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Economia

IPCA sobe mais do que o esperado em setembro e fica acima da meta de inflação

A volta da inflação era aguardada devido ao fim do bônus de Itaipu. Sem esse desconto temporário, a conta de luz subiu 7,98% em setembro

Redação Jornal de Brasília

09/10/2026 12h45

ipca (1)

foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

LEONARDO VIECELI
RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS)

Puxado pela carestia da energia elétrica, o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) teve alta de 0,82% em setembro, após registrar queda em agosto (-0,32%), disse o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) nesta sexta-feira (9).

A volta da inflação era aguardada devido ao fim do bônus de Itaipu. Sem esse desconto temporário, a conta de luz subiu 7,98% em setembro. Combustíveis, passagens aéreas e alimentos também ficaram mais caros, pressionando o IPCA.

O índice de 0,82% subiu mais do que a mediana das projeções do mercado financeiro, que era de 0,76%, conforme a agência Bloomberg. A taxa divulgada pelo IBGE é a maior para meses de setembro em cinco anos, desde 2021 (1,16%).

No acumulado de 12 meses, o IPCA acelerou a 4,58%, após marcar 4,22% na leitura anterior. Assim, rompeu o teto de 4,5% da meta de inflação perseguida pelo BC (Banco Central).

LUZ, PASSAGEM AÉREA, GASOLINA E ALIMENTOS SOBEM

Todos os nove grupos de produtos e serviços pesquisados no IPCA subiram em setembro.
Habitação registrou a maior alta e o principal impacto entre os segmentos (2,31% e 0,35 ponto percentual). Transportes (0,89% e 0,18 p.p.) e alimentação e bebidas (0,83% e 0,18 p.p.) vieram na sequência.

O resultado da habitação reflete a carestia da energia elétrica. O avanço da conta de luz (7,98%) mais do que devolveu a queda registrada com o bônus de Itaipu em agosto (-7,63%).

A energia respondeu pelo maior impacto individual do lado das altas no IPCA de setembro (0,32 ponto percentual).

Em uma situação hipotética, se esse componente fosse retirado do cálculo de inflação, o índice geral teria sido de 0,52%, e não de 0,82%, segundo o IBGE.

No caso dos transportes, a pressão veio do aumento de 9,66% nas passagens aéreas e do avanço dos combustíveis (1,41%), com destaque para gasolina (1,21%) e etanol (3,16%).

Os alimentos, por sua vez, voltaram a subir após três meses consecutivos em baixa. O IBGE associou o resultado à redução da oferta de produtos devido ao clima adverso.

A alimentação no domicílio (em casa) aumentou 0,96% com as altas de produtos como o tomate (37,76%), a batata-inglesa (24,07%), a cebola (10,14%), o arroz (4,56%) e as carnes (0,63%).

“Teve mais frio, mais chuva”, disse Fernando Gonçalves, gerente da pesquisa do IPCA.

“O tomate, com o clima mais frio, demora mais para amadurecer. As chuvas, para a batata, provocaram problema na colheita. Isso reduz a oferta, chegando a um preço mais elevado para o consumidor”, acrescentou o técnico do IBGE.

Conforme o IPCA, comer fora de casa também ficou mais caro.
A alta da alimentação fora do domicílio acelerou a 0,48% em setembro, após marcar 0,36% em agosto.

Esse componente abrange os serviços de estabelecimentos como bares, lanchonetes e restaurantes.

POSSÍVEL IMPACTO DO EL NIÑO

Gonçalves evitou cravar se o El Niño já está por trás do cenário dos alimentos, mas analistas de fora do IBGE começam a ver a influência do fenômeno climático sobre a inflação.

É o caso de Cláudio Ferraz, economista-chefe da Galapagos Capital. Ele afirmou em relatório que a aceleração dos preços de produtos in natura já reflete os impactos do evento.

O El Niño desafia o agronegócio ao alterar a distribuição das chuvas no território. Em caso de perdas de produção no campo, os preços dos alimentos tendem a ficar mais caros para o consumidor na cidade.

Na visão do economista Fábio Romão, da consultoria 4intelligence, já é possível associar uma parte da aceleração dos preços ao fenômeno climático, embora esse ainda não seja o principal vetor da alta em setembro.

Analistas esperam que o impacto do El Niño fique mais forte a partir do final do ano.

PREÇOS E ELEIÇÃO

A inflação é um dos temas em evidência na corrida presidencial em curso no Brasil. Como mostrou a Folha de S.Paulo, o governo Lula (PT) chegou ao primeiro turno das eleições com a menor alta acumulada pelo IPCA em um mandato presidencial desde o início do Plano Real –a moeda entrou em circulação em julho de 1994.

Apesar disso, o petista ficou atrás do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na votação de domingo (4) e tem o desafio de tentar reverter a vantagem do adversário. O segundo turno está agendado para 25 de outubro.

Para analistas, um dos fatores que atrapalham Lula é o mal-estar de parte da população associado ao nível dos preços de itens básicos, como os alimentos.

Ou seja, esses produtos subiram menos no terceiro governo do petista, mas a variação incidiu sobre um patamar de custos que já pesava no orçamento familiar desde a pandemia.

PROJEÇÕES E JUROS

Na mediana, as projeções do mercado financeiro sinalizam IPCA de 5,01% para o acumulado dos 12 meses até dezembro de 2026, aponta o boletim Focus, do BC, divulgado na segunda (5).

A estimativa está acima do teto de 4,5% da meta de inflação.

A meta é considerada descumprida quando o acumulado permanece por seis meses seguidos de divulgação fora do intervalo de tolerância, que vai de 1,5% (piso) a 4,5% (teto). O centro é de 3%.

O IPCA é referência para a política de juros do BC. A taxa básica (Selic) está em 13,75% ao ano desde setembro.

O Copom (Comitê de Política Monetária), do BC, volta a se reunir em 3 e 4 de novembro para definir o patamar da Selic.

Analistas do mercado ainda veem espaço para ao menos mais uma redução de 0,25 ponto percentual neste ano, o que levaria a taxa de juros para 13,5%.

Mesmo em queda, a Selic segue em nível que dificulta o consumo de parte dos bens e serviços.

O aperto dos juros busca esfriar a demanda que pressiona a inflação. O efeito colateral esperado é a perda de ritmo da atividade econômica, que já apareceu no PIB (Produto Interno Bruto).

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