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Economia

IPCA-15 acelera com reajuste de mensalidades escolares e fica acima do esperado em fevereiro

IPCA-15 desacelerou a 4,1%, após marcar 4,5% até janeiro; Perda de força nesse recorte está associada a uma questão estatística

Augusto Santos Verçosa

27/02/2026 14h58

ipca 15

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LEONARDO VIECELI
FOLHAPRESS

Pressionada por mensalidades escolares e passagens aéreas, a inflação medida pelo IPCA-15 (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15) acelerou a 0,84% em fevereiro, apontam dados divulgados nesta sexta (27) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

O resultado surpreendeu o mercado financeiro ao ficar bem acima das projeções. Na mediana, as estimativas sinalizavam alta de 0,57%, conforme a agência Bloomberg. O intervalo das previsões ia de 0,45% a 0,65%.

Isso significa que o IPCA-15 superou até a máxima projetada pelos analistas consultados pela agência. O índice do IBGE havia subido 0,2% em janeiro.

No acumulado de 12 meses, o movimento foi diferente. O IPCA-15 desacelerou a 4,1%, após marcar 4,5% até janeiro. A perda de força nesse recorte está associada a uma questão estatística.

O índice mensal havia subido mais em fevereiro de 2025 (1,23%). Essa variação deixa o cálculo de 12 meses e é substituída por uma menor (0,84%).

Apesar da surpresa com o IPCA-15 deste mês, analistas ainda esperam que o BC (Banco Central) comece a cortar a taxa básica de juros (Selic) na próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), em março.

O resultado de fevereiro, porém, tende a reforçar a cautela da instituição no próximo mês e pode dificultar uma redução mais intensa da Selic, de acordo com economistas. A taxa de juros está em 15% ao ano.

A economista Claudia Moreno, do C6 Bank, afirma que as surpresas do IPCA-15 se concentraram em componentes mais voláteis, que costumam oscilar mais. Ela cita os exemplos da passagem aérea (11,64%) e do seguro de veículo (5,62%).

Segundo Claudia, o BC deve fazer um “corte gradual” de 0,25 ponto percentual na Selic, que sairia de 15% para 14,75% em março.

A economista Mariana Rodrigues, da SulAmerica Investimentos, também aponta surpresas no IPCA-15 com passagens aéreas e seguro de veículo.

Para ela, o índice acende sinal de alerta em relação à perspectiva de melhora estrutural da inflação ao longo do ano.

MENSALIDADES E PASSAGENS EM ALTA


Em termos individuais, o reajuste das mensalidades do ensino fundamental exerceu o maior impacto no IPCA-15 deste mês (0,14 ponto percentual). A alta dos preços foi de 8,07%.

O segundo maior impacto veio da passagem aérea (0,09 p.p.), que avançou 11,64%.

Outros destaques foram os reajustes da tarifa de ônibus urbano (0,08 p.p. e 7,52%), das mensalidades do ensino superior (0,07 p.p. e 4,23%) e da gasolina (0,07 p.p. e 1,3%).

Do lado das quedas, o principal alívio veio da energia elétrica residencial (-0,06 p.p.). A conta de luz teve baixa de 1,37% em fevereiro.

Quando a análise considera os grupos de bens e serviços, os maiores impactos ficaram com transportes (0,35 p.p.) e educação (0,32 p.p.).

Os segmentos registraram altas de 1,72% e 5,2% neste mês. Os dois aceleraram ante janeiro.

Os transportes foram pressionados por passagens aéreas e combustíveis como a gasolina (1,3%). Já o ramo de educação refletiu a carestia dos cursos regulares (6,18%) devido aos reajustes habitualmente praticados no início do ano letivo.

Os cursos incluem ensino médio (8,19%), fundamental (8,07%), pré-escola (7,49%), creche (6,19%) e nível superior (4,23%), entre outros.

O grupo alimentação e bebidas, por outro lado, desacelerou a 0,2% em fevereiro. A alimentação no domicílio aumentou 0,09%, enquanto a fora do lar registrou inflação de 0,46%.

Dentro de casa, os destaques foram as altas do tomate (10,09%) e das carnes (0,76%). Entre as quedas, o IBGE citou o arroz (-2,47%), o frango em pedaços (-1,55%) e as frutas (-1,33%).

Apesar do “susto” com o índice de fevereiro, a composição do IPCA-15 “não foi tão ruim quanto parece”, diz o economista sênior da Genial Investimentos, Gabriel Pestana.

Ele afirma que componentes como a alimentação no domicílio vieram em linha com o esperado, enquanto houve surpresas em preços como os de passagens aéreas, seguro de veículo, cursos e gasolina.

IPCA-15 E IPCA


Por ser divulgado antes, o IPCA-15 sinaliza uma tendência para o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo). O IPCA mede a inflação oficial do Brasil, servindo de referência para a meta perseguida pelo BC.

Uma das diferenças entre os dois índices é o período de coleta dos dados.

A apuração do IPCA-15 abrange a segunda metade do mês anterior e a primeira do mês de referência.

No caso de fevereiro, a coleta foi realizada de 15 de janeiro a 12 de fevereiro.

Já o levantamento do IPCA ocorre ao longo do mês de referência. Por isso, o índice de fevereiro ainda não está fechado. Será divulgado pelo IBGE em 12 de março.

Na visão do economista Matheus Pizzani, do PicPay, o IPCA-15 não significa necessariamente uma inflexão na trajetória positiva do IPCA.

Ele diz que o resultado de fevereiro é reflexo de um evento sazonal já esperado, a carestia da educação, combinada com pressão maior de preços administrados, que não são “objeto de interesse” da política monetária do BC.

Preços administrados (ou monitorados) são aqueles sob influência de decisões do setor público. Nesse caso, a variação não é determinada somente por oferta e demanda ou custos de produção. Um exemplo é a gasolina.

A Petrobras reduziu o preço do combustível em suas refinarias a partir de 27 de janeiro. A gasolina, porém, subiu no IPCA-15 de fevereiro.

Isso sinaliza que a baixa nas refinarias não foi capaz de reduzir por si só os preços nos postos no período de coleta do índice. O combustível já havia pressionado o IPCA de janeiro.

Ao divulgar o índice oficial do mês passado, o IBGE associou a carestia a reajuste de ICMS (imposto estadual) sobre o produto no início do ano.

META DE INFLAÇÃO E JUROS

O BC persegue a meta contínua de inflação cujo centro é de 3% para o IPCA no acumulado de 12 meses. O intervalo de tolerância é de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo, o que significa teto de 4,5% e piso de 1,5%.

Com a trégua da inflação no segundo semestre de 2025, analistas passaram a esperar corte na taxa básica de juros a partir de março de 2026. A Selic atual de 15% busca conter o ritmo de aumento dos preços.

Os juros altos encarecem o crédito e, assim, dificultam parte do consumo e dos investimentos produtivos.

A demanda menor por bens e serviços tende a reduzir a pressão sobre os preços ao longo dos meses.
O efeito colateral esperado é a desaceleração da atividade econômica, que já deu sinais no PIB (Produto Interno Bruto).

A mediana das projeções do mercado para o IPCA nos 12 meses de 2026 recuou a 3,91%, conforme o boletim Focus, divulgado pelo BC na segunda (23). A estimativa está abaixo do teto da meta de inflação (4,5%).

Após o IPCA-15, a consultoria Logos Economia aumentou sua projeção para o IPCA de fevereiro, de 0,55% para 0,73%.

A projeção anual para 2026 permaneceu em 4%, já que a alta da passagem aérea pode ser devolvida —em parte ou totalmente— em outras leituras.

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