São Paulo, 23 – O Ibovespa fechou a sessão desta quinta-feira (23) em queda, inserido no contexto de aversão ao risco que dominou os ativos globais, traduzido no retorno do petróleo Brent para cima dos US$ 100. As perdas de bancos e ações cíclicas em meio à escalada dos juros futuros prevaleceram aos ganhos das ações da Petrobras e da Vale.
As ameaças do presidente dos EUA, Donald Trump, de punição aos houthis do Iêmen, por atirarem em navios sauditas, e de ataque massivo dos EUA ao Irã, reforçaram as preocupações sobre a interrupção do fluxo de navios de petróleo nos Estreitos do Golfo Pérsico, catapultando o Brent de volta aos US$ 100, na quinta sessão de alta consecutiva.
O economista-chefe de Mercados da Capital Economics, Jonas Goltermann, aponta que a contínua alta nos preços de energia está começando a pressionar os mercados financeiros de forma mais ampla, para além do segmento de títulos. “Enquanto os bancos centrais continuam adotando uma abordagem cautelosa em relação ao novo aumento nos preços de energia, ainda há muito espaço para que a turbulência nos mercados aumente se o conflito entre os EUA e o Irã continuar a escalar”, afirma.
Num dia como hoje, ter uma carteira com grande participação de empresas de commodities deu certa blindagem ao Ibovespa, que caiu bem menos do que os pares no exterior. “Os mercados globais de ações, que até agora haviam lidado com a retomada das hostilidades no Oriente Médio de forma relativamente tranquila, também caíram significativamente hoje”, destaca Goltermann, para quem também pesou contra as bolsas a “resposta desfavorável” ao balanço da Alphabet divulgado na quarta (22). O Dow Jones fechou em baixa de 0,97%, o Nasdaq caiu 2,15% e o S&P 500, -1,21%.
Junto com os preços do petróleo, cresceram os receios com o cenário inflacionário global e, consequentemente, também as apostas de aperto monetário. Segundo a ferramenta do CME Group, a probabilidade de alta de juros pelo Federal Reserve já supera 80%.
O pessimismo com a política monetária também foi visto na curva de juros local, cujas taxas até o trecho intermediário subiram em torno de 20 pontos-base. “A perspectiva de queda mais lenta da Selic afeta em cheio ações cíclicas, como varejo e incorporadoras imobiliárias”, relata Marcel Lima, especialista da Valor Investimentos.
Não à toa, Hapvida (-8,08%), Totvs (-6,37%), Assaí (-4,52%) e MRV (-4,27%) lideraram as quedas do Ibovespa. A alta dos DIs também puxou uma realização de lucros no setor financeiro, que ontem havia exibido avanço firme. Itaú Unibanco PN caiu 0,79% e Bradesco PN, -1,32%.
Já a lista das mais valorizadas era composta em boa medida por exportadoras, favorecidas pela alta do dólar, e relacionadas à cadeia do petróleo, como Vibra (+1,77%), Petrobras ON (+1,67%), Braskem PNA (+1,65%), Prio ON (+1,29%) e Brava ON (+1,03%).
Vale ON, que subiu 0,77%, também ajudou a conter as perdas do índice. O papel continuou reagindo aos dados operacionais divulgados na terça-feira, 21, tendo ainda suporte do avanço do minério de ferro.
Para Lima, da Valor Investimentos, o que se viu hoje pode ter um caráter mais conjuntural do que estrutural, com a volatilidade sendo reduzida à medida em que o mercado encontrar soluções para a questão da oferta de petróleo. “É necessário avaliar se haverá danos mais sérios às infraestruturas, mas o mercado é dinâmico. A Arábia pode abrir rotas alternativas, por exemplo”, disse.
O Ibovespa fechou em queda de 0,46%, aos 176.723,62 pontos. Na máxima, atingiu 177.896 pontos (+0,20%) e na mínima caiu 0,71%, aos 176.293 pontos. O giro financeiro somou R$ 21,15 bilhões. O índice acumula valorização de 2,73% em julho. Em 2026, apura avanço de 9,68%.
Dólar
A escalada da guerra no Oriente Médio guia o petróleo Brent para o nível de US$ 100 por barril e realimenta preocupações inflacionárias, minando qualquer chance de apetite por risco. Como resultado, após três dias em queda, o dólar ganhou terreno contra o real e fechou em alta de 0,64%, a R$ 5,0839 no segmento à vista, e avança 0,47%, a R$ 5,094 no contrato futuro para agosto por volta das 17h desta quinta-feira.
A avaliação de que o petróleo beneficia os termos de troca do Brasil – exportador líquido da commodity – fica em segundo plano, visto que a possibilidade de taxas de juros mais elevadas, inclusive no Federal Reserve, diminui a atratividade de moedas emergentes.
O dólar é puxado pelo DXY – índice que mede o dólar contra seis pares fortes – mais forte (+0,30% por volta das 17h), em linha com a abertura dos rendimentos dos Treasuries por conta da alta do petróleo, segundo o analista Rafael Passos, da Ajax Asset. “Com o Brent ao nível de US$ 100, volta a narrativa receosa de que o preço de energia esbarre na inflação e nos juros futuros, elevando a moeda americana e depreciando moedas emergentes.”
A economista Paloma Lopes, da Valor Investimentos, enfatiza que a oscilação do dólar é reflexo da guerra do Irã, com “a oscilação do preço do barril de petróleo automaticamente esbarrando na cotação” da moeda americana, enquanto o mercado avalia que “o presidente Donald Trump não tem intenção alguma de terminar com a guerra”.
