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Economia

FCA não bate meta de transporte em ferrovias às vésperas da renovação da concessão

ANTT aponta desempenho abaixo do mínimo exigido em 2025, enquanto concessão ferroviária caminha para novo contrato de 30 anos

Redação Jornal de Brasília

09/04/2026 12h50

Foto: VLI/Divulgação

Foto: VLI/Divulgação

ANDRÉ BORGES
FOLHAPRESS

Prestes a ter seu contrato renovado por mais 30 anos, a FCA (Ferrovia Centro-Atlântica), uma das maiores concessões ferroviárias do país, descumpriu a meta de transporte de carga, frustrando a maior parte dos volumes que tinha o compromisso de transportar em 2025.

A reportagem teve acesso à análise do desempenho da empresa, resultado que pode culminar em multa pela ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres). Depois de receber os dados da concessionária que administra a ferrovia (a VLI Logística) e analisar a movimentação de carga, o órgão de controle concluiu que a concessionária operou abaixo do nível mínimo exigido, uma situação já ocorreu pelo menos 12 vezes nos últimos 20 anos.

A VLI Logística é formada pela Vale, Brookfield, Mitsui e BNDESPar, além de fundos de investimentos.
A frustração se deu nos cerca de 4.000 km de trilhos onde a empresa atua efetivamente, ou seja, nem foram considerados os mais 3.000 km da concessão da FCA que estão praticamente abandonados há anos.

O modelo, firmado em agosto de 1996, prevê que a empresa que atua no trecho cedido pelo governo não apenas cuide dele, mas assuma metas de volume transportado para garantir que a malha seja utilizada e não fique subexplorada, seja por estratégia comercial ou por falta de incentivo a novos tipos de carga.

A medição é feita por tonelada de quilômetro útil (TKU). A ideia é que, sem esse tipo de regra, haveria risco de a concessionária concentrar operações apenas em trechos mais lucrativos e deixar partes da malha ociosas, comprometendo o interesse público.

Os dados oficiais mostram que a empresa movimentou 12,6 bilhões de TKU em 2025, quando sua meta foi de 14,77 bilhões, chegando a 85% do total esperado. Pelas regras do setor, seria necessário atingir pelo menos 95% para que a meta fosse considerada cumprida.

A situação se agrava quando se observa o desempenho por trechos da malha. A análise da ANTT se concentrou em oito trechos da FCA em diversas regiões. Apenas dois destes corredores ferroviários atingiram o nível de ao menos 90% da meta.

Outros seis trechos que representam fluxos relevantes de transporte dentro da malha da FCA não chegaram lá. Foi o caso do traçado Minas-Bahia, por exemplo, que só alcançou 53% do que deveria; e do corredor Centro-Oeste, que bateu apenas 24% de sua meta.

Os únicos trechos que ficaram dentro da média esperada são os de Ibiá-Uberaba e Boa Vista Nova-Uberaba, em Minas Gerais.

À ANTT, a concessionária tentou justificar o baixo desempenho alegando fatores como queda na demanda de clientes, problemas operacionais de parceiros e frustração de contratos de transporte mínimo.

Em tese, esse tipo de argumento pode ser aceito pela regulação, já que a ferrovia não controla diretamente o volume de carga a ser transportado e depende da demanda de setores como mineração, agronegócio e indústria para garantir o transporte.

A agência, porém, entendeu que a conta não fechou. Para a ANTT, a FCA não conseguiu demonstrar a ligação entre os problemas alegados e o resultado final.

Questionada pela Folha, a VLI declarou que “a performance é resultante de dinâmicas naturais de mercado e fatores climáticos, além de episódios de vandalismo e imprudência de terceiros com impacto na operação, constituindo um desafio comum às concessões não renovadas”.

Segundo a empresa, esses contratos antigos são os únicos que ainda têm essa meta, “uma vez que a obrigação de produção foi revista nos contratos de concessão já renovados, sendo estes avaliados segundo novos critérios”. A companhia diz que seus números mostram que os volumes transportados nos últimos dez anos aumentaram 38%, passando de 30,5 milhões de toneladas em 2016 para 42 milhões de toneladas em 2025.

“Mesmo com o processo de renovação da concessão ainda em curso, a companhia planeja destinar cerca de R$ 1,2 bilhão a essa malha ferroviária em 2026 -o total acumulado entre 2023 e 2026 chega a R$ 4,8 bilhões”, afirmou, e que prevê novo ciclo de concessão, com investimentos de cerca de R$ 30 bilhões.
Em agosto deste ano, vence o contrato de 30 anos de concessão da FCA. A ANTT quer concluir sua apuração e eventual penalidade para que não restem pendências do contrato atual. Há expectativa de que a renovação seja assinada nas próximas semanas.

A renovação da concessão da FCA é um dos principais desafios do governo federal, que tenta fechar um acordo com a VLI que justifique a manutenção da mesma empresa à frente da ferrovia, apesar do abandono de boa parte dos trechos e da frustração de metas, resultado que não é novidade no histórico da empresa.

Acórdão do TCU (Tribunal de Contas da União) do ano passado mostra que, em 20 anos, entre 2003 e 2022, a FCA foi alvo de penalidade por descumprir suas metas de transporte em, pelo menos, 12 anos, ou seja, mais da metade do tempo analisado.

O acerto feito entre o governo e a FCA prevê que a renovação da concessão da VLI até 2056 inclua investimentos de R$ 24 bilhões ao longo do novo contrato, além de R$ 10 bilhões em aporte adicional por parte do governo federal.

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