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Economia

Liberdade impulsiona riqueza das nações, não o Estado, diz economista Deirdre McCloskey

“O ingrediente secreto, ou a fonte do crescimento econômico moderno, é a criatividade, a invenção. Se você acredita nisso, conclui que a liberdade é o que faz o mundo moderno”, afirma a economista Deirdre McCloskey

Redação Jornal de Brasília

15/05/2026 15h52

deirdre mccloskey

Foto: Gage Skidmore

EDUARDO CUCOLO
FOLHAPRESS

O principal fator que explica o enriquecimento de diversas nações nos últimos dois séculos é a liberdade, que impulsionou a criatividade e inventividade das pessoas, algo que até mesmo um país comunista como a China percebeu há algumas décadas. Não foi ação do Estado.

A afirmação é da economista Deirdre McCloskey, professora emérita de economia e história na Universidade de Illinois, em Chicago, e colunista da Folha.

Durante debate realizado pela Unesp (Universidade Estadual Paulista) para comemorar os 50 anos de existência da instituição, McCloskey falou sobre o papel do Estado para um crescimento econômico sólido.

“O ingrediente secreto, ou a fonte do crescimento econômico moderno, é a criatividade, a invenção. Se você acredita nisso, conclui que a liberdade é o que faz o mundo moderno”, afirma a economista.

“Como historiadora econômica, posso mostrar a vocês repetidas vezes que avanços e melhorias acontecem devido às pessoas. Um único cérebro humano com uma nova ideia, pequena ou grande. Não por causa de política estatal.”

McCloskey diz que seu lugar nesse debate não está “nem na esquerda, nem na direita, nem no centro”, mas em uma “pequena casa na árvore liberal, olhando para baixo com horror”.

Ela lembrou que há uma tendência na América Latina de usar a palavra liberal para classificar “políticas que ajudam os ricos”, enquanto nos Estados Unidos o termo é utilizado para designar pessoas de esquerda. Para a economista, no entanto, significa defender que as pessoas não tenham senhores que as dominem coercitivamente.

Essa era a principal preocupação dos primeiros teóricos do capitalismo. Uma segunda onda de pensamento levantou a questão da pobreza.

“Ensinei muitos dos ‘Chicago boys’. A melhor forma de ajudar os pobres é parar de oprimi-los, parar de impedi-los de se tornarem médicos, eletricistas, o que for, com licenças [autorizações de trabalho regulado], impedi-los de conseguir comida e roupas baratas de outros países com protecionismo.

Pessoas pobres devem ser libertas, e a principal ameaça à sua liberdade não são seus empregadores, não são seus chefes, é o Estado, é o governo.”

A economista afirma ser radical ao duvidar que “um governo imperfeito possa corrigir muitas das imperfeições de uma economia imperfeita”. Para ela, corrigir a desigualdade com um governo imperfeito fazendo isso frequentemente mata o crescimento econômico. “Esse é um dos problemas europeus.”

Então por que o Estado é tão popular?, questiona McCloskey. Na sua visão, a razão é que crescemos em famílias, e famílias são e devem ser empreendimentos socialistas. Tratar a nação como uma família, e os cidadãos como filhos dos seus líderes, é algo perigoso, improdutivo, e contribui para que países não consigam se tornar ricos.

“Do que um país precisa? Precisa de adultos, de pessoas crescidas”, afirma. “Pessoas que não estejam dispostas a ser crianças de ninguém”, afirma a economista, acrescentando que o liberalismo também pode ser pensado como um “adultismo”.

Para ela, duas coisas necessárias para uma república funcionar são que as pessoas se comportem como adultos e que não haja líderes que as corrompam.

“Precisamos de cidadãos adultos que tenham orgulho de cuidar de si e ajudar os outros de forma sensata. E precisamos de líderes que parem de tentar nos corromper. Eu não votei nele, mas [Barack] Obama era um homem bom habilidoso em falar. [Donald] Trump é um homem mau habilidoso em falar. Vocês tiveram a mesma experiência aqui [no Brasil].”

Ela participou de um painel junto com o economista Gabriel Felbermayr, do Instituto Austríaco de Pesquisa Econômica, mediado pelo professor Ivan Colangelo Salomão.

Felbermayr diz que se define como um “ordoliberal”, uma corrente baseada na ideia de que desenvolvimento e prosperidade requerem ação estatal. Ele afirma que precisamos de um Estado forte para nos libertar da coerção e fornecer o arcabouço em que transações voluntárias podem acontecer, no qual a inovação é permitida. Também não se deve confundir Estado com governo.

“O cerne do Estado forte é permitir a tomada de decisão descentralizada, que as escolhas de consumo, de lazer, de investimento das pessoas, como indivíduos, como trabalhadores, como empreendedores, possam acontecer da forma mais livre possível. Precisamos de um Estado forte para fornecer o arcabouço adequado para os mercados funcionarem”, afirma.

“Forte não significa grande. Também não significa poderoso, no sentido de que o governo é intrusivo e olha para tudo, torna a privacidade e a dimensão privada de nossas vidas muito pequena. É isso que o Estado chinês faz.”

O professor da FGV Nelson Marconi, que voltou nesta semana de uma visita com estudantes de administração de empresas à China, afirmou que aquele país não está questionando o papel do Estado, mas o que fazer para se desenvolver mais.

Durante outro painel no mesmo evento, ele destacou que o país trabalha com controle de movimentação de capitais, debate que no Brasil ele vê como proibido, e tem uma forte política industrial estatal.

“Não estão questionando se o Estado deve ou não participar desse processo. Isso para eles é absolutamente óbvio”, afirmou Marconi, destacando que “o Estado tem de retomar o papel de indutor do desenvolvimento aqui no Brasil”.

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