$ 300 nesse momento. É preciso aproveitar esse mercado para não entrar em endividamento porque, sem dúvida nenhuma, juros de dois dígitos é igual a quebradeira em qualquer atividade econômica do mundo”, disse o produtor rural em Nova Resende (MG) Osvaldo Bachião Filho, vice-presidente da Cooxupé.

Devido aos preços elevados da saca na última safra, a cooperativa anunciou em 2025 faturamento recorde no ano anterior e a maior distribuição de sobras já feita aos seus cooperados.

O faturamento em 2024 chegou a R$ 10,7 bilhões, o que representou um avanço de 67% em comparação com os R$ 6,4 bilhões do ano anterior –R$ 6,78 bilhões, corrigidos pela inflação. Foram distribuídos aos cooperados R$ 134,4 milhões, ante os R$ 101,4 milhões de um ano antes (R$ 107,4 milhões, corrigidos).

Em entrevista coletiva no primeiro dia da feira agrícola, o presidente da cooperativa, Carlos Augusto Rodrigues de Melo, disse que o conflito no Oriente Médio provoca impactos no setor e também criticou a taxa de juros elevada.

No mesmo dia, o Copom (Comitê de Política Monetária) iniciou o ciclo de corte de juros e reduziu a taxa básica (Selic) em 0,25 ponto percentual, para 14,75% ao ano, na primeira queda sob a gestão de Gabriel Galípolo.

Os impactos da guerra, segundo ele, envolvem logística na importação de insumos e os embarques de café.

“[Um deles é] O de importação de fertilizantes, porque no caso do Irã, somos dependentes de nitratos de lá, e tem o impacto do café, porque nós aumentamos a participação tanto na Ásia como um todo e também o Oriente Médio. Então, isso não deixa de nos afetar e a cooperativa, como sendo a maior, nossa exportação é a maior dentro desse quadro […] Tem sim alguma consequência, mas nós acreditamos que ninguém vai ficar sem tomar café, pelo contrário, vai aumentar”, disse.

CLIMA PROPÍCIO

O clima, em tese, é o fator que hoje menos preocupa para os próximos meses, caso as previsões se confirmem, segundo os produtores rurais.

Bachião Filho afirmou que o setor está vivendo a questão climática como “há vários anos não vivia”, com chuvas bem distribuídas em todas as regiões produtoras no país e temperatura agradável.

“Percebemos que as lavouras estão melhores e há uma safra maior no pé, uma safra [futura] que a gente não tinha havia alguns anos e, se Deus quiser e o clima continuar bom, deveremos ter uma safra boa e, consequentemente, nosso produtor com condição de participar bem do mercado.”

A Femagri, que teve 120 expositores distribuídos numa área de 107 mil metros quadrados, recebeu nos três dias 45.336 visitantes –a previsão era receber mais de 42 mil visitantes.

A maioria dos visitantes foi composta por agricultores familiares do sul de Minas Gerais e da média mogiana paulista, que fizeram 10.360 orçamentos para a compra de máquinas, implementos e insumos.

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