São Paulo, 5 – A porta-voz-chefe da União Europeia (UE), Paula Pinho, afirmou ontem que “houve progresso nas discussões sobre o acordo com o Mercosul nas duas últimas semanas”, ao comentar o estado das negociações comerciais entre os dois blocos durante entrevista coletiva em Bruxelas.
Questionada sobre a possibilidade de a assinatura ocorrer até a próxima semana, ela disse que, apesar do avanço, “ainda não temos uma data específica para o acordo”, mas destacou que “estamos no caminho certo” para assinar o tratado com o Mercosul “em breve”.
As declarações de Paula Pinho ocorrem após o adiamento da assinatura do pacto comercial UE-Mercosul, inicialmente prevista para 20 de dezembro e remarcada para o início deste mês. O acordo avançou apesar de resistências internas, concentradas sobretudo na França e na Itália, enquanto a maioria dos Estados europeus segue favorável à sua conclusão.
Anteriormente, em carta enviada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente do Conselho Europeu, António Costa, reafirmaram o compromisso de concluir a assinatura em janeiro, explicando que o adiamento se deve à finalização de procedimentos internos no conselho.
A resistência italiana, alinhada à francesa, está ligada a pressões do setor agrícola por maiores garantias. Para contornar essas objeções, o Parlamento Europeu aprovou salvaguardas mais rígidas para produtos sensíveis, além da proposta de um fundo de compensação de € 1 bilhão e reforço nos controles fitossanitários. A primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, indicou que Roma pode apoiar o acordo “em no máximo um mês”.
PROTESTOS
No dia 18 de dezembro, agricultores de vários países da Europa utilizaram tratores para bloquear vias em Bruxelas. Na ocasião, eles também queimaram pneus nas proximidades da sede do Parlamento Europeu – durante reunião de líderes do bloco -, em protesto contra o acordo. A polícia precisou intervir com uso de gás lacrimogêneo e canhões de água.
Na França, o presidente Emmanuel Macron enfrenta resistência dos agricultores, que temem o impacto de uma chegada maciça à Europa de carne, arroz, mel e soja sul-americanos, que eles alegam ser mais competitivos por conta de suas normas de produção.
O acordo da União Europeia com o Mercosul criaria uma das maiores áreas de livre-comércio do mundo. O tratado removeria tarifas sobre uma gama de produtos da UE, como carros e vinhos, enquanto mais produtos, incluindo carne bovina e açúcar, poderiam entrar no bloco mais facilmente a partir da região.
A expectativa era de que a assinatura do acordo fosse feita no dia 20 de dezembro, durante a Cúpula do Mercosul, em Foz do Iguaçu, no Paraná, mas, diante da oposição de França e Itália, a negociação não foi concluída.
Na época, as divisões dentro do bloco europeu aumentaram as tensões com o Brasil. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou a dizer, durante uma reunião em Brasília, no dia 17 de dezembro, que o País poderia desistir do acordo se ele não fosse concluído em breve. “É difícil porque Itália e França não querem fazer por problemas políticos internos”, disse na época. “E já avisei. Se não fizermos agora, o Brasil não fará mais acordos enquanto eu for presidente.”
Estadão Conteúdo