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Economia

Empresas mudam planos e apelam a políticos nos EUA para contornar tarifaço

A taxa de 25% entrou em vigor nesta quarta-feira (22) após investigação com base na Seção 301 da Lei de Comércio americana sobre práticas de comércio consideradas injustas

Redação Jornal de Brasília

24/07/2026 9h14

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Foto: Reprodução

DOUGLAS GAVRAS, ISABELLA MENON E MARIA CLARA MATOS
BUENOS AIRES, ARGENTINA, WASHINGTON, EUA, E SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

Fechar escritório nos Estados Unidos, garimpar novos mercados no exterior e até tentar argumentar com políticos norte-americanos. As empresas brasileiras buscam estratégias para tentar contornar as incertezas geradas pelas tarifas do governo Trump.

A taxa de 25% entrou em vigor nesta quarta-feira (22) após investigação com base na Seção 301 da Lei de Comércio americana sobre práticas de comércio consideradas injustas. Já a de 12,5% que passou a valer nesta sexta (24) e também mira outros parceiros comerciais é resultado de uma investigação sobre falhas no combate à importação de produtos feitos com o uso de trabalho forçado

As taxas afetam itens de diversos setores, incluindo máquinas agrícolas, madeira processada, etanol, papel e vestuário. Segundo cálculos da Amcham Brasil (Câmara Americana de Comércio para o Brasil), as tarifas de 12,5% atingem o correspondente a US$ 12,5 bilhões em exportações anuais aos EUA. Para 85,3% dessas vendas, equivalentes a US$ 10,7 bilhões, seus efeitos devem ser cumulativos com as tarifas de 25%, resultando em uma taxa de 37,5%.

Segundo o ministro Márcio Elias Rosa (Indústria e Comércio), muitos setores estarão sujeitos à taxação acumulada de 37,5%.

“É o caso, por exemplo, de calçados, máquinas, equipamentos, peças, componentes, confecções, químicos, desde que não sejam farmacêuticos. Para esses, infelizmente, a tarifa passa a ser de 37,5%”, disse na noite desta quinta.

Os exportadores brasileiros, de diferentes tamanhos e setores, tentam minorar o impacto das tarifas.

No caso da Weg, multinacional brasileira de equipamentos elétricos, os EUA representam uma parte relevante de seus negócios e o acúmulo das taxas é motivo de preocupação, segundo disse o vice-presidente administrativo André Rodrigues na manhã desta quinta, antes da confirmação da nova taxa.

O executivo disse ser difícil estimar um impacto de longo prazo da taxação americana para a companhia. “Mas é certo afirmar que mantendo as tarifas atuais teremos um impacto na margem [consolidada]”, afirmou em teleconferência de apresentação de resultados.

Uma das alternativas que a WEG encontrou para mitigar os efeitos do tarifaço, segundo Rodrigues, foi aumentar a produção no México, reduzindo a parte sob responsabilidade no Brasil. O México é hoje o principal produtor de equipamentos da empresa para os EUA, responsável por 41% dos envios.

A gaúcha Forbal Automotive (de peças e componentes para as indústrias de implementos rodoviários, agrícola e automotiva) tem forte presença em países da América do Sul –como Argentina, Uruguai, Paraguai e Chile. Também atua no México e na América Central. Em março de 2025, abriu uma unidade em Tampa, na Flórida, com um centro de distribuição, conta o CEO, Giuliano Santos Policastro.

“Logo no primeiro mês de operação e depois de mais de dois anos de estudos, aconteceu o ‘Liberation Day’ do Trump, em que ele aplicou uma tarifa de 10%. E depois, teve a tarifação em que o nosso produto ficou enquadrado na faixa de 50%.”

Mesmo após a Suprema Corte dos EUA derrubar as tarifas de Trump, em fevereiro, o empresário se antecipou às novas taxações deste ano e resolveu mudar planos. A empresa, que tinha a expectativa de que os EUA se tornassem seu principal mercado, hoje tem no país seu oitavo destino.

“O tarifaço prejudicou a nossa expectativa de receita e fomos obrigados a revisar o planejamento da operação por lá, infelizmente.”

Contratado pela CNI (Confederação Nacional da Indústria), o ex-diretor-geral da OMC (Organização Mundial do Comércio) e ex-embaixador Roberto Azevêdo afirma que o setor produtivo intensificou sua atuação após a confirmação das tarifas.

Segundo ele, empresas e associações passaram a estudar novos pedidos de exclusão dentro da própria investigação comercial americana, além de reforçar a interlocução com importadores, consumidores e entidades dos Estados Unidos.

