ANDRÉ BORGES, ADRIANA FERNANDES E LUCAS MARCHESINI
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS)
A família de Daniel Vorcaro, banqueiro do Master acusado de orquestrar um esquema fraudulento envolvendo fundos de investimento, é a investidora de um projeto bilionário de créditos de carbono realizado sobre terras públicas e baseado em valores inflados, sem lastro na realidade do mercado.
Documentos obtidos pela Folha apontam que os Vorcaros estão envolvidos desde a origem no plano de explorar esses créditos em uma área da Amazônia, por meio da alavancagem financeira realizada com fundos da administradora Reag.
Créditos de carbono são certificados que empresas podem comprar para compensar suas emissões de carbono. Projetos de restauração florestal e energia limpa, por exemplo, geram créditos conforme a quantidade de gases evitados ou removidos da atmosfera, que podem ser repassados.
Dois fundos sob gestão da Reag tiveram seu patrimônio reavaliado porque duas empresas das quais eles eram acionistas foram turbinadas em mais de R$ 45,5 bilhões com a geração de carbono advinda de uma área pública da União na Amazônia, o que é irregular. Isso transforma o caso em um dos maiores escândalos do setor.
O elo entre o projeto irregular de carbono e a família Vorcaro se dá por meio de uma empresa chamada Alliance Participações, conforme contratos e laudos aos quais a reportagem teve acesso.
A Alliance, uma sociedade anônima fechada, é controlada por Henrique Moura Vorcaro, que ocupa a cadeira de presidente, e Natália Bueno Vorcaro Zettel, diretora da empresa e mulher de Fabiano Zettel, alvo de operação na semana passada. Tratam-se do pai e da irmã de Daniel Vorcaro, que sempre negou participação no negócio de carbono na região.
Em agosto de 2022, um Contrato de Opção de Compra e Venda foi assinado entre a Alliance, o fazendeiro Marco Antônio de Melo, que aparece como dono da terra, e José Antônio Ramos Bittencourt, que atuou como mediador da transação comercial.
Com o acordo, a Alliance passou a ser dona majoritária das unidades de carbono associadas à Fazenda Floresta Amazônica, em Apuí (AM), com 80% do que seria produzido, enquanto Bittencourt ficou com 20%. O passo seguinte foi estruturar a engrenagem dos fundos da Reag que assumiriam o projeto.
Em 2023, com o acordo formalizado, as operações transformam as 168,872 milhões de unidades de estoque de carbono estimadas no território da Fazenda Floresta Amazônica em cotas de fundos. Neste acerto, o intermediário do negócio, José Antônio Ramos Bittencourt, recebeu cotas de dois fundos da Reag como pagamento, ficando com 2,5% do New Jade 2 e 7,5% do Biguaçu.
O arranjo financeiro passou a incluir, ainda, a possibilidade de negociações com tokens de carbono (um tipo de “vale digital” de carbono, um registro certificado usado para tentar transformar uma promessa de crédito ambiental em ativo financeiro) e outros ativos como forma de quitação.
O contrato prevê que o fazendeiro Marco Antônio de Melo seria remunerado por cotas e tokens, mas não detalha os percentuais ou fundos usados para remunerá-lo.
Este carbono da Alliance, empresa que agora se sabe pertence à família Vorcaro, foi parar na Global Carbon e na Golden Green, duas companhias da teia que inflaram o patrimônio dos fundos de investimentos sob gestão da Reag. Os fundos foram usados, segundo os investigadores, para desviar dinheiro do Master e para retroalimentar a ciranda financeira, ampliando o patrimônio do banco, o que permitiu à instituição financeira seguir vendendo CDBs no mercado.
No caso do negócio envolvendo créditos de carbono, a complexidade da trama vai além da sucessão de fundos para inflar patrimônio. O que está por trás da valorização explosiva de empresas que, de uma hora para a outra, passaram a valer dezenas de bilhões de reais, diz respeito à própria natureza do que seria supostamente negociado.
Enquanto o crédito de carbono tradicional depende de certificação reconhecida e redução comprovada de emissões, as tais unidades de estoque tratadas no contrato e medidas pela Unesp são descritas como estimativas, sem referência de mercado transparente ou preço público. Ainda assim, foram usadas como base para estruturar os fundos e reorganizações que sustentaram a narrativa de um ativo bilionário.
Como mostrou a Folha, as duas empresas controladas por fundos da Reag, a Golden Green e a Global Carbon, passaram a valer R$ 14,5 bilhões e R$ 31 bilhões, respectivamente, mesmo sem vender um único crédito.
