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Economia

Mercado de bioinsumos cresce em área, mas margens apertadas limitam faturamento

O avanço em área tratada, de 8% a 9% ao ano, não se converteu em receita por causa da queda nos preços médios

Redação Jornal de Brasília

30/05/2025 21h37

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José Cruz/Agência Brasil

São Paulo, 30 – O mercado brasileiro de bioinsumos deve crescer 13% ao ano em faturamento até 2028, puxado por produtos mais elaborados e maior adesão dos produtores. Mas a projeção otimista contrasta com os desafios imediatos: nas últimas duas safras, o faturamento do setor praticamente não saiu do lugar. Em 2024, as vendas somaram R$ 3,8 bilhões, com alta de apenas 1% em valor, segundo dados da consultoria Blink.

O avanço em área tratada, de 8% a 9% ao ano, não se converteu em receita por causa da queda nos preços médios.

“Quando você tem duas coisas semelhantes, o produtor escolhe a mais barata. As empresas têm dificuldade de mostrar diferenciação tecnológica”, afirmou a consultora da Blink, Cárin Lausmann Junco. A especialista lembra que o salto nos preços em 2022/23, em linha com a alta dos defensivos importados, foi seguido por uma correção. “Cresceu muito, no outro ano voltou.”

A pressão por preços baixos gerou uma dinâmica de “comoditização” no setor, dificultando a rentabilidade. “As ferramentas se repetem nos portfólios. Só se destaca quem traz preço novo e mercado novo com inovação”, disse o professor da Esalq/USP Fernando Andreote. Segundo ele, o cenário atual já levou empresas à insolvência e deve acelerar a consolidação entre players com escala, registro e diferenciação técnica. “Vai ter gente se perdendo no caminho, vai ter gente que vai ficar para trás”, avaliou Junco.

Mais de 150 empresas disputam fatias desse mercado, que exige margem mínima de 15% a 20% para a viabilidade. “Esse patamar é arrasador para quem investe em pesquisa (P&D)”, disse Junco. Para Andreote, a margem ideal para sustentabilidade econômica seria de 30% a 50%. “Com Selic de 15%, como vai ganhar 15% só? Melhor deixar no banco.”

Além das margens apertadas, o setor enfrenta gargalos regulatórios. O setor ainda enfrenta algumas travas legais. “Se você combinar uma molécula de fungo com estrutura celular de bactéria, a legislação não oferece segurança”, afirmou Andreote. Nessas situações, o registro pode levar até cinco anos. A regulamentação aprovada em dezembro de 2024 deve aliviar parte dessas restrições. “O benefício é reconhecer que um organismo pode ter mais de uma função. Se registrei uma bactéria para fósforo e falar que fixa nitrogênio, sou multado”, explicou.

A nova norma, que ainda depende de regulamentação, também deve viabilizar a mistura de biológicos com fertilizantes, hoje permitida apenas para sementes. O diretor executivo da Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda), Ricardo Tortorella, disse que o processo de regulamentação está sendo coordenado pelo Ministério da Agricultura por meio de grupos de trabalho. “A lei saiu, decreto tem prazo, precisamos regulamentar ao longo deste ano.” Segundo ele, a entidade entregou sugestões técnicas ao governo e está focada no avanço da “bionutrição”, uso de microrganismos para melhorar a eficiência dos fertilizantes.

“O biológico não tolera viagem de navio da China. Tem que ser feito aqui”, disse Andreote, destacando que o Brasil é líder mundial no uso de bioinsumos e possui vantagem competitiva na produção local. Ele lembrou que os biológicos podem melhorar o aproveitamento de fertilizantes importados, que representam 85% do consumo nacional. No caso do fósforo, apenas 30% do nutriente é absorvido pelas plantas; 70% se perdem no solo. “Se aumentar a eficiência em 10%, contribui para a sustentabilidade e reduz a dependência externa”, afirmou.

O desenvolvimento de novos produtos é mais rápido e barato que o de defensivos químicos: leva entre dois e cinco anos e custa de R$ 1 milhão a R$ 2 milhões. Inoculantes chegam ao mercado em até 18 meses; biodefensivos, entre dois e três anos. Mesmo assim, os custos com pesquisa e equipe técnica levaram muitas empresas a terceirizar a pesquisa. “Você não monta time de P&D fácil. É investimento de longo prazo, e o laboratório não é barato”, disse Andreote. No Parque Tecnológico da Esalq, em Piracicaba (SP), duas empresas atendem até 80% das companhias do setor com pesquisa contratada.

Estadão Conteúdo

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