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Economia

Pobres pagam mais

Arquivo Geral

02/04/2013 8h39

O aumento dos preços dos alimentos ao longo dos últimos meses vem tirando o fôlego e comprometendo a capacidade de compra de um grupo em especial: o consumidor de baixa renda. Para esse segmento, a partir do qual foi formada a festejada “nova classe média”, a inflação pesa mais.

 

O indicador que mede a variação de preços em 12 meses para as famílias com ganho mensal de até 2,5 salários mínimos (R$ 1.695), em fevereiro, foi de 6,94%, nível superior ao da média dos brasileiros, que registrou 6,04%.

 

A diferença da inflação por classe de renda ocorre, na verdade, desde julho do ano passado. A Fundação Getúlio Vargas (FGV), que calcula o Índice de Preços ao Consumidor – Classe 1 (IPC-C1, a chamada inflação da baixa renda) e o Índice de Preços ao Consumidor – Disponibilidade Interna (IPC-DI), vem registrando o deslocamento.

 

Comparação

Isso acontece porque os preços dos alimentos comumente adquiridos pelos consumidores de rendimento mais baixo dispararam. Para a população mais pobre, 30% do salário são destinados às compras de supermercado, enquanto para a média dos brasileiros os alimentos representam 20% das despesas. Em fevereiro, último indicador divulgado, a inflação dos alimentos variou 13,94% no IPC-C1 e 12,29% no IPC-DI.

 

A inflação para a baixa renda passou a ser mais sentida neste início de ano, com o fim de programas de incentivo ao consumo, como a isenção do IPI para bens duráveis. 

 

Mas o maior peso vem dos alimentos e a tendência, segundo o economista André Braz, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre)da FGV, é que a alta de preços desses produtos perca o fôlego daqui para frente. “A tendência da inflação dos alimentos é desacelerar. A medida do governo de desoneração da cesta básica, cedo ou tarde, terá resultado. Mas essa desaceleração deve ser lenta”, prevê o economista.

 

Somente o essencial 


A estratégia do militar Aymar Batista, de 42 anos, para segurar o gasto nos supermercados é reduzir a quantidade de produtos que leva para casa. Como único provedor de uma família de quatro pessoas, Aymar compra somente o essencial e troca marcas conhecidas por outras mais baratas. “A inflação afeta todas as classes. Na minha casa, somos eu, minha mulher e duas filhas, ou seja, eu gasto mais de 15% da nossa renda familiar em compras. Venho deixando de lado cada vez mais o supérfluo. Adquiro só o essencial e, mesmo assim, gasto mais de R$ 800 por mês”, lamenta Aymar. 

 

Velhas opções estão de volta

Os consumidores já retomaram as velhas estratégias defensivas para minimizar o impacto da inflação nos gastos com as compras de supermercado: substituir marca e produto, trocar de loja, ir atrás das ofertas e reduzir as quantidades compradas. Essas táticas não são novidade para os brasileiros que, 20 anos atrás, viveram a hiperinflação.

 

A dona de casa brasiliense Lizia Santos, de 57 anos, faz compras para quatro pessoas, incluindo o novo neto, e está procurando novas maneiras de controlar os gastos da casa. Insistir nas marcas favoritas não vem sendo mais viável. “Eu fico caminhando pelo mercado para ver os preços e decido pela marca mais barata. Vou trocando e experimentando novas marcas, aproveito os produtos de época e estou sempre atrás das promoções”, diz Lizia. 

 

Hoje em dia ela vai ao supermercado com uma lista na mão para anotar os preços e avaliar o peso financeiro da cesta básica. “Estou anotando tudo para fazer uma média e ter uma noção de quanto eu vou gastar de 15 em 15 dias. A gente até perdeu a noção nesses últimos meses porque os preços só aumentam e a qualidade diminui”, queixa-se ela.

 

A costureira aposentada Eugênia Moreira, de 85 anos, que fazia compras de supermercado com a neta Vanezza Madonna, de 26 anos, sabe bem o que é hiperinflação. “Naquele tempo, eu fazia estoque de óleo, açúcar, sal”, lembrou a aposentada. Hoje, a situação não é para fazer estoque. Mas, diante da alta de preços, ela começou a reduzir as compras.

 

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