LEONARDO VIECELI
FOLHAPRESS
O IPCA-15 (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15) subiu 0,7% em setembro, após registrar queda em agosto (-0,4%), apontam dados divulgados nesta sexta-feira (25) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
A taxa de 0,7% é a maior para setembro em cinco anos, desde 2021 (1,14%). O resultado surpreendeu analistas do mercado financeiro ao ficar acima das projeções coletadas pela agência Bloomberg. A alta superou tanto a mediana (0,55%) quanto o teto das estimativas (0,66%).
A volta da inflação era aguardada devido ao fim do bônus de Itaipu. Esse desconto temporário na conta de luz havia puxado o IPCA-15 para o campo negativo (deflação) em agosto.
A energia elétrica residencial subiu 7,42% em setembro, após queda de 6,25% na leitura anterior. Foi a principal pressão individual do lado das altas no índice (0,29 ponto percentual).
Outro impacto veio dos alimentos, cujos preços aumentaram depois de dois meses em baixa. A carestia do cigarro (14%) e da passagem aérea (9,82%) também influenciou o resultado geral.
No acumulado de 12 meses, a alta do IPCA-15 acelerou de 4,24% até agosto para 4,47% até setembro.
Com isso, aproximou-se do teto de 4,5% da meta perseguida pelo BC (Banco Central) para o índice oficial de inflação do país, o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo).
Como o IPCA-15 é divulgado antes, dá uma sinalização para o comportamento do IPCA. Uma das diferenças entre os dois é o período de coleta dos preços.
A apuração do IPCA-15 abrange a segunda metade do mês anterior e a primeira do mês de referência. No caso de setembro, isso ocorreu no período de 15 de agosto a 15 de setembro.
O levantamento do IPCA se concentra no mês de referência. Assim, o resultado de setembro ainda não está fechado. O IBGE publicará os dados em 9 de outubro.
ENERGIA E ALIMENTOS PRESSIONAM
Os nove grupos de produtos e serviços pesquisados tiveram alta no IPCA-15 de setembro.
A maior variação e o principal impacto vieram da habitação (2,07% e 0,31 ponto percentual). O ramo refletiu o aumento da energia elétrica.
O grupo alimentação e bebidas teve inflação de 0,4%, após quedas em julho (-0,66%) e agosto (-0,57%). Houve pressão do subgrupo alimentação no domicílio.
Os preços dos alimentos consumidos em casa tiveram alta de 0,38%. A alimentação no lar também vinha de dois recuos em sequência (-1,14% e -0,97%).
Os aumentos do tomate (20,76%), do arroz (2,39%) e das carnes (1,30%) puxaram o avanço em setembro.
Do lado das quedas, o IBGE citou o feijão-carioca (-6,33%), a cebola (-4,41%) e o café moído (-1,36%).
“A aceleração dos alimentos em setembro merece atenção porque mostra a perda de uma ajuda importante que vinha segurando a inflação”, disse o economista André Braz, do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas).
Comer fora de casa também ficou mais caro. A alimentação fora do domicílio, em locais como bares e restaurantes, teve alta de 0,44% em setembro, após aumento de 0,42% em agosto.
Esta foi a última divulgação do IPCA-15 antes do primeiro turno das eleições presidenciais. A votação ocorre em 4 de outubro.
O custo de vida tem sido usado na campanha presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como arma para tentar desgastar o presidente Lula (PT). O petista busca o quarto mandato.
A campanha de Lula tem procurado destacar o desempenho positivo de indicadores econômicos desde 2023, incluindo os de emprego e renda, além de medidas como o reajuste do salário mínimo acima da inflação.
SURPRESAS, PROJEÇÕES E EL NIÑO
Segundo o economista Leonardo Costa, da instituição financeira Asa, o IPCA-15 mostrou surpresa para cima na alimentação no domicílio em setembro, com destaque para carnes e itens in natura, além de leituras mais fortes em energia elétrica e gasolina. O combustível subiu 0,3%.
Após o resultado desta sexta, Costa vê espaço para revisão na projeção do IPCA de setembro, que pode sair de 0,63% para algo mais próximo de 0,7%.
Claudia Moreno, economista do C6 Bank, citou surpresas para cima nas passagens aéreas e na alimentação no domicílio no IPCA-15.
“Parte da aceleração [do índice geral] de setembro reflete a reversão do desconto temporário que tivemos nas contas de luz em agosto. Olhando adiante, ainda vemos outros fatores que devem manter a inflação pressionada, como o mercado de trabalho aquecido e a perspectiva de desvalorização do real”, diz.
O C6 prevê IPCA de 5% para o acumulado dos 12 meses de 2026, acima do teto da meta (4,5%).
A perspectiva do banco supera a mediana das projeções do mercado financeiro, que está em 4,92%, conforme o boletim Focus, do BC.
A meta é considerada descumprida quando o IPCA acumulado permanece por seis meses seguidos de divulgação fora do intervalo de tolerância, que vai de 1,5% (piso) a 4,5% (teto). O centro é de 3%.
Na semana passada, o Copom (Comitê de Política Monetária), ligado ao BC, reduziu a taxa básica de juros para 13,75% ao ano.
Conforme o boletim Focus, o mercado prevê Selic de 13,5% ao final de 2026, o que significaria mais um corte neste ano.
A leitura, contudo, não é um consenso. O C6, por exemplo, espera Selic de 13,75% até o fim do ano, embora não descarte novos cortes.
O economista Júlio Barros, do banco Daycoval, disse que o IPCA-15 mostra um resultado desafiador. Segundo ele, isso tende a levar o Copom a manter a Selic inalterada na próxima reunião, agendada para novembro.
Mesmo em queda, a taxa de juros segue em patamar que dificulta o consumo de parte dos bens e serviços. O aperto busca esfriar a demanda que pressiona a inflação. A intenção é controlar os preços.
O efeito colateral esperado é a perda de ritmo da atividade econômica, que já apareceu nos dados do PIB (Produto Interno Bruto).
O El Niño é um dos fatores que preocupam economistas no segundo semestre de 2026. O evento climático desafia o agronegócio ao alterar a distribuição das chuvas.
Em caso de perdas no campo, os preços dos alimentos podem ficar mais caros para o consumidor na cidade. O fenômeno também ameaça pressionar os custos em setores como o de energia.
IPCA-15 deixa deflação para trás e sobe 0,7% em setembro, acima do esperado
A taxa de 0,7% é a maior para meses de setembro em cinco anos, desde 2021 (1,14%)
José Cruz/Agência Brasil