Esses R$ 45,5 bilhões não eram dinheiro vivo, não podiam ser sacados por seus cotistas, mas ajudavam a inflar um patrimônio financeiro fictício que poderia turbinar empréstimos e fazer girar a ciranda dos negócios atrelados às suas cadeias de fundos.
A própria terra e floresta que dariam origem a esses créditos sempre estiveram enroladas com papéis e registros cartoriais que comprovam que se trata de uma área da União, impedida de ser negociada por terceiros e destinada à reforma agrária. Nada disso, porém, impediu que auditorias chancelassem os negócios, baseados unicamente no patrimônio financeiro informado pelas próprias empresas, sem nenhum tipo de checagem concreta sobre o que, afinal, poderia produzir aqueles créditos.
A Golden Green tem como investidor o fundo Jade; e a Global Carbon, o New Jade 2, ambos administrados pela Reag e investigados desde a Operação Carbono Oculto, que apura a suspeita de lavagem de dinheiro para o PCC. O New Jade 2 está na ponta de uma cadeia de controle de fundos que se inicia no Hans 95, um dos seis apontados como fraudulentos pelo Banco Central no caso Master, conforme mostrou a Folha.
Procurados, Henrique Moura Vorcaro e Natália Bueno Vorcaro Zettel informaram, por meio de seus advogados, que não têm envolvimento em operações ilícitas ou irregulares, que agem de boa-fé e de acordo com normas corretas de governança. “O grupo empresarial, cujas atividades detêm boa reputação há mais de 40 anos, está à disposição para esclarecer o que for necessário às autoridades”, informou.
Daniel Vorcaro afirmou que “o Banco Master e seu controlador não participam da gestão, da administração, da precificação ou da modelagem técnica dos fundos mencionados, tampouco das companhias citadas que têm projetos vinculados a créditos de carbono”.
Sua defesa declarou que “as atividades, estimativas e valores declarados nos balanços dessas empresas são de responsabilidade exclusiva das respectivas gestoras e dirigentes”, sem mencionar seus nomes.
José Bittencourt, intermediário do negócio com a Alliance, disse que “o projeto de ativos de carbono foi interrompido ainda em sua fase pré-inicial devido ao apontamento, feito por consultoria especializada, de questões fundiárias no terreno”.
Ele citou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) que está em andamento junto ao Incra, para tentar resolver a titularidade da terra. Questionado sobre sua relação com a família Vorcaro, Bittencourt disse apenas que “nunca teve nenhum contato com Daniel Vorcaro”.
A Reag declarou que não vai comentar o assunto. O fazendeiro Marco Antônio de Melo não respondeu ao pedido de esclarecimentos.
PASSO A PASSO DO ESQUEMA
2019
A Fazenda Floresta Amazônica, localizada em Apuí (AM), em seus 143,9 mil de hectares, passa a ser negociada para ser a origem de bilhões de reais em créditos de carbono, mesmo sendo a área uma terra pública, pertencente à União
2020
Com CNPJs de prateleira, tem origem as empresas Global Carbon e Golden Green, voltadas para negócios com crédito de carbono, ambas já ligadas a fundos administrados pela Reag
2021
A partir de auditorias embasadas em balanços financeiros das duas empresas, sem nenhum lastro em mercado ou na realidade fundiária da Fazenda Floresta Amazônica, Global Carbon e Golden Green passam a valer bilhões do dia para a noite
2023
A Alliance Participações, comandada por Henrique Moura Vorcaro e Natália Bueno Vorcaro Zettel, entra diretamente no negócio e compra 80% dos direitos de negócios de carbono da propriedade
2023
O fazendeiro Marco Antônio de Melo, suposto dono da fazenda, e José Antônio Ramos Bittencourt, intermediário no negócio, recebem como pagamento 2,5% das cotas dos fundos New Jade II e 7,5% das cotas do Biguaçu, ambos administrados pela Reag
2023
Relatório da Unesp quantifica o estoque de carbono da propriedade e diz que há 168,8 milhões de toneladas de CO₂ naquele território, usando método que nunca foi aplicado em mercado
2024
Baseada no método teórico da Unesp, as empresas ficam ainda mais bilionárias. A Golden Green passa a valer R$ 14,6 bilhões, enquanto Global Carbon é estimada em R$ 31 bilhões
2024
As transações entram na mira da Justiça, ao vir à tona a informação de que as terras da região são da União e destinadas à reforma agrária, logo não poderiam ser usadas por terceiros
2025
As transações entram na mira da Polícia Federal, com a deflagração da Operação Carbono Oculto, que apura a suspeita de lavagem de dinheiro envolvendo os fundos da Reag para o PCC