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Economia

Ibovespa bate 200 mil pontos e dólar cai para menos de R$ 5, com euforia após resultado das eleições

Mercado reage à perspectiva de alternância de poder e de maior controle fiscal, enquanto Ibovespa supera 200 mil pontos

Redação Jornal de Brasília

05/10/2026 13h02

Foto: Agência Brasil

Foto: Agência Brasil

MATHEUS DOS SANTOS E JÚLIA GALVÃO
FOLHAPRESS

A liderança de Flávio Bolsonaro (PL) sobre Lula (PT) no 1º turno das eleições alimenta o apetite por risco no mercado brasileiro nesta segunda-feira (5). O dólar cai abaixo de R$ 5, enquanto a Bolsa dispara e supera os 200 mil pontos e os juros futuros recuam.

A reação dos ativos ocorre em meio à expectativa de alternância de poder na Presidência da República e de uma condução fiscal mais sólida, na avaliação dos investidores. Esse cenário reduz a percepção de risco em relação aos ativos brasileiros.

O ex-senador Flávio Bolsonaro terminou o 1º turno na liderança, com 47,03% dos votos, ante 45,16% de Lula, atual presidente. Os dois disputarão o segundo turno, marcado para o próximo dia 25. Nunca houve uma virada do segundo colocado na disputa pela Presidência da República no segundo turno.

Por volta das 15h, o dólar recuava 4,24%, a R$ 4,995, enquanto a Bolsa registrava alta de 8,95%, aos 209.313 pontos. Na mínima do dia, a moeda americana chegou a R$ 4,952, em queda de 5,06%, enquanto o Ibovespa, índice de referência do mercado acionário brasileiro, atingiu a máxima de 209.605 pontos, em alta de 9,10%.

É o maior nível intradiário atingido pela Bolsa na história, a caminho de registrar um novo recorde de fechamento, e a menor cotação da moeda desde maio deste ano, quando encerrou o dia a R$ 4,893.

O movimento de alta também repercute nos juros futuros, que recuam em bloco. A taxa DI de 2027 cede 13 pontos-base, a 13,40%, enquanto a taxa DI de 2029 cai 118 pontos-base, a 12,57%. As taxas dos DIs refletem as expectativas do mercado para a trajetória futura da Selic e do CDI, referência para a remuneração de investimentos.

Quanto menores forem os juros, menos vantajoso fica o investimento em renda fixa, o que tende a aumentar o fluxo de aportes em ativos mais arriscados. O crédito tende a ficar mais barato, estimulando o consumo e investimentos e reduzindo o peso da dívida sobre as empresas. Com uma projeção menor de custos, aumenta o valor da companhia hoje.

Em 2018, quando Jair Bolsonaro terminou na liderança do 1º turno, a Bolsa avançou 4,57%, enquanto o dólar fechou em queda de 1,57%, a R$ 3,779. Em 2022, com Lula na liderança do 1º turno, o Ibovespa, índice de referência do mercado acionário, avançou 5,54%, ante queda de 4,48% do dólar, que encerrou o dia a R$ 5,171.

Parte dos investidores avalia que uma eventual alternância de poder, com Flávio no lugar de Lula, poderia resultar em uma condução fiscal mais sólida, reduzindo a percepção de risco em relação aos ativos brasileiros.

Com uma trajetória da dívida mais controlada, o governo poderia pagar um prêmio menor para se financiar, o que tende a aliviar a curva de juros. Taxas mais baixas, por sua vez, reduzem o custo do crédito para empresas e podem melhorar as perspectivas para os lucros, favorecendo a Bolsa.

Ações de bancos, petroleiras e varejistas sobem em bloco durante o pregão. Os papéis da Petrobras avançam mais de 9%, enquanto as do BTG lideram entre os bancos, com alta de 25%. O Magazine Luiza sobe 26%, uma das maiores valorizações do dia.

Para Leonel Oliveira Mattos, analista de inteligência de mercados da StoneX, o desempenho dos partidos de direita foi muito forte e alimenta a expectativa de uma alternância de governo.

“As reações dos agentes do mercado financeiro desde agosto já revelavam uma preferência pela mudança, com a ideia de que Flávio Bolsonaro poderia ser mais conservador em sua política fiscal. Por isso, essa perspectiva hoje causa euforia, diminuindo a percepção de riscos fiscais dos ativos brasileiros e favorecendo o desempenho do real”, afirma.

Rodrigo Marcatti, economista e CEO da Veedha Investimentos, diz que a composição do primeiro turno surpreendeu positivamente o mercado. “Analistas já trabalhavam com uma perspectiva positiva para uma eventual vitória de Flávio, mas não esperavam uma vantagem tão expressiva no primeiro turno. Por isso, a reação apareceu já na abertura, com alta do Ibovespa e valorização do real.”

