MAURO ZAFALON
FOLHAPRESS
A Embrapa recoloca os pés na África, de onde havia saído há uma década, com a abertura de um escritório de representação em Adis Abeba, na Etiópia, nesta sexta-feira (6). É mais um passo da implementação de atividades da empresa no âmbito internacional, por meio de representações, acordos, convênios e troca de conhecimentos.
Nos anos recentes, por questões financeiras e até por dificuldades de manutenção de pessoal no exterior, devido a mudanças na lei das estatais, a empresa esteve com atividades restritas no exterior. Os pesquisadores voltam também ao Labex (Laboratórios Virtuais da Embrapa no Exterior) da França e dos Estados Unidos e ampliam o relacionamento com entidades mundiais congêneres.
O Brasil se tornou muito forte no desenvolvimento da agricultura e da pecuária, principalmente na área tropical, e a Embrapa, com seus 43 centros de pesquisa, tem técnicos especializados em diversas áreas, o que atrai a atenção do mercado internacional. As demandas de parceiras vêm não só da África, mas das Américas, do Oriente Médio, da Ásia e do Leste Europeu, países que buscam incrementar a produção agropecuária em suas regiões.
A Embrapa estaria gastando recursos brasileiros, entregando conhecimentos adquiridos ao longo dos anos para concorrentes e promovendo ocupação de novas áreas de florestas?
Não, diz Silvia Massruhá, presidente da entidade. Além do conhecimento, que não será de graça, o Brasil tem a oportunidade de levar insumos, máquinas e produtos relacionados à agricultura tropical, na qual é líder mundial, na visão dela.
Silvia diz que em alguns países, principalmente nos da África, os problemas são mais estruturantes. O Brasil já desenvolveu muito a agropecuária, e, agora, tem outros desafios para continuar sendo um fornecedor mundial de alimentos. Se não continuar investindo em pesquisas, vai perder esse protagonismo em uma ou duas décadas, afirma.
O país está abrindo dados a terceiros, embora muitos deles já sejam públicos, mas também tem a possibilidade de fazer uma captação de recursos com licenciamento de tecnologias.
Na avaliação da Embrapa, o país tem possibilidade de abrir um mercado imenso de insumos, de máquinas e de equipamentos para nossas indústrias e para nossos produtores, que podem se beneficiar também atuando na produção nesses países.
A ideia de que estamos criando competidores não se sustenta, uma vez que o país tem a possibilidade não só de ser um exportador de commodities, mas também de tecnologia, segundo a presidente da empresa.
Quanto ao auxílio à África, Silvia diz que eles estão em um estágio bem diferente do nosso. Enquanto o Brasil busca espaço para colocar mais alimentos no mundo, os africanos buscam a segurança alimentar interna. Existe uma demanda mundial por alimentos para as próximas décadas, e o Brasil não será capaz de atendê-la sozinho. Quanto à sustentabilidade, ela afirma que as novas formas de desenvolvimento da agropecuária de hoje são bem diferentes das de 50 anos atrás.
A escolha da Etiópia para esse recomeço na África é porque a sede da União Africana está nesse país. Desse escritório de representação, a empresa desenvolverá projetos com outros países da região, buscando a capacitação de técnicos africanos em áreas selecionadas, como as de manejo de solo, bioinsumos, pecuária, agricultura digital e alguma coisa na área de inteligência artificial.
Os recursos para essa cooperação podem vir tanto do licenciamento de tecnologias como de parcerias com instituições de fomento internacional, como o Banco Mundial, ou fundações voltadas para o desenvolvimento do setor, como a Fundação Gates.
Ainda na África, a Embrapa desenvolve um projeto de demandas específicas com Angola na agricultura, junto com o Instituto de Investigação Agronômica do país. Moçambique, devido à facilidade da língua, terá acesso aos cursos básicos de formação agrícola da Embrapa, incluídos no banco da e-Campo para capacitação online.
Acordos com Marrocos e Egito se desenvolvem mais na cooperação científica, uma vez que esses dois países têm essas áreas mais desenvolvidas. Com os marroquinos, a cooperação será no campo de fertilizantes e bioinsumos, além do intercâmbio de cientistas.
A cooperação com o Egito é, principalmente, no setor de algodão. Eles têm cultivares com fibras diferentes, que interessam ao Brasil, e eles estão interessados nas cultivares brasileiras. Esses acordos científicos eram muito comuns com Estados Unidos e Europa, mas não existiam com países da África.
Entre os países da Ásia, a empresa desenvolve um acordo com o Japão na área de recuperação de pastagens e de água no cerrado, além de parcerias na área de agricultura de precisão. Com os chineses, as parceiras vão de biotecnologia e edição gênica à sustentabilidade, sequestro de carbono e a busca de homogeneização de uma calculadora métrica de carbono.
A Embrapa está reativando também a cooperação com a coreana RDA (Rural Development Administration), uma empresa equivalente à brasileira. Com a Índia está sendo assinado um acordo com o ICAR (Indian Council of Agricultural Research) no setor de pecuária, principalmente no melhoramento de gado de leite. Singapura, Indonésia e Caquistão mandaram comitivas para o Brasil, e as parcerias ainda estão sendo avaliadas.
Do Oriente Médio, vem uma demanda dos Emirados Árabes Unidos. O país está criando um hub de inteligência artificial para agricultura e quer a participação do Brasil, devido ao conhecimento brasileiro na agricultura tropical.
A participação do Brasil é muito importante porque permite ao país