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Economia

Ibovespa sobe 2,4% amparado por fluxo externo, na contramão de NY

Desse modo, o índice voltou a fechar no azul após cinco sessões em queda, descolado da fraqueza das bolsas americanas

Redação Jornal de Brasília

22/07/2026 18h38

Foto: Divulgação

São Paulo, 22 – O Ibovespa fechou em alta firme, acima dos 177 mil pontos, impulsionado pelos ganhos das blue chips, Vale, Petrobras e setor financeiro, por sua vez alimentado pelo retorno do fluxo estrangeiro. Desse modo, o índice voltou a fechar no azul após cinco sessões em queda, descolado da fraqueza das bolsas americanas e da abertura da curva de juros, com valorização em 2026 já nos 10%.

O índice da B3 saltou mais de 4 mil pontos nesta quarta-feira, 22, percorrendo a sessão sempre no campo positivo, com mínima estável, aos 177.461 pontos. Na primeira etapa o desempenho de Petrobras, em função do avanço do petróleo, e da Vale ON já chamavam a atenção. No caso da mineradora, o salto refletiu o relatório de produção divulgado ontem após o fechamento, e a eleição do Manuel Lino Silva de Sousa Oliveira, conhecido como Ollie, para presidente do colegiado na assembleia geral extraordinária (AGE). Vale ON fechou em alta de 3,96%.

Para Marco Saravalle, estrategista-chefe da Krivo Capital, a sequência de quedas acumuladas pela Bolsa deixou espaço para o investidor entrar, aproveitando o cenário um pouco mais calmo, ainda que não necessariamente tão favorável. “Temos de certa forma o investidor local e estrangeiro procurando pechinchas, depois de quedas tão relevantes”, afirma, destacando que as novidades são do lado corporativo.

Além de Vale, outro destaque do dia foi Weg ON (+10,05%), que liderou com folga a lista das maiores altas do Ibovespa, uma vez considerados “sólidos” os números do balanço divulgado antes da abertura. Além de Weg ON, figuraram entre as maiores altas ainda CSN ON (+6,32%), Braskem PNA (+6,30%) e MBRF ON (+6,09%).

“O caso da Weg já antecipou um pouco o que vai ser a temporada de resultados. Vai ser uma temporada espetacular? Não. Mas vai mostrar que as empresas estão saudáveis e o mercado vai ter que voltar a corrigir um pouco desses descontos”, avalia Saravalle.

Petrobras PN subiu 2,21% e a ON, +2,39%, refletindo os ganhos em torno de 3% das cotações do petróleo que levaram o Brent a US$ 94. O avanço ainda reflete o risco de interrupção no fluxo de navios nos Estreitos de Ormuz e Bab-el-Mandeb, elevado pelas ameaças de parte a parte entre EUA e Irã.

O sócio da Valor Investimentos Daniel Teles diz que o mercado se comportou bem apesar da entrada em vigor da tarifa de 25% aplicada a alguns produtos brasileiros pelos EUA, que, ao que parece, estava precificada. “Vale reportando produção acima do trimestre anterior, o melhor resultado pro mesmo período desde 2018, ajudou. Preço do petróleo subindo faz com que Petrobras também avance. Petro e Vale subindo na magnitude de 3% acaba puxando o índice”, afirma. “A conjuntura disso tudo está atraindo bastante capital externo”, acrescentou, destacando ainda o bom desempenho de Weg.

Além das ações ligadas a commodities, o fluxo estrangeiro também chegou ao setor financeiro, que teve avanço expressivo. Itaú Unibanco PN subiu 0,87%, mas Bradesco PN foi além (+2,26%).

O Ibovespa terminou com 177.547,57 pontos (+2,44%), maior nível desde o último dia 10, quando havia encerrado com 177.866,37 pontos. Na máxima desta quarta, chegou a 177.641,24 pontos (+2,49%). O volume somou R$ 22,57 bilhões. Em julho, o índice avança 3,21% e em 2026, 10,19%.

Bolsa

O dólar à vista caiu 0,43%, a R$ 5,0517 nesta quarta-feira, 22, no piso de fechamento desde 2 de junho. Assim como na véspera, a moeda brasileira foi favorecida pela alta do petróleo e pelo apetite por carry trade – com sinais de fluxo estrangeiro para o Brasil inclusive via Ibovespa, que subiu 2% com o apoio de blue chips.

O contrato futuro para agosto cedia 0,50%, a R$ 5,0625 por volta das 17 horas, enquanto o DXY, que mede o dólar contra seis pares fortes, rondava estabilidade, a -0,05%.

O estrategista da Empiricus Research, Matheus Spiess, avalia que as performances do câmbio e da Bolsa denotam que o Brasil se destoa da realidade internacional, dessa vez para o positivo. “O dólar cai contra o real, em parte por conta do bom desempenho do petróleo, que melhora a perspectiva de balança comercial”, afirma, considerando que o País é exportador líquido da commodity.

O fluxo do petróleo no Oriente Médio segue gerando preocupações e impulsionando as cotações, tanto que o Brent para setembro subiu 3,63%, a US$ 94,07 o barril. Além da continuidade dos conflitos entre Estados Unidos e Irã, o grupo iemenita Houthi tem ameaçado bloquear parte do Estreito de Bab-el-Mandeb.

