NICOLA PAMPLONA
FOLHAPRESS
O mercado financeiro recebeu com desconfiança o novo plano de investimentos da Petrobras, anunciado na quinta-feira (27), mas a empresa diz que conseguiu adequar sua estratégia ao novo cenário de preços do petróleo.
A estatal aprovou um orçamento de US$ 109 bilhões (R$ 580 bilhões) para os próximos cinco anos, 1,8% inferior ao vigente no plano anterior. Embora a queda no valor global seja pequena, houve um corte de 7% no valor da carteira de projetos firmes.
A preocupação do mercado refere-se aos primeiros anos do plano, em que a estatal terá menos flexibilidade para cortar investimentos, com risco de impacto do baixo preço do petróleo sobre os dividendos.
“O horizonte parece ser favorável, mas o abrigo parece frágil em caso de tempestade”, escreveu a analista Monique Greco, do Itaú BBA. As ações da estatal negociam em baixa no dia seguinte à divulgação do plano. Por volta das 16h40, os papéis ordinários caíam cerca de 2%.
Para a corretora Ativa, o plano “incorpora premissas de Brent e câmbio que consideramos ambiciosas e que podem gerar risco de frustração aos números da companhia”. A financiabilidade do plano considera o petróleo Brent a US$ 63 (R$ 337) em 2026 e US$ 70 (R$ 375) nos anos seguintes.
Mas há no mercado expectativas de que o petróleo possa bater até US$ 50 por barril no próximo ano, com o aumento da produção em países exportadores sem previsão de aumento da demanda. A Petrobras defende que o plano protege a empresa desse risco.
“Nesse momento em que a gente está falando de preços mais baixos de petróleo e necessidades de responsabilidade fiscal e financiabilidade dentro de limites adequados, a gente começa a priorizar projetos”, afirmou a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, em entrevista nesta sexta-feira (28).
A carteira de projetos em implantação caiu 7%, para US$ 91 bilhões (R$ 487 bilhões). Destes, a empresa considera factíveis no cenário atual apenas US$ 81 bilhões (R$ 433 bilhões), o que chamou de “carteira de implantação base”.
O diretor financeiro da estatal, Fernando Melgarejo, explicou que essa carteira tem os projetos já garantidos pela empresa. Nessa diferença de US$ 10 bilhões (R$ 53 bilhões) há projetos já aprovados, mas com margens menores, que terão que disputar entre si pelo dinheiro.
“Se a gente não tiver o Brent esperado, se ele for menor, a gente tem a possibilidade, ou seja, a flexibilidade de não continuar com esses projetos, adiá-los para um outro momento”, afirmou. Esses projetos serão reavaliados a cada três meses e, sobrando dinheiro, voltam para a lista de projetos firmes.
Magda afirmou que a lista de projetos que disputarão dinheiro inclui, por exemplo, uma plataforma para revitalizar os campos de Marlim Sul e Marlim Leste, dois antigos campos gigantes da bacia de Campos.
“Nós não estamos descartando esses projetos”, afirmou Magda. “Nós estamos adequando a nossa carteira, do momento, às necessidades impostas por um novo patamar de custos”.
A presidente da Petrobras disse que conversou com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) antes da aprovação do plano, como representante do acionista controlador da Petrobras, mas que eles falaram sobre a encomenda de navios no Rio Grande do Sul.
“O presidente Lula é nosso investidor, né? Ele é representante do nosso maior acionista”, disse ela. “Até onde eu estou entendendo, ele está gostando do nosso trabalho.”
ENTENDA AS FASES DE PROJETO DO PLANO DA PETROBRAS
Carteira de implantação base: são projetos já aprovados e que têm recursos garantidos. Soma US$ 81 bilhões.
Carteira de implantação alvo: projetos já aprovados mas com execução dependente da saúde financeira da empresa. Serão reavaliados a cada trimestre. Soma US$ 10 bilhões.
Carteira em avaliação: projetos que ainda dependem de avaliação de viabilidade ou eventuais novas aquisições. Soma US$ 18 bilhões.