ANDRÉ BORGES
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS)
A crise se instalou de vez no setor de fertilizantes, que decidiu acionar o MRE (Ministério de Relações Exteriores) para pedir uma varredura global em busca de fornecedores emergenciais do insumo fundamental da agricultura.
Conforme informações obtidas pela Folha, o alerta enviado ao Itamaraty partiu da Anda (Associação Nacional para Difusão de Adubos) e do Sinprifert (Sindicato Nacional das Indústrias de Matérias-Primas para Fertilizantes).
As demandas mais urgentes se concentram em achar fornecedores de países que tenham produção de fertilizantes fosfatados ou pelo menos de seus insumos básicos, como enxofre e ácido sulfúrico. É preciso encontrar uma solução até agosto, quando começa o plantio da safra 2026/2027.
O enxofre e o ácido sulfúrico são a base da fabricação de fertilizantes. São essenciais para manter a produtividade de culturas como soja, milho, algodão, café e cana. Sem eles, a produção cai drasticamente.
O Itamaraty reagiu. No dia 12, conforme documentos obtidos pela Folha, a pasta enviou um pedido às representações diplomáticas brasileiras de dezenas de países, com o alerta para o risco de desabastecimento e a busca de apoio diplomático para sensibilizar governos estrangeiros a autorizar exportações emergenciais de fertilizantes.
O senso de urgência fica claro quando se vê que o ministério pediu que embaixadas e consulados enviassem as informações até esta sexta-feira (19).
O Brasil, líder na produção de diversos alimentos, também é o maior importador de fertilizantes do planeta. Mais de dois terços do consumo nacional de fosfato depende do exterior. Dos 9,75 milhões de toneladas de fertilizantes fosfatados que devem ser consumidos neste ano, 6,45 milhões terão de vir de fora.
A maior preocupação hoje é o enxofre. A Anda e o Sinprifert informaram ao governo que o país precisa obter, em caráter emergencial, 250 mil toneladas adicionais do produto por mês, ao longo dos próximos meses, para não travar a produção nacional de fertilizantes.
O enxofre é usado na fabricação de ácido sulfúrico, insumo para a produção de fertilizantes fosfatados.
O Brasil importou 2,3 milhões de toneladas de enxofre em 2025 e depende quase que integralmente da compra externa para atender seu consumo. A escassez, conforme relatos levados ao MRE, já provoca redução da produção nacional de fertilizantes, com a suspensão de operações em unidades industriais que fazem o processamento de fosfatos.
Alguns países já foram apontados como possíveis fornecedores, como Estados Unidos, Canadá, Cazaquistão e Turcomenistão. Essa lista também inclui Alemanha, Colômbia, Espanha, França, Japão, Polônia, Turquia e Venezuela.
A disparada histórica dos preços do enxofre ajuda a explicar o cenário atual. O Itamaraty reuniu dados junto ao setor que mostram alta de 823% na matéria-prima entre janeiro de 2024 e abril de 2026. O ácido sulfúrico, que depende desse insumo, teve aumento de 305% no mesmo período.
A segunda preocupação é o ácido sulfúrico. O setor pede apoio para buscar fornecimento emergencial de 60 mil toneladas mensais do produto. Entre os fornecedores identificados estão Bélgica, Bulgária, Espanha, Finlândia, Chile e Peru.
A terceira prioridade são os fertilizantes fosfatados em si, ou seja, o produto pronto. O agro tenta localizar fornecedores capazes de entregar 1,54 milhão de toneladas adicionais do produto. Os países vistos como potenciais fornecedores são Alemanha, Egito, Espanha, Índia, Israel, Omã, Países Baixos e Tunísia.
A preocupação internacional com fertilizantes chegou a tal ponto que os Estados Unidos deixaram de tratar o produto apenas como commodities agrícolas para enquadrá-lo como tema de estratégia industrial e segurança alimentar. Os EUA incluíram fosfato e potássio em sua lista oficial de minerais críticos.
Por trás dessa dificuldade de acesso ao produto está o fechamento do estreito de Hormuz, além de restrições da China às exportações de ureia. Cerca de 15% das importações brasileiras de fertilizantes vêm da região do Oriente Médio afetada pela guerra. Irã, Qatar, Arábia Saudita, Omã e Emirados Árabes Unidos responderam juntos por 36% das importações brasileiras de ureia em 2025.
À reportagem o Itamaraty declarou que “tem tratado do tema dos fertilizantes de forma prioritária, seja na agenda diplomática do ministro Mauro Vieira, seja nas demais autoridades do ministério, seja em contatos com o setor privado”.
“No que tange à atuação diplomática, o tema constou de forma prioritária na recente agenda de visitas do ministro Mauro Vieira, que tratou do tema em contato com autoridades de alto nível do Uzbequistão, do Cazaquistão e da China”, declarou o Itamaraty.
A pasta confirmou que “as áreas responsáveis por comércio deste ministério e as embaixadas do Brasil também estão engajadas em auxiliar o mapeamento de oportunidades no mercado global de fertilizantes”.
O Itamaraty disse que mantém, ainda, contato frequente com entidades do setor privado, como a CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) e a Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), “trabalhando em conjunto, em seu papel de facilitador de contatos, para identificar e ajudar a atender as demandas do setor privado”.
A Anda informou que não vai comentar o assunto. A Folha questionou o Mapa (Ministério da Agricultura e Pecuária) e o Sinprifert. Não houve resposta até a publicação deste texto.