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Economia

Patrimônio e disputas que envolvem o Banco Master na mira

Império construído por Daniel Vorcaro envolve uma complexa teia de ativos bilionários, relações com a elite política e membros da Justiça brasileira

Suzano Almeida

16/01/2026 5h00

Atualizada 15/01/2026 20h59

Hotel Rosewood/ Divulgação

Hotel Rosewood/ Divulgação

O mercado financeiro e os bastidores do poder em Brasília acompanham com atenção a movimentação patrimonial de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. O que emerge é uma complexa rede de transações milionárias que envolvem desde a liquidação de ativos para o BTG Pactual até disputas judiciais em hotéis de luxo e investigações da Polícia Federal.

O patrimônio do banqueiro revela uma estrutura de interesses que ultrapassa as fronteiras dos balanços bancários, conectando o mercado de capitais a imóveis de altíssimo padrão e figuras centrais da política nacional.

Em uma movimentação relevante para capitalizar o Banco Master, o BTG Pactual anunciou a aquisição de um robusto pacote de ativos pessoais e participações acionárias de Vorcaro. A transação movimentou 56,53 milhões de ações da Light (LIGT3), equivalentes a R$ 378 milhões, e 8,12% do capital da Méliuz (CASH3), avaliados em R$ 55 milhões. O pacote incluiu ainda participações na Hapvida e direitos creditórios.

O destaque imobiliário dessa negociação foi a transferência do edifício do Hotel Fasano Itaim, em São Paulo, um dos ativos mais valiosos do portfólio, para o controle do BTG. O objetivo central é gerar liquidez para o Banco Master, permitindo-lhe resolver o “descasamento de prazos” provocado por ativos ilíquidos, como precatórios judiciais. Essa injeção de recursos é vista como o passo necessário para viabilizar o polêmico acordo de R$ 2 bilhões com o Banco de Brasília (BRB), operação que aguardava o aval do Banco Central e é observada com cautela devido à estratégia agressiva do Master, que oferece rendimentos de até 140% do CDI.

Empréstimos e Espionagem

Enquanto Vorcaro reestrutura suas finanças, outro gigante da hotelaria paulistana, o Hotel Rosewood (Cidade Matarazzo), é palco de uma guerra societária. O empreendimento, que teria sido beneficiado por um aporte ou empréstimo na ordem de R$ 300 milhões, enfrenta uma crise interna entre o empresário francês Alexandre Allard e a holding Chow Tai Fook (CTF), de Hong Kong.

Allard acusa seus sócios de espionagem industrial e usurpação de direitos autorais do projeto arquitetônico. Em um relato dramático, a defesa do empresário alega que uma diretora teria extraído dados sigilosos do notebook de sua advogada via pendrive para tentar diluir sua participação acionária. A Justiça já autorizou uma perícia no imóvel para evitar alterações que descaracterizem o projeto original idealizado por Allard em 2010.

Intervenção do STF

O alcance do patrimônio vinculado a Vorcaro também atraiu o crivo das autoridades federais. Durante uma busca e apreensão, a Polícia Federal encontrou documentos sobre uma propriedade monumental em Trancoso (BA), avaliada em R$ 380 milhões. O “termo de opção de compra” detalhava a aquisição de uma área de quase 900 mil metros quadrados à beira-mar, envolvendo o deputado federal João Carlos Bacelar (PL-BA) pelo valor de R$ 250 milhões na promessa de venda.

Embora o parlamentar afirme que o negócio não prosperou, a descoberta do documento em uma pasta com o timbre da Câmara dos Deputados levou o ministro Dias Toffoli a determinar que a investigação seja conduzida pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

“QG” do Lago Sul

A influência de Vorcaro consolida-se em Brasília através de uma mansão no Lago Sul, avaliada em R$ 36 milhões. Com 1,7 mil m² de área construída e projeto do escritório Studio Hub, o imóvel teve como vendedor o empresário Márcio Machado. A residência tornou-se famosa por sediar jantares reservados para a elite política, recebendo nomes como o ministro do STF Alexandre de Moraes e líderes do Centrão, como Ciro Nogueira e Hugo Motta. Embora o banqueiro alegasse ser apenas inquilino, dados da Receita Federal vinculam o controle do imóvel ao seu círculo empresarial.