O petróleo Brent fechou em alta de 7,04%, a US$ 100,69, em meio à restrição do fluxo da commodity pelo Estreito de Ormuz e com a escalada de tensões entre os houthis do Iêmen e a Arábia Saudita no Mar Vermelho, o que também aumenta a incerteza sobre o tráfego no Estreito de Bab-el-Mandeb.
O economista Vitor Kayo, da Nomad, nota que o mercado tem dado mais peso ao temor inflacionário da guerra do que ao efeito positivo do petróleo sobre os termos de troca do Brasil.
Com a possibilidade de juros elevados por mais tempo no exterior, os investidores correm para mercados considerados mais seguros, como os EUA, acrescenta Passos, da Ajax Asset. “Taxas das Treasuries mais altas indicam taxas de Fed Funds mais elevadas, o que diminui a atratividade de moedas emergentes”, nota.
Ferramenta do CME Group já mostra que a expectativa de aperto monetário pelo Fed até setembro segue crescendo, tendo superado a probabilidade de 80%. Para a reunião da próxima semana, a principal aposta é de manutenção (62,1% de chance estimada).
A ex-secretária do Tesouro dos Estados Unidos Janet Yellen afirmou na tarde desta quinta-feira que o Fed parece estar pronto para elevar os juros. De manhã, a presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, já havia alertado que a alta dos preços de energia provavelmente manterá a inflação bem acima da meta até o primeiro semestre de 2027.
Há também expectativa de que o representante comercial dos EUA (USTR), Jamieson Greer, realize um anúncio sobre tarifas globais “ainda hoje”, conforme sinalizado pela Casa Branca nesta tarde. O Broadcast já havia mostrado na terça-feira (21) que o governo Lula se prepara para receber uma nova tarifa de 12,5% sobre produtos importados brasileiros, visto pelos EUA como relacionados ao trabalho análogo à escravidão.
Juros
Os juros futuros avançaram em bloco no pregão desta quinta-feira, encontrando espaço para renovar máximas intradia no início da tarde em meio ao movimento global de aversão ao risco, ainda desencadeado pelo conflito no Oriente Médio. Como reflexo do efeito do petróleo acima do patamar psicológico de US$ 100, as taxas intermediárias, que respondem à trajetória da política monetária, foram as que mais subiram nesta quinta, e o mercado agora não tem mais apostas de que o ciclo de baixa da Selic se estenderá além de agosto.
No fechamento, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 aumentou de 13,954%, no ajuste anterior, a 14,045%. A taxa do DI para janeiro de 2029 avançou a 14,705%, vindo de 14,5% no ajuste. O DI para janeiro de 2031 anotou alta a 14,85%, de 14,677%.
Para a reunião do próximo mês do Comitê de Política Monetária (Copom), há cerca de 68% de chance de redução de 0,25 ponto porcentual dos juros precificada na curva de DIs futuros, observa Flávio Serrano, economista-chefe do banco Bmg, ante 32% de manutenção. Para o encontro do mês seguinte do colegiado do Banco Central, porém, a curva “limpou” os cortes, diz Serrano. Ou seja, o ajuste para baixo na Selic na próxima reunião deve ser o último deste ano. Na quarta, 22, ainda havia 5 pontos-base de corte para setembro apontados na curva a termo.
Este também é o cenário do economista, que prevê o juro básico em 14% no final de 2026. Segundo ele, a visão mais conservadora dos agentes se segue à escalada do petróleo, cujos contratos futuros encerraram em alta de cerca de 7% nesta quinta, pressionados pelo fluxo de navegação ainda comprometido no Estreito de Ormuz. Aos ataques entre Estados Unidos e Irã, que já ocorrem há 12 dias seguidos, se soma o aumento das tensões entre houthis do Iêmen e a Arábia Saudita no Mar Vermelho, o que ameaça o tráfego também no Estreito de Bab-el-Mandeb.
“O ambiente global de juros está mais negativo, o que é ruim para a renda fixa de forma geral”, afirma Gustavo Okuyama, head de renda fixa da Porto Asset. Ele observa que os retornos dos Treasuries, títulos soberanos dos EUA que servem de referência para os mercados de juros, avançaram em todas as sessões nesta semana, ao mesmo tempo em que há perspectiva de juros básicos mais elevados ao redor do mundo. Nos EUA, por exemplo, a ferramenta FedWatch, do CME Group, já mostrava hoje mais de 80% de possibilidade de aperto monetário pelo Federal Reserve até setembro.
Em sua decisão monetária desta quinta-feira, o Banco Central Europeu (BCE), na avaliação do mercado, também sinalizou que uma alta dos juros está próxima. O BCE, conforme esperado, manteve a taxa básica em 2,25%, mas o discurso da presidente Christine Lagarde foi visto como mais “hawkish”.
Na coletiva de imprensa que se seguiu à decisão, Lagarde revelou que dirigentes defenderam uma alta já na reunião desta quinta-feira, embora a decisão de manter os juros tenha sido unânime. Economista sênior para Europa do Barclays, Mariano Cena aponta que o discurso reforçou a expectativa de que, “a depender da evolução da situação no Oriente Médio, do cenário para os mercados de energia e de suas implicações para a inflação mais ampla na área do euro, o BCE deverá promover uma alta de 25 pontos-base em setembro.”
Estadão Conteúdo