São Paulo, 25 – O Ibovespa fez uma pausa, em leve baixa neste meio de semana, após ter renovado nesta terça, 24, pela 13ª sessão no ano, o recorde de fechamento, pela primeira vez aos 191 mil pontos. Nesta quarta, 25, em nova máxima histórica intradia, tocou outra marca inédita, de 192 mil pontos, atingindo os 192.623,56 pontos no melhor momento. Na mínima, resvalou para os 190.419,00 pontos, mas conseguiu defender a linha dos 191 mil no fechamento, com pequena perda de 0,13%, aos 191.247,46. Sólido, embora um pouco mais acomodado do que o padrão desde janeiro, o giro ficou em R$ 28,1 bilhões.
Na semana, o Ibovespa sobe 0,37%, colocando o ganho do mês a 5,45% – no ano, o índice da B3 sobe 18,69%. O desempenho desta quarta-feira foi condicionado pela disparidade entre o setor de commodities, em especial metálicas com Vale (ON +2,55%) à frente, e o financeiro, à exceção de Banco do Brasil (ON +1,70%) e BTG (+1,06%), que passou por nova realização de lucros, com destaque para Santander (Unit -3,94%) que já cede 6,32% na semana e 5,34% no mês. Na ponta ganhadora do Ibovespa na sessão, Usiminas (+3,98%) e Bradespar (+3,27%), logo à frente de Vale. No lado oposto, Magazine Luiza (-6,32%), Isa Energia (PN -4,44%) e Cosan (-4,41%).
“Ontem, o setor financeiro tinha contribuído para uma performance melhor, positiva, do Ibovespa”, observa Pedro Moreira, sócio da ONE Investimentos, destacando a volatilidade que tem prevalecido, nas últimas sessões, no segmento de maior peso no índice da B3. Em Nova York, na semana, S&P 500 e Nasdaq têm refletido alguma recuperação de apetite dos investidores, diz Moreira, com base em melhor compreensão do momento do setor tecnológico, que vinha sendo descontado pela percepção de risco quanto aos investimentos vultosos no desenvolvimento da IA. Em Nova York hoje, Dow Jones +0,63%, S&P 500 +0,81%, Nasdaq +1,26%
João Paulo Fonseca, head de renda variável da HCI Advisors, ressalta a volatilidade no começo do pregão desta quarta-feira, em que o índice da B3 oscilou quase 2 mil pontos entre a mínima e a máxima, então. Na abertura, algum suporte foi proporcionado pelas empresas de mineração e siderurgia, que acompanharam desde cedo o movimento positivo dos preços do minério na Ásia, em alta de 1,42% para os contratos futuros na bolsa de Dalian, na China
“Vale vem em um momento bastante positivo, em alta pelo terceiro pregão ma semana e o quinto consecutivo”, diz Moreira, da ONE, sobre o desempenho do principal papel do Ibovespa, que foi decisivo para mitigar o ajuste do índice nesta quarta-feira, em dia sem força para Petrobras (ON +0,28%, PN sem variação).
“Do lado negativo, o setor de varejo foi o principal destaque, com nomes como Grupo Pão de Açúcar (-2,24%), Assai (-4,39%) e Magazine Luiza liderando as perdas”, diz Fonseca, da HCI, destacando em especial o prejuízo superior a R$ 500 milhões registrado pelo Grupo Pão de Açúcar, que contribuiu para alimentar a cautela do investidor com relação ao segmento na sessão.
Em Nova York, ele chama atenção para a expectativa em torno dos resultados trimestrais da Nvidia, que serão conhecidos após o fechamento de Nova York nesta quarta-feira, em meio às incertezas globais despertadas pelo volume de investimentos no desenvolvimento da inteligência artificial (IA). No quadro de fundo, “o mercado segue monitorando, também, os desdobramentos em torno da política comercial dos Estados Unidos”, acrescenta Fonseca.
No front doméstico, ele aponta que os investidores continuam atentos ao que precede o início da corrida eleitoral, com foco nas pesquisas de intenção de voto. “O presidente Lula registrou uma perda de quase 4 pontos porcentuais nas intenções de voto em pesquisa Atlas/Bloomberg divulgada nesta manhã. E a possibilidade de alternância de poder traz ao mercado uma perspectiva positiva para o Ibovespa.”