Instituições financeiras também reagiram à liderança de Flávio. Para o JPMorgan, a expectativa de uma vitória do candidato do PL deve valorizar as ações brasileiras em cerca de 10% a 11%, levar o dólar para entre R$ 4,95 e R$ 5 e provocar um fechamento da curva de juros, movimento observado no pregão desta segunda-feira. Caso a vitória de Flávio se confirme, o banco projeta uma expansão de 20% a 25% no índice MSCI Brazil e dólar a R$ 4,80.

O BTG Pactual projeta que, se Flávio Bolsonaro vencer, as ações brasileiras poderiam voltar rapidamente à média histórica dos últimos dez anos, o que implicaria um potencial de alta de 11% a 20%.

O Goldman Sachs é mais contido e avalia que o segundo turno tende a ser polarizado e que Flávio Bolsonaro parte com uma ligeira vantagem após terminar o primeiro turno cerca de dois pontos à frente de Lula. O banco afirma que, pelas pesquisas, os eleitores de Ciro, Caiado, Eduardo Leite e Zema tendem, em maior proporção, a migrar para Flávio, embora parte desses eleitores possa já ter escolhido um dos dois candidatos no primeiro turno.

O Morgan Stanley avalia que o resultado do primeiro turno aproxima o mercado de seu cenário otimista para os ativos brasileiros. O banco projeta que o dólar possa romper a marca de R$ 4,90 e avançar em direção a R$ 4,50 no primeiro trimestre de 2027, caso um plano fiscal crível seja apresentado e o cenário global permaneça estável.

Em relação ao Ibovespa, o relatório aponta o início do que chama de “Great Rebalancing Trade” (“Trade do Grande Reequilíbrio”), com uma migração para ativos brasileiros. A equipe de estratégia do banco projeta que o índice pode alcançar 250 mil pontos no curto prazo, o que representaria uma valorização de cerca de 30% em relação aos níveis atuais, caso se mantenham firmes as expectativas de mudança na política fiscal.

O UBS também avalia que o resultado do primeiro turno fortalece o cenário de um ajuste fiscal estrutural.

Em um horizonte de três a seis meses, caso o segundo turno confirme o resultado do primeiro e o mercado passe a precificar uma estabilização da relação entre dívida e PIB, o banco projeta que o dólar pode recuar para a faixa de R$ 4,50 a R$ 4,60.

Para a Bolsa, o UBS calcula um potencial de alta de mais de 30% nos próximos meses, impulsionado pela queda dos juros reais e pela expansão dos lucros das empresas. O relatório recomenda ainda uma rotação de posições em petroleiras para ações mais ligadas à economia doméstica, como bancos, varejo, construção civil, serviços públicos, educação, saúde e small caps.

O desempenho do ex-senador fluminense ocorreu em meio a uma onda de vitórias de candidatos alinhados ao bolsonarismo, com resultados favoráveis nos estados e no Senado que evidenciaram a força do PL e de seus aliados. Nomes da equipe econômica do candidato do PL são bem recebidos na Faria Lima, como a ex-presidente da Caixa Daniella Marques e o ex-ministro de Minas e Energia na gestão de Jair Bolsonaro, Adolfo Sachsida.

Ainda há incerteza sobre a política econômica dos candidatos. Flávio Bolsonaro defende um ajuste fiscal sem mexer na Previdência ou na política de valorização do salário mínimo, enquanto o governo Lula propõe reduzir o ritmo de crescimento dos gastos obrigatórios e aprimorar o arcabouço fiscal. Economistas, porém, avaliam que um ajuste duradouro teria de atingir aposentadorias e benefícios sociais.

No governo de Jair Bolsonaro, pai do ex-senador, o teto de gastos foi furado em R$ 795 bilhões ao longo dos quatro anos de mandato. O montante envolveu a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) Kamikaze, que autorizou uma série de benefícios acima do limite constitucional, como o aumento do Auxílio Brasil e a criação de auxílios para caminhoneiros e taxistas, em 2022.

O governo Lula prevê um déficit de R$ 67,3 bilhões neste ano, ou 0,5% do PIB (Produto Interno Bruto). Com isso, a dívida bruta do governo geral, que atingiu o maior nível em cinco anos e está em 82,9% do PIB, deve subir ainda mais. Segundo analistas, estabilizar a dívida pública requer um ajuste nas contas de ao menos R$ 250 bilhões nos próximos quatro anos.

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