O setor calçadista brasileiro, que tem os Estados Unidos como seu principal mercado externo, já revisou para baixo suas projeções de exportação para o ano, de uma queda de 3,6% para 7,1%. O setor agora é alvo de uma tarifa acumulada de 37,5%.

Para o agente de exportação Julio Schreck, da Gateway Intl., que trabalha com empresas dos polos de Franca e do Rio Grande do Sul, a segunda rodada de tarifas é um problema político, não econômico.

Ele defende que os calçados brasileiros sejam colocados na lista de produtos isentos e diz que clientes têm buscado entrar em contato com congressistas norte-americanos para convencê-los. “O Brasil exporta para lá o equivalente a 0,3%. Para eles nós não somos nada.”

O presidente-executivo da Abicalçados (Associação Brasileira das Indústrias de Calçados), Haroldo Ferreira, afirma que a medida aumentará a diferença entre as taxas cobradas do Brasil e de outros países fornecedores do produto, como Indonésia e Camboja.

“Perderemos ainda mais mercado para esses concorrentes”, afirmou em comunicado divulgado nesta quinta.

Apesar do futuro nebuloso pela frente, as empresas do setor estão trabalhando para mitigar os prejuízos. É o que explicou Carlos Filho, diretor comercial da Kissol, à agência de notícias Reuters.

“Por termos um produto de boa qualidade, boa parte desse produto vai para o mercado norte-americano. Mas nós já estamos traçando algumas estratégias para, caso essas tarifas permaneçam, a gente possa continuar trabalhando da melhor forma possível.”

O economista e professor do Ibmec, Gilberto Braga, pondera que as novas taxas pegam uma quantidade relativamente pequena das exportações, mas é algo significativo para os setores afetados.

“São mercados com produtos tipificados, ou seja, desenvolvidos para aquelas características. E o maior prejuízo econômico é a possibilidade de ter desemprego e dificuldades financeiras para essas empresas.”

Para amenizar o impacto em seu próprio país, o governo dos Estados Unidos isentou produtos, como carne bovina, café, aeronaves e componentes aeronáuticos.

Empresa que estava empenhada em apresentar sabores do Brasil por meio de geleias e molhos de pimenta e para saladas, a Soul Brasil Cuisine buscou o mercado dos Estados Unidos. Com a ajuda de dois sócios locais, montou uma estrutura jurídica, conseguiu um parceiro logístico e fez testes de mercado.

Na semana em que a tarifa foi implementada, eles decidiram encerrar a representação nos Estados Unidos até que a insegurança para exportar ao país diminua, diz o cofundador, Peter Feddersen.

“A política atual é errática e até que ela deixe de ser assim, não consigo fazer negócio. Então, no frigir dos ovos, eu fechei toda a estrutura americana. Somos uma empresa pequena e a gente gastou lá um dinheiro que podia ser usado em outra coisa.”

Enquanto o governo brasileiro acena com um pacote de auxílio para os exportadores, mesmo quem ficou isento da segunda rodada de tarifas se sente pouco confiante para seguir tentando ganhar o mercado dos Estados Unidos e reclama da falta de previsibilidade no comércio entre os dois países.

Para José Pimenta, sócio da BMJ Consultoria e especialista em comércio internacional, a maior parte das empresas que conseguiu escapar das tarifas foi justamente a que se mobilizou para defender seus interesses diretamente nos Estados Unidos. Ele cita o café solúvel como um dos exemplos bem-sucedidos dessa estratégia.

O gerente de Comércio Exterior da Frescatto, Rafael Barata, conta que a empresa, que tem fábricas de processamento, onde congela, embala e vende pescados tanto localmente como para o mercado externo, tem nas exportações 25% de seu faturamento –com os EUA como principal destino.

O tarifaço de 2025 saiu no meio do período de pesca dos principais produtos vendidos ao país e pegou a brasileira de surpresa. “Foi uma correria, tínhamos uma janela de algumas semanas até o início das tarifas e corremos para embarcar tudo que dava. Em maio deste ano, as safras recomeçaram, mas os clientes americanos se adaptaram a outros produtos, o que dificultou a recuperação do mercado”, diz Barata.

“As vendas para lá caíram pela metade em 2025; para 2026, não esperamos recuperar o que perdemos. A partir de 2027, vamos tentar voltar ao que tínhamos antes do primeiro tarifaço.”

Galeria Lula e Trump na Casa Branca Encontro entre Lula e Trump na Casa Branca, nesta quinta-feira (7) ***

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