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Foto: Divulgação / StudioHub Arquitetura

Ativos e Valores

AtivoValor EstimadoDetalhe Relevante
Hotel Fasano ItaimParte de pacote bilionárioVendido ao BTG para capitalizar o Banco Master.
Hotel RosewoodR$ 300 milhõesAlvo de disputa por espionagem e direitos autorais.
Casa em TrancosoR$ 380 milhõesDocumento apreendido pela PF; caso enviado ao STF.
Mansão BrasíliaR$ 36 milhõesVendedor: Márcio Machado; ponto de encontro político.

STF x PF

O cerco judicial em torno de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, se intensificou nesta quarta-feira (14) com a deflagração da segunda fase da Operação Compliance Zero. A Polícia Federal realizou novas buscas e apreensões em endereços ligados ao banqueiro, ao seu pai, Henrique Vorcaro, à sua irmã e ao seu cunhado, Fabiano Zettel, além de atingir o investidor Nelson Tanure.

O clima de tensão culminou na detenção temporária de Zettel no aeroporto de Guarulhos, quando este tentava embarcar para o exterior. No entanto, em uma decisão célere, o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a soltura do cunhado de Vorcaro poucas horas depois, impondo-lhe, contudo, a retenção do passaporte e a proibição de deixar o país.

A atuação de Toffoli no caso tem sido marcada por determinações rigorosas sobre a custódia das provas e críticas contundentes à conduta policial. Inicialmente, o ministro ordenou que todo o material apreendido, incluindo os celulares de Vorcaro e seus familiares, fosse enviado lacrado diretamente ao seu gabinete no STF, justificando a medida pela suposta “falta de empenho” e inércia da Polícia Federal no cumprimento de prazos.

Entretanto, diante de alertas técnicos da própria PF e da Procuradoria-Geral da República (PGR) sobre o risco iminente de perda de dados digitais caso a perícia não fosse imediata, Toffoli recuou. Em nova decisão, estabeleceu que o material deverá ficar custodiado na PGR para garantir a integridade das evidências.

Relação obscura

Um ponto que desperta atenção nos bastidores jurídicos é a composição da defesa de Daniel Vorcaro, que conta com advogados de renome e trânsito nas instâncias superiores. A relação entre o ministro Dias Toffoli e a advocacia que representa o banqueiro é frequentemente citada em virtude de laços históricos; um dos principais defensores de Vorcaro no âmbito do STF possui conexões profissionais de longa data que remontam ao período em que o ministro atuava na advocacia e em cargos no Executivo.

Essa proximidade é monitorada por observadores do judiciário, especialmente após Toffoli assumir a relatoria do caso em dezembro de 2025, quando o processo subiu ao STF devido à descoberta de documentos na casa de Vorcaro que vinculavam a compra de uma propriedade de luxo em Trancoso, avaliada em R$ 380 milhões, ao deputado federal João Carlos Bacelar.

As investigações agora miram um esquema de desvios que pode variar entre R$ 12 bilhões e R$ 17 bilhões, quantias que teriam sido drenadas do Banco Master para o patrimônio pessoal da família Vorcaro.

O cenário é agravado por levantamentos do Banco Central que apontam a infiltração de fundos de investimento suspeitos em setores da economia formal ligados à facção criminosa PCC. Atualmente, o Banco Master encontra-se sob liquidação extrajudicial.

Sem respostas

A nossa reportagem entrou em contato com Daniel Vorcaro, mas até a publicação desta matéria não tivemos retorno do mencionado. O espaço segue aberto para futuras manifestações.

O BTG Pactual informou que não possui aportes no empreendimento hoteleiro.

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