Para o economista Guilherme Sousa, da Ativa Investimentos, embora o mercado já soubesse que o fim da guerra não seria algo linear, recentemente tem ficado mais difícil ver um fim definitivo do conflito. “Não só existe um problema no fluxo do Estreito de Ormuz, como agora vem se estendendo para outro canal no Mar Vermelho”, afirma.

Spiess, da Empiricus, nota ainda que a cotação mais alta da commodity energética bate na expectativa de inflação e de juros, aumentando a demanda por carry trade. “O Brasil conta com um juro real gordo na comparação com o que existe no exterior”, em média, acrescenta.

Na mesma linha, o economista-chefe para a América Latina do Citi, Ernesto Revilla, afirma que segue apostando na valorização do real em relação ao euro e ao dólar australiano. “O cenário macroeconômico atual ainda indica que os mercados emergentes como o Brasil têm potencial para oferecer altos rendimentos reais”, justifica, em relatório.

Nesta tarde, investidores acompanharam falas do governo federal envolvendo os planos Brasil Soberano 2 e 3, programas de apoio a setores afetados pelo tarifaço dos Estados Unidos, mas sem grande efeito em termos de preço.

Para Sousa, da Ativa, o tarifaço já está bem precificado. “A tarifa de 25% entrou em vigor hoje [quarta-feira], e há possibilidade de mais 12,5% na sexta-feira, a partir da justificativa de trabalho forçado. O governo já anunciou medidas em algumas frentes setoriais para compensar as tarifas, e em relação à balança comercial, o Brasil tem conseguido escoar bem seus produtos a outros países”, avalia.

O fluxo cambial total em 2026 até julho ficou positivo em US$ 17,946 bilhões, segundo o Banco Central. A melhora no saldo ocorre principalmente de um fluxo financeiro bem menos negativo do que o observado no mesmo período de 2025, embora o fluxo comercial também tenha melhorado, considera o sócio-fundador da Eytse Estratégia, Sérgio Goldenstein.

Juros

Seguindo a disparada dos retornos dos Treasuries diante da reescalada do conflito no Oriente Médio, os juros futuros médios e longos aceleraram a alta e ganharam tração rumo ao final do pregão desta quarta-feira, 22, marcado por ganho de inclinação da curva a termo.

O impasse entre Estados Unidos e Irã, que mantém o fluxo no Estreito de Ormuz comprometido, reacendeu temores inflacionários às vésperas de decisões monetárias do Banco Central Europeu (BCE) e do Federal Reserve (Fed), o que pressionou as curvas de juros globais e também o mercado local de renda fixa. Assim como na terça, porém, a liquidez nos negócios foi reduzida, o que amplificou as oscilações das taxas por aqui.

Terminados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 subiu de 13,927%, no ajuste anterior, a 13,95%. O DI para janeiro de 2029 anotou alta a 14,49%, vindo de 14,408% no ajuste. O DI para janeiro de 2031 avançou a 14,645%, ante 14,593%.

Em igual horário, nos EUA, a taxa da T-note de dois anos avançava de 4,278% para 4,292%; e a da T-note de dez anos subia de 4,629% para máxima intradia de 4,668%. O maior vetor de alta partiu do petróleo, que, no caso do tipo Brent, referência para a Petrobras, fechou perto de US$ 95 o barril, com elevação de 3,4%. Foi a quarta sessão de aumento seguida.

Diretor de investimentos em renda fixa da Inter Asset, Ian Lima aponta que, além da commodity energética, os mercados de juros futuros reagem mais ainda ao preço de gasolina, que, ao longo do dia, atingiu níveis não observados desde meados de maio, considerando o contrato de curto prazo, para agosto.

No Brasil, a inflação responde de forma mais lenta ao aumento do combustível, que é um preço administrado, mas em mercados como os EUA, o efeito é bastante rápido, nota o diretor. “Essa questão é algo mais circunscrito ao mercado de juros, mas a escalada dos preços de energia está ocorrendo quando se avizinha a janela de decisões de bancos centrais”, disse. “E é difícil ser ‘dove’ em um ambiente de energia em elevação”, destacou.

Nesta quinta-feira, 23, será a vez de o Banco Central Europeu (BCE) decidir juros. Nesta quarta-feira, três dirigentes da instituição deram tom ‘hawkish’ a seus discursos, mencionando as incertezas trazidas pelo aumento das hostilidades entre Washington e Teerã, que demanda uma postura cautelosa e vigilante diante do comportamento dos preços de energia.

Para a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de agosto, o mercado segue com ampla maioria de apostas concentradas em redução de 0,25 ponto porcentual da Selic, previsão também da Inter Asset. “Não há uma assimetria de alta na projeção, mas é difícil ver uma postura ‘dove’ do BC”, disse Lima.

Algumas instituições estrangeiras, porém, têm chamado mais atenção para o impacto do choque global de oferta no PIB mundial do que na inflação. É o caso da Macquarie, que aponta que a disparada do óleo tem provocado mais preocupações com uma desaceleração do crescimento global do que com um repique da inflação e das expectativas.

“As preocupações com o crescimento global são pertinentes, em nossa avaliação”, afirmam os estrategistas Thierry Wizman e Gareth Berry, em relatório. “O cenário está armado para surpresas negativas, caso restrições de oferta voltem a pesar sobre o crescimento global”, defendem.

Estadão Conteúdo

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