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Economia

Inflação fecha 2025 em 4,26%, abaixo do teto da meta, e é a menor desde 2018

IPCA registra menor resultado anual desde 2018, com alívio nos preços de alimentos e impacto de juros altos e câmbio mais favorável

Redação Jornal de Brasília

09/01/2026 13h04

mercado inflação

Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

LEONARDO VIECELI
FOLHAPRESS

A inflação oficial do Brasil, medida pelo IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), fechou o acumulado de 2025 em 4,26%, apontam dados divulgados nesta sexta (9) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

O resultado registrado no terceiro ano do governo Lula 3 (PT) ficou abaixo do teto de 4,5% da meta perseguida pelo BC (Banco Central). É o menor para um ano fechado desde 2018, na gestão Michel Temer (MDB), quando o IPCA acumulou variação de 3,75%.

A taxa de 2025 veio em linha com a mediana das projeções de analistas do mercado financeiro consultados pela agência Bloomberg. A estimativa também era de alta de 4,26%.

Conforme o IBGE, o IPCA de 2025 é o quinto menor para um ano fechado desde o início do Plano Real -a moeda passou a circular em julho de 1994. Taxas inferiores a 4,26% só foram observadas em 1998 (1,65%), 2017 (2,95%), 2006 (3,14%) e 2018 (3,75%).

No recorte mensal, o IPCA acelerou a 0,33% em dezembro, após marcar 0,18% em novembro.

Apesar de ganhar força ante o mês anterior, a variação é a menor para dezembro desde 2018 (0,15%).

Também ficou em linha com a mediana dos analistas consultados pela Bloomberg (0,33%).

Em 2025, o BC passou a perseguir a meta de inflação de maneira contínua, abandonando o ano-calendário de janeiro a dezembro.

No novo modelo, o objetivo é considerado descumprido quando o IPCA acumulado permanece por seis meses seguidos de divulgação fora do intervalo de tolerância, que vai de 1,5% (piso) a 4,5% (teto). O centro é 3%.

O IPCA estourou o alvo contínuo pela primeira vez em junho, mas voltou a ficar abaixo do teto de 4,5% em novembro. O sistema de metas, adotado em 1999, serve de referência para a condução da política de juros do BC.

ALIMENTOS FREIAM IPCA

De acordo com economistas, os preços dos alimentos explicam grande parte da perda de força da inflação ao longo do ano.

O grupo alimentação e bebidas fechou 2025 com inflação de 2,95%, abaixo da registrada em 2024 (7,69%) e a menor desde 2023 (1,03%).

O resultado reflete principalmente a alimentação no domicílio, que desacelerou a 1,43% no ano passado, após marcar 8,23% nos 12 meses anteriores. A taxa de 2025 é a menor desde a queda observada em 2023 (-0,52%).

No recorte mensal, a alimentação no domicílio teve redução em seis divulgações consecutivas (junho a novembro). Os preços voltaram a subir em dezembro (0,14%), mas em um ritmo inferior ao observado em igual mês de anos anteriores.

“Os alimentos foram os que mais contribuíram para a taxa mais contida [do IPCA], de 4,26%”, disse Fernando Gonçalves, gerente da pesquisa do IBGE.

Segundo ele, a trégua dos preços está associada à ampliação da oferta de produtos. O ano de 2025 foi marcado pelo recorde na safra de grãos do país.

O IBGE destacou as quedas acumuladas pelos preços de alimentos como arroz (-26,56%), leite longa vida (-12,87%) e batata-inglesa (-13,65%). O café moído, por outro lado, ficou mais caro, com alta de 35,65%.

EFEITO DO DÓLAR E DO JURO

Conforme analistas, outra questão que impactou o IPCA foi a queda do dólar em 2025. O recuo da taxa de câmbio aliviou parte dos bens industriais e dos alimentos.

“O troféu foi para a alimentação”, diz o economista André Braz, do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas). “O câmbio ajudou muito, assim como a safra muito robusta”, acrescenta.

