A falta de gás natural ocorrida na última terça-feira reflete uma realidade: a de que o país não tem gás suficiente para atender a demanda interna nem o terá em curto espaço de tempo.
A opinião é do especialista em energia do Programa de Planejamento Energético da Coordenadoria dos Programas de Pós Graduação de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coope-UFRJ), see Giuseppe Bacoccoli.
Em entrevista, Bacoccoli disse que o país terá que conviver com esse problema pelo menos até 2010, quando os campos de Golfinho e Mexilhão, nas Bacias do Espírito e de Santos, deverão entrar em produção.
“Não há solução no curto prazo. Se houver um corte no fornecimento do gás que o Brasil importa diariamente da Bolívia por qualquer razão – a queda de um raio no Gasbol, por exemplo – a disponibilidade interna do produto cairá à metade e aí haverá sérios prejuízos no abastecimento interno”, previu.
Sem entrar no mérito da opção que inseriu as usinas termoelétricas no modelo energético brasileiro, o professor da UFRJ lembrou que a situação atual vivida no país foi motivada pela necessidade de aumentar o consumo interno do gás natural, ainda no governo do presidente Fernando Henrique Cardoso.
“No início da década nós éramos obrigado a pagar por um gás que não consumíamos por não haver mercado. Em 2001, com o apagão, criou-se a opção pela utilização do gás excedente nas usinas térmicas para a geração de energia. Depois vieram os incentivos dados ao crescimento do mercado brasileiro de gás, o consumo subiu e as distribuidoras, principalmente as do Rio e de São Paulo, e os grandes consumidores industriais passaram a retirar mais gás do que o acordo em contrato com a Petrobras. Hoje o problema é exatamente o oposto: o crescimento excessivo não foi acompanhado pela produção”, avaliou o especialista.
“Como nós não temos o gás na quantidade necessária para atender à demanda, então nós vamos ficar neste cobertor curto até encontrar a solução adequada – que passa pela entrada em operação das plantas de regaseificação do Gás Natural Liquidificado (GNL), ou ainda pela entrada em operação dos grandes campos descobertos no país”, disse Bacoccoli.
O professor afirmou que o país vive um curto-circuito entre ás áreas que respondem pela energia elétrica e o gás natural. “No Brasil existe a Petrobras cuidando do gás e o Ministério de Minas e Energia e a Aneel, da energia. Então fica um jogando a culpa para cima do outro sem que se chegue a nenhuma conclusão. E isto está gerando este curto-circuito entre o setor que cuida do gás e o que cuida do setor elétrico”.
Para ele, o Brasil é um país que tem vocação para energias renováveis e não tinha que envolver o gás natural na área de geração de eletricidade.
Giuseppe Bacoccoli também ressaltou o fato de que a alta excessiva do preço do petróleo no mercado externo contribuiu para o agravamento do problema ao inviabilizar a antecipação da entrada em produção dos campos das bacias de Santos e Espírito Santo.
“As iniciativas para se colocar o gás existente nas bacias de Santos e Espírito Santo estão em curso, mas há dificuldades porque, com a alta do preço do petróleo, está faltando equipamentos para os projetos de exploração e produção. Em conseqüência, nos próximos dois anos, até 2010, nós estaremos em uma situação extremamente delicada: se faltar energia elétrica nós teremos que conviver ou com o apagão, ou com a falta de gás para atender aos outros segmentos da economia, como os consumidores de GNV e as indústrias”.
O professor Bacoccoli disse que é injusto ter de conviver com essa situação de priorizar o envio do gás para a geração de energia nas usinas térmicas. “O consumidor do gás veicular foi estimulado pela Petrobras e pelo governo a fazer a conversão do seu veículo. Ele não foi para o GNV porque quis. Disseram a ele: olha vai lá e converte o seu carro porque é bom e tem subsídios. Agora você deixa o cara na mão. Isto é péssimo”.
Para o especialista, a solução para o problema energético brasileiro passa invariavelmente pela geração hídrica. “O Brasil tem na solução para o abastecimento de energia a geração a partir das usinas hidrelétricas. Enquanto houver essa dependência da energia gerada a partir do gás nós estaremos vivendo esta situação. Nós temos ainda a biomassa: porque não estamos colocando usinas operando com bagaço de cana?”, questiona.