Dólar
O dólar emendou o quinto pregão consecutivo de queda nesta quarta-feira, 25, e fechou abaixo do nível de R$ 5,15 pela primeira vez desde 21 de maio de 2024, em mais um dia marcado pela desvalorização global da moeda americana. Embora o real não tenha apresentado o melhor desempenho entre divisas emergentes e de países exportadores de commodities, operadores afirmam que o ganho de musculatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na corrida presidencial reforça a tendência de queda da taxa de câmbio.
Pesquisa Atlas/Bloomberg divulgada pela manhã mostra que o candidato da oposição cresceu e está empatado tecnicamente com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em simulação de segundo turno. Flávio Bolsonaro tem 46,3% das intenções de voto, enquanto o petista soma 46,2%. O levantamento também indica piora na avaliação do presidente, com leve alta na desaprovação e queda mais acentuada na aprovação.
Afora uma alta pontual no início da tarde, em aparente movimento de realização de lucros, o dólar operou em baixa no restante do pregão, embora não tenha se aproximado da mínima de R$ 5,1191, vista logo após a abertura. No fim das negociações, o dólar à vista recuava 0,59%, a R$ 5,1252 – menor valor de fechamento desde 21 de maio de 2024 (R$ 5,1168). Após queda de 4,40% em janeiro, a moeda americana recua 2,33% em fevereiro. No ano, as perdas são de 6,63%.
O gestor de fundos multimercados Marcelo Bacelar, da Azimut Brasil Wealth Management, observa que o ambiente externo continua favorável ao real, com depreciação global do dólar e aumento do fluxo de recurso para ativos emergentes.
No caso do Brasil, ele destaca que a derrubada das chamadas tarifas recíprocas pela Suprema Corte dos EUA, seguida pela adoção de taxa global de 10% por Donald Trump, representa um alívio tarifário para o setor manufatureiro exportador brasileiro. Outro ponto positivo para o real, embora não tenha influência direta na formação da taxa de câmbio neste momento, são os sinais de diminuição do déficit em transações correntes.
“A melhora de Flávio nas pesquisas era de certa forma esperada. Mas a pesquisa de hoje trouxe também uma informação importante, que foi o aumento da desaprovação de Lula. É uma surpresa positiva para o prêmio de risco do país”, afirma Bacelar, lembrando que investidores veem a vitória da oposição como passo relevante para a mudança da política fiscal.
Para o gestor da Azimut, o chamado ‘trade eleitoral’ pode ganhar peso na dinâmica dos ativos domésticos, sobretudo se as próximas pesquisas confirmarem a percepção de chances reais de vitória da oposição na corrida presidencial.
“Eu acho que os fatores idiossincráticos vão ficar mais visíveis Podemos emendar o trade de emergentes com um trade eleitoral positivo, com a chance de saída desse governo e mudança da política econômica”, afirma Bacelar, ressaltando que o real ainda é apoiado pela sazonalidade positiva do fluxo e por uma taxa de juros muito elevada.
À tarde, o Banco Central informou que o fluxo cambial em fevereiro, até o dia 20, está positivo em US$ 3,358 bilhões, com entrada líquida de US$ 1,914 bilhão pelo canal financeiro, que reúne os investimentos em carteira. No ano, o fluxo total soma US$ 8,426 bilhões, graças, sobretudo, ao aporte líquido de US$ 8,136 bilhões pelo canal financeiro.
O economista Sergio Goldenstein, sócio-fundador da Eytse Estratégia, chama a atenção para o ingresso financeiro de US$ 2,34 bilhões no último dia 19, possivelmente refletindo a internalização, pelo Tesouro Nacional, de 50% da emissão externa de US$ 4,5 bilhões realizada neste mês.
O economista André Perfeito, da Garantia Capital, vê espaço para continuidade da apreciação do real. Ele atribui o rali recente da moeda brasileira à depreciação global do dólar e ao fato de que o Brasil é “muito identificado” com commodities, o que “acaba gerando uma demanda maior pela divisa nacional”.
Perfeito acrescenta que, hoje, a dinâmica do mercado de câmbio ganhou um “tempero especial” com a pesquisa eleitoral mostrando fortalecimento de Flávio Bolsonaro, 0,1 ponto porcentual à frente de Lula em eventual segundo turno. “Isso quer dizer empate, mas sabemos bem o quanto essa notícia tem a capacidade de racionalizar o movimento recente do dólar na cabeça de muitos investidores”, afirma o economista.
Juros
Mesmo com drivers que poderiam acelerar a queima de prêmios de risco nos juros futuros, a melhora dos DIs foi tímida no pregão desta quarta-feira, 25. Agentes avaliam que a pesquisa Atlas/Bloomberg que mostrou empate técnico entre o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) fez menos preço hoje, uma vez que rumores sobre ela já circulavam nas mesas de renda fixa nesta terça, 24.
Também podem ter contribuído para postura mais cautelosa dos investidores o leilão de prefixados do Tesouro Nacional, a ser realizado nesta quinta, 26, que deve trazer novamente oferta relevante, assim como a espera pela divulgação do IPCA-15 de fevereiro, a ser conhecido nesta sexta-feira, 27. Nos EUA, os rendimentos dos Treasuries subiram, o que também limitou a queda das taxas futuras.
Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 subiu de 13,221% no ajuste de ontem para 13,24%. O DI para janeiro de 2029 aumentou de 12,567% no ajuste anterior a máxima intradia de 12,595%. O DI para janeiro de 2031 fechou em 13,005%, exatamente igual ao ajuste precedente.
Um gestor de renda fixa de uma grande Asset aponta que a sessão de hoje não mostrou a melhora esperada por ele nos DIs, tendo em vista o ambiente externo mais positivo e, por aqui, denúncias que poderiam enfraquecer o governo e a pesquisa Atlas. Segundo o site Metrópoles, dois servidores do INSS estão em processo de delação premiada sobre o esquema de fraudes no instituto e entregaram o filho mais velho do presidente Lula, Fábio Luís Lula da Silva.
A enquete da Atlas/Bloomberg, por sua vez, divulgada pouco antes da abertura do pregão, apontou redução de 3,8 pontos nas intenções de voto do petista e avanço de 2,9 pontos de Flávio Bolsonaro no principal cenário de primeiro turno. Nesta hipótese, o atual presidente tem 45%, contra 37,9% do filho de Jair Bolsonaro.
No principal confronto de segundo turno testado, 46,3% dos entrevistados afirmaram que votariam em Flávio, ante 46,2% em Lula, configurando um empate técnico. Frente ao levantamento anterior, o presidente caiu 3 pontos, e seu oponente subiu 1,4 ponto. O efeito da pesquisa, limitado desde sua publicação, com recuo de até 5 pontos nos vértices longos, foi praticamente apagado no início da tarde.
“Achei que a curva iria andar um pouco hoje, mas não vejo nada no radar. Pode ser um misto de antecipação da pesquisa ontem, que gerou alguma ressaca hoje”, disse o gestor à Broadcast, acrescentando que pode ser mais interessante esperar para apostar em queda dos juros. Além da prévia da inflação oficial e de outra pesquisa eleitoral no radar, ele cita o leilão de prefixados a ser realizado amanhã pelo Tesouro Nacional, que deve ser robusto, a exemplo dos últimos certames.
Estrategista-chefe da RB Investimentos, Gustavo Cruz observa que o cenário mais vantajoso para Flávio, candidato favorito da Faria Lima, já estava sendo ventilado ontem pelos participantes do mercado, o que pode ter reduzido o efeito do levantamento sobre a curva de juros nesta quarta. “Já tem mais gente avaliando que o presidente Lula não vai vencer as eleições. Mas ainda há muita dúvida sobre Flávio”, pondera.
Cruz destaca que aspectos negativos do candidato, devido à sua relação com o pai – que tem elevado índice de rejeição entre o eleitorado -, ainda não foram explorados pela campanha petista, dado que o momento ainda não parece oportuno. Também observa que medidas de estímulo implementadas pelo governo atual, tais como a isenção do Imposto de Renda para rendimentos mensais até R$ 5 mil, entre outros, ainda não surtiram efeito sobre a demanda.
Nos EUA, os retornos dos Treasuries subiram na medida em que o mercado passou a apostar que o ciclo de cortes dos juros será retomado pelo Federal Reserve (Fed) somente em julho, diante de maiores incertezas sobre a política comercial do país, o que também acabou por enfraquecer o recuo dos Dis.
Estadão Conteúdo