Braz também cita o choque de juros do BC. A instituição iniciou um ciclo de aumento na taxa básica, a Selic, em setembro de 2024. A Selic está em 15% ao ano desde junho de 2025.

A taxa de juros de dois dígitos encarece o crédito, dificultando o consumo e os investimentos produtivos. Isso representa uma trava para o crescimento econômico, mas reduz a pressão de demanda sobre os preços, o que ajuda a conter a inflação em um prazo mais longo.

O IPCA fechou 2025 em um patamar inferior ao previsto inicialmente pelo mercado. No começo do ano passado, a expectativa era de alta de 4,99% nos 12 meses, conforme a mediana do boletim Focus, divulgado pelo BC.

CONTA DE LUZ PRESSIONA NO ANO

Em termos individuais, a energia elétrica exerceu a maior pressão do lado das altas no IPCA em 2025.
A conta de luz acumulou aumento de 12,31% no ano. Gerou um impacto de 0,48 ponto percentual no índice geral.

Cursos regulares (0,29 p.p.), plano de saúde (0,26 p.p.) e aluguel residencial (0,22 p.p.) vieram na sequência.

CENÁRIO DE 2026

André Braz, do FGV Ibre, afirma que o IPCA pode registrar um patamar mais baixo em 2026, em torno de 3,9% ou 4%.

Na mediana, as projeções do mercado sinalizam índice de 4,06% neste ano, conforme o boletim Focus.
Braz espera uma inflação maior para os alimentos consumidos no domicílio, mas sem uma “explosão” nos preços. Ele prevê alta próxima de 4% a 4,5% para esses produtos.

Por outro lado, segundo o economista, os preços dos serviços tendem a avançar menos em 2026, ainda sob efeito dos juros.

Em 2025, a inflação acumulada pelos serviços foi de 6,01%, a maior desde 2023 (6,22%), apontou o IBGE.
“Mesmo que o Banco Central comece a cortar os juros, as condições macroeconômicas não vão mudar da noite para o dia. Leva de seis a nove meses para uma mudança surtir efeito”, afirma Braz.

“Com base nisso, acredito que os preços monitorados e os preços livres de serviços vão subir menos neste ano, compensando uma alimentação no domicílio mais alta.”

O economista, porém, diz que a análise não pode ser feita de modo “ingênuo”. Ele ressalta que a invasão da Venezuela pelo governo dos Estados Unidos traz incertezas e pode impactar os preços do petróleo, além de aumentar a tensão no cenário internacional.

Analistas também avaliam que as eleições presidenciais no Brasil tendem a gerar volatilidade no mercado financeiro, o que pode afetar o câmbio. Uma dúvida que persiste é sobre o momento no qual o BC começará a cortar a taxa Selic.

O Copom (Comitê de Política Monetária), ligado à instituição, volta a se reunir em 27 e 28 de janeiro, mas parte dos analistas só espera redução dos juros a partir do encontro seguinte, agendado para 17 e 18 de março.

POR QUE SUA INFLAÇÃO PODE SER DIFERENTE DO IPCA?

O IPCA capta a inflação para famílias com rendimentos diferentes, de 1 a 40 salários mínimos.
A cesta do índice é composta por 377 produtos e serviços, os chamados subitens. Eles são divididos em nove grandes grupos.

O IBGE define a composição do IPCA a partir da POF (Pesquisa de Orçamentos Familiares). A POF mostra o que as famílias consomem e o peso de cada gasto no orçamento.

O aumento dos preços, contudo, não é sentido de maneira uniforme pela população. Cada família pode ter uma sensação de inflação que pode ser maior ou menor do que o IPCA.

A diferença está associada ao fato de o índice apontar a variação média dos preços de uma ampla cesta de produtos e serviços, que podem estar presentes em maior ou menor escala na rotina de cada brasileiro.

“Por exemplo, uma família que não consome carne vermelha e não tem filhos em idade escolar terá, com certeza, um índice de inflação pessoal diferente do oficial, cujo cálculo coloca peso considerável na variação do preço da carne e da mensalidade escolar”, diz o IBGE em seu site.

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