CRISTIANE GERCINA
FOLHAPRESS
A maioria dos brasileiros diz ser contra o pagamento de taxa mínima de R$ 10 para motoristas de aplicativos de delivery que fazem entregas por iFood, 99Food, Rappi e Keeta, segundo pesquisa realizada pela Quaest em parceria com a ANR (Associação Nacional dos Restaurantes).
O levantamento mostra que 7 em cada 10 consumidores ouvidos (71%) são contra o valor de R$ 10 mais uma taxa extra por quilômetro a cada entrega que passar de quatro quilômetros, e 8 em cada 10 (78%) acreditam que o preço da comida no delivery irá aumentar por causa disso.
Além disso, 71% afirmam que não estariam dispostos a pagar mais pelas entregas. A Quaest realizou 1.031 entrevistas com brasileiros com 16 anos ou mais entre 13 e 16 de março, em todas as regiões do país. A margem de erro é de três pontos percentuais e o intervalo de confiança é de 95%.
A taxa mínima nos apps de delivery é um dos principais pontos de impasse nas discussões do projeto de lei que tramita na Câmara dos Deputados. Embora não tenha sido proposto pelo governo, o valor de R$ 10 tem apoio do Executivo federal. A cobrança consta em proposta anterior do então deputado Guilherme Boulos, hoje ministro da Secretaria-Geral da Presidência. O PL 152, que está em debate atualmente, propõe tarifa mínima de R$ 8,50 a ser paga a entregadores de delivery.
A rejeição à proposta se amplia quando a pesquisa leva em consideração o espectro político do consumidor. Entre os que se disseram bolsonaristas, 97% são contra. No caso de quem se classificou como independente, 83% são contra e, entre os lulistas, 39% se disseram contrários.
Procurados, os apps afirmaram que se posicionariam por meio da Amobitec (Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia), que reúne as empresas do setor. Em nota, a associação diz que é a favor da regulamentação e defende um modelo de remuneração mínima por hora trabalhada, mas não o proposto.
“A fixação de uma taxa mínima por entregas, mais adicionais por quilômetro rodado, é uma medida inconstitucional e trágica para o equilíbrio do setor, que impactará significativamente o preço final”, afirma.
Para Felipe Nunes, diretor da Quaest, os dados são relevantes, especialmente em um ano de eleição presidencial. “Chama atenção que mesmo entre os independentes um terço da amostra que não se identifica com nenhum dos polos 83% são contrários à proposta. A rejeição transcende as divisões partidárias e sinaliza que o tema pode ter implicações eleitorais significativas”, diz.
O estudo também destaca uma preocupação com quem vai pagar a conta. Para 86% dos entrevistados, a medida afetaria principalmente as pessoas mais pobres, indicando percepção de impacto desigual no consumo.
Mesmo com a rejeição, o tema é conhecido pela população em geral. Do total, 87% dizem estar cientes do debate sobre a regulamentação dos aplicativos e 76% já ouviram falar especificamente da proposta de taxa mínima.
Não há consenso quanto ao valor da taxa mínima que poderia ser cobrado. O deputado Augusto Coutinho (Republicanos-PE) fez defesa dos R$ 8,50 em congresso realizado no TST (Tribunal Superior do Trabalho) no início deste mês. Segundo ele, a cobrança de R$ 10 foi retirada porque não é possível que em localidades menores essa tarifa seja paga aos entregadores.
Boulos também participou das discussões e defendeu os R$ 10, dizendo que esse já seria o valor mínimo pago pelos apps. Segundo ele, as empresas estariam fazendo “terrorismo econômico” ao dizer que o preço da corrida ou do delivery ficaria impraticável.
“Dizer ‘vai aumentar o preço da comida, vai aumentar o preço do Uber’, olha que coisa. Teve um aumento de 50% do Uber no último ano, foi um dos que mais puxou a inflação. Isso não foi incorporado pelo trabalhador. Aí vão dizer que é a garantia para o trabalhador que vai gerar aumento? Não cola. Este é o mesmo terrorismo econômico que está operando também contra o fim da escala 6×1”, disse na época.
Para Fernando Bower, presidente da ANR, a regulamentação dos entregadores é necessária e deve avançar “com equilíbrio” pensando na sustentabilidade do setor.
“A própria pesquisa mostra que a população não apoia a proposta colocada, especialmente diante do potencial impacto nos preços. Medidas como a fixação de valores mínimos podem afetar os consumidores, sobretudo os mais vulneráveis, e pressionar a operação de bares e restaurantes”, diz.