SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse nesta quarta-feira (19) que as taxas de juros de longo prazo pagas pelo Tesouro Nacional são muito altas, algo que considera inaceitável e que precisa ser solucionado.
Em entrevista após fórum organizado pelo grupo Esfera Brasil e a farmacêutica EMS, em Brasília, o ministro afirmou que o nível dos juros prejudica a administração pública, empresas e famílias, ressaltando que o governo mantém compromisso com uma melhora das contas públicas para colaborar com a redução das taxas no país.
O ministro ainda afirmou que os juros nos Estados Unidos, em nível historicamente alto, pressionam a política monetária de países ao redor do mundo, acrescentando que o mercado brasileiro reagiu bem à intervenção feita nesta quarta pelo Tesouro norte-americano.
Nesta quarta, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos afirmou que dobrará o volume de recompras de títulos de longo prazo da dívida pública americana, em uma tentativa de dar mais liquidez ao mercado após a forte alta dos rendimentos desses papéis.
A decisão de ampliar as recompras ocorre em um momento de crescente tensão no mercado de títulos mais importante do mundo. Na terça-feira (18), o rendimento dos títulos de 30 anos chegou a quase 5,34%, o maior nível desde 2007.
“É uma intervenção do Tesouro norte-americano na recompra de títulos públicos em razão desse tipo de situação que está pressionando a rolagem da dívida lá. O que estamos vendo hoje é o mercado reagindo positivamente no Brasil”, disse Durigan.
Segundo o ministro, o governo “segue muito atento” ao tema dos juros nos EUA, enquanto prossegue em trabalho para melhorar as condições econômicas no Brasil.
“É uma situação que pressiona o mundo todo em termos de política monetária, e o Brasil segue com seu foco, dando espaço de liberdade para o governo e a iniciativa privada, e concentrando todo esforço necessário que é reduzir as taxas de juros no Brasil”, disse o ministro.
Questionado sobre um possível temor da base governista em relação a uma interferência dos Estados Unidos nas eleições, Durigan afirmou que, em sua avaliação, esse movimento já ocorre.
“A gente fez um esforço grande de diplomacia, de conversa, de apresentar propostas, mas do outro lado o que a gente recebe é o seguinte: ou vocês se rendem e abrem mão de qualquer pleito brasileiro e cedem completamente, ou nós vamos impor penalidade. E nós não concordamos com esse tipo de postura”, disse Durigan.
O ministro defendeu que o Brasil e os Estados Unidos mantenham uma relação baseada no respeito entre nações soberanas e afirmou que a lógica norte-americana não se sustenta em relação ao Brasil.
“Não faz sentido impor uma tarifa geral ao Brasil, quando nós temos um país que é mais pobre, e tem uma renda per capita menor que os Estados Unidos”, disse.
Como a Folha de S. Paulo mostrou, aumento das incertezas sobre a trajetória das contas públicas brasileiras e sobre o cenário internacional levou o Tesouro Nacional a ampliar a fatia de títulos da dívida federal atrelados à taxa Selic durante o atual governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
No início deste ano, a proporção desses papéis na dívida pública federal alcançou o maior patamar desde outubro de 2005. Em junho, eles respondiam por 49,32% do total, percentual ainda muito próximo do pico de janeiro de 2026 (49,42%) e 11 pontos percentuais acima do observado em dezembro de 2022 (38,25%).
As LFTs (Letras Financeiras do Tesouro), títulos públicos atrelados à Selic, são consideradas o porto seguro da dívida brasileira sob a ótica dos investidores.
Elas oferecem menos risco do que os prefixados (cuja remuneração é conhecida no momento da compra) ou os vinculados à inflação (que também têm uma taxa fixa, mas são corrigidos conforme o IPCA), que podem sofrer perdas quando a taxa de juros da economia sobe.
Para o Tesouro, as LFTs são um instrumento importante para garantir o financiamento do país em momentos de turbulência nos mercados, quando o apetite pelos demais títulos costuma ser menor e a emissão fica mais cara.
No entanto, a maior exposição à Selic aumenta o risco para a dívida pública, pois o custo de financiamento do governo fica sujeito às oscilações dos juros definidos pelo Banco Central. Basta um choque de juros para que o serviço da dívida fique automaticamente mais caro.