Mesmo sem a colaboração do banqueiro Daniel Vorcaro, a Polícia Federal avançou na análise do material apreendido durante a Operação Compliance Zero. Em depoimento, Vorcaro afirmou ter “amigos em todos os Poderes” da República, mas se recusou a fornecer a senha de seu celular, alegando receio de vazamento de informações pessoais e privadas.
A negativa, porém, não impediu o acesso aos dados. Os celulares de Vorcaro, de parentes, ex-sócios e do investidor Nelson Tanure tiveram seus conteúdos extraídos em ambiente controlado do Instituto Nacional de Criminalística (INC), em Brasília, e encaminhados à Procuradoria-Geral da República (PGR), revelou O GLOBO.
A PF utiliza softwares avançados capazes de romper senhas de dispositivos iOS e Android. As mensagens e áudios encontrados serão decisivos para definir se o inquérito permanece no Supremo Tribunal Federal ou se será enviado à primeira instância. Relator do caso, o ministro Dias Toffoli já indicou essa possibilidade após o encerramento das investigações.
A perícia é coordenada por Luiz Felipe Nassif, chefe do setor de informática da PF e responsável por grandes operações anteriores. Os aparelhos foram preservados segundo rígidos protocolos de cadeia de custódia, tratados como “cena do crime” digital.
Entre os dados analisados estão grupos de WhatsApp como “MasterFictor”, criado poucos dias antes da prisão de Vorcaro. O grupo estava ligado à tentativa de venda do Banco Master por R$ 3 bilhões, com suposto apoio de investidores estrangeiros. Nesta semana, empresas ligadas ao grupo Fictor pediram recuperação judicial para reestruturar dívidas de R$ 4,2 bilhões.
Também surgem conexões com a gestora Reag DTVM e seu fundador João Carlos Mansur, igualmente alvos da operação. Parte do material chegou a ser compartilhada com a CPI do INSS, mas teve o acesso posteriormente bloqueado por decisão de Toffoli.
Outro perito designado para o caso é Enelson da Cruz Filho, que deve se concentrar na análise de planilhas, tabelas e fluxos financeiros. A PF também emprega técnicas para recuperar arquivos apagados, como o datacarving, ampliando o alcance das apurações.