São Paulo, 22 – A potencial descompressão da inflação global, resultado da queda nos preços do petróleo, melhorou o humor dos investidores ao longo do período da tarde desta terça-feira, levando o Ibovespa a encerrar em alta de 0,44%, aos 187.422,92 pontos — perto da máxima da sessão, de 187.671,74 pontos. O giro financeiro no dia foi de R$ 22 bilhões e, com o desempenho de agora, o Ibovespa já acumula alta de 5,64% em setembro. No ano, o avanço é de 16,3%.
O petróleo caiu pela quinta sessão consecutiva e abaixo do nível dos US$ 100 (-1,09%, a US$ 99,25 o barril do Brent). Com isso, os investidores voltam a ajustar suas posições a favor de ativos de maior risco, já que um barril mais barato afasta os temores de endurecimento da inflação e, consequentemente, um aumento sustentado de juros nas economias desenvolvidas, em especial os EUA.
O movimento de queda do petróleo e, consequentemente, de alta do Ibovespa aconteceu no momento em que o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que o fluxo de petróleo no Golfo Pérsico está maior e que a delegação americana enviada à Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) se reuniu com representantes do Irã. O republicano classificou a conversa como “muito produtiva”. Na última hora do pregão, Trump afirmou que o Irã “vai fazer algo de bom”.
“A possibilidade de Trump fazer algum tipo de acordo no curto prazo e voltar a ter conversas que aliviem o preço do petróleo anima o mercado. O petróleo abaixo de US$ 80 é benéfico para reduzir o prêmio das Treasuries, com o título de 10 anos permanecendo abaixo de 5%. Entre US$ 80 e US$ 90, o cenário é mais neutro. Já um petróleo mais acima de US$ 100 é inflacionário, impulsiona as taxas de juros americanas e aumenta a probabilidade de uma política monetária mais dura”, afirma Daniel Miraglia, economista-chefe da Integral Group.
Internamente, os investidores seguem aguardando as novidades na frente eleitoral, à espera de novas pesquisas que confirmem, ou não, o avanço de Flávio Bolsonaro (PL) nas intenções de voto. Até aqui, o senador está tecnicamente empatado com o presidente Lula (PT) nos levantamentos, e a expectativa de alternância de poder e de uma agenda mais fiscalista vêm motivando os investidores a assumir mais risco na renda variável.
“O mercado ainda está aguardando um desfecho sobre a guerra entre EUA e Irã. Se tivermos conversas que possibilitem uma normalização na situação do Oriente Médio ou mais pesquisas eleitorais que façam o mercado acreditar em uma maior chance de ajuste fiscal, o jogo pode virar a favor da bolsa. Até lá, devemos ver movimentos mais contidos”, afirma Matheus Spiess, economista e estrategista da Empiricus.
Dólar
Após subir pela manhã e tocar pontualmente o nível de R$ 5,13, o dólar perdeu força ao longo da tarde, em sintonia com a virada do Ibovespa para o campo positivo, e encerrou a sessão desta terça-feira, 22, em queda de 0,11%, a R$ 5,1029, após mínima de R$ 5,0979. Em setembro, recua 1,49%.
Sem novidades sobre a corrida presidencial, com pesquisas recentes, como a sondagem da Quaest divulgada na segunda-feira à noite, reforçando o quadro de empate técnico entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o comportamento da taxa de câmbio esteve muito atrelado ao ambiente externo, segundo operadores.
As cotações do petróleo, que vinham em leve alta, passaram a recuar após o presidente norte-americano, Donald Trump, revelar que uma delegação dos EUA se reuniu com representantes do Irã à margem da Assembleia Geral da ONU, em Nova York. A conversa entre as partes durou cerca de três horas e, segundo Trump, foi muito “produtiva”.
“Essas declarações de Trump abriram trouxeram algum ânimo a ativos de risco, o que favoreceu a bolsa e o real. Ele claramente está tentando conter o avanço nos preços de energia antes das eleições parlamentares americanas em novembro”, afirma o head da Tesouraria do BS2, Ricardo Chiumento.
Com a troca de sinal à tarde, as cotações internacionais do petróleo emendaram o quinto pregão consecutivo de baixa. O contrato do Brent para novembro fechou em queda de 1,09%, a US$ 99,25 o barril, abaixo da marca de US$ 100 pela primeira vez desde 9 de setembro. A commodity ainda avança cerca de 8% no mês e exibe ganhos de mais de 60% no ano.
“Tivemos o Irã mais cedo falando em retomar o fluxo em Ormuz e depois Trump revelando que estavam ocorrendo conversas entre os dois lados, algo que não temos praticamente desde junho”, afirma o estrategista-chefe da Sincra, Gustavo Cruz, que, no cenário local, destaca a percepção de estagnação de Flávio nas pesquisas eleitorais.
Referência do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY subia 0,10% por volta das 17h, aos 100,526 pontos, após máxima aos 100,703 pontos. A perspectiva é de mais aperto monetário nos EUA, apesar do alívio nos preços do petróleo nos últimos dias. O Dollar Index já avança mais de 1% em setembro, quando voltou a superar a marca dos 100,000 pontos.
“O Federal Reserve acabou de aumentar os juros e as declarações de dirigentes nesta semana são de que vai ocorrer pelo menos mais uma alta, o que dá apoio ao dólar global”, afirma Chiumento, do BS2.
Dois presidentes de distritais do Fed – Thomas Barkin (Richmond) e Susan Collins (Boston) – reiteraram hoje que a preocupação do BC americano é com a inflação, uma vez que o mercado de trabalho e a atividade continuam a mostrar sinais de solidez. Uma taxa de juros “um pouco mais restritiva” vai ajudar a levar a inflação à meta de 2%, afirmou Collins.
Por aqui, a divulgação da ata do encontro do Comitê de Política Monetária (Copom) na semana passada, quando a taxa básica foi reduzida de 14% para 13,75% ao ano, veio em tom similar ao do comunicado, deixando a porta aberta para novos cortes da Selic, segundo a maioria dos economistas ouvidos pelo Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado.
Juros
Os juros futuros deixaram o movimento de alta observado até o início da tarde para trás e encerraram o pregão desta terça-feira, 22, em queda, dinâmica que tem sido observada nas últimas sessões. O gatilho partiu de declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que sinalizaram retomada do diálogo com o Irã. As falas diminuíram a percepção de risco geopolítico e temores inflacionários em razão do petróleo pressionado, que também fechou em terreno negativo.
Com ajuda do cenário externo, investidores retomaram o viés aplicador que tem marcado o mês de setembro, tendo como pano de fundo o ‘trade eleitoral’ e dados mais fracos de atividade e inflação. Nesse sentido, a ata do Comitê de Política Monetária (Copom), considerada neutra, mas sem fechar as portas para novos cortes nos juros, reforçou perspectivas de que a redução de 0,25 ponto da Selic em setembro não foi a última.
Terminados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 cedeu de 13,547%, no ajuste da véspera, a mínima intradia de 13,525%. O DI para janeiro de 2029 recuou a 13,68%, de 13,712% no ajuste. O DI para janeiro de 2031 diminuiu de 13,912% a 13,87%.
CIO para as Américas do banco suíço EFG, Luis Ferreira observou à Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado0 que a curva dos Treasuries não tem reagido tão rapidamente aos eventos devido ao aumento da concorrência dos títulos corporativos – que agora têm maior peso no mercado – com os papéis soberanos dos EUA. Às 18h02, os Treasuries operavam sem direção única, com queda apenas no vencimento de dois anos.
“É uma questão de tempo até chegar à curva”, disse Ferreira, para quem os sinais de que o conflito no Irã não deve escalar, assim como expectativas sobre o encontro de Trump e o presidente da China, Xi Jinping, a ocorrer nesta quinta-feira, deram o tom mais positivo aos ativos globais. “Trump está muito perto de perder o Senado nas eleições de meio de mandato. Se o conflito continuar do jeito que está, sem nada para aliviar a questão geopolítica, o Fed pode subir os juros o quanto quiser que o petróleo continua subindo”, comentou.
Em relatório, o estrategista global da Macquarie, Thierry Wizman, aponta que esta semana pode ser crucial para a direção dos preços do petróleo bruto no médio prazo, dado que os principais atores da guerra EUA-Irã terão reuniões em Nova York. Os acordos e entendimentos que saírem desses encontros podem determinar se o confronto se intensificará ou se haverá um caminho de saída, disse.
Antes das novas falas de Trump, que foram mais conciliadoras do que seu primeiro discurso do dia, o mercado de juros operava em viés de alta em quase todos os vértices. Para o superintendente de renda fixa e crédito da Porto Asset, Ricardo Espindola, parece ter havido um movimento de realização no início da sessão, que ofuscou o efeito benigno que a ata do Copom poderia ter sobre a curva de juros.
Já na parte da tarde, o alívio vindo de fora permitiu a retomada do viés mais aplicador do mercado, avalia, o que seria compatível com o que o Copom trouxe na ata, assim como o cenário de eleições presidenciais mais acirradas. “O natural é vermos os juros mais curtos cedendo para colocar um pouco mais no preço esse cenário de que há espaço para cortes adicionais na Selic”, apontou Espíndola.
No cenário-base da Porto Asset, o Copom vai entregar mais duas reduções de 25 pontos-base da Selic este ano, levando a taxa terminal a 13,25%. Após a publicação da ata, a maior parte do mercado passou a trabalhar com essa hipótese: 19 entre 33 instituições consultadas pelo Projeções Broadcast preveem mais dois cortes de 0,25 ponto em 2026.
Estadão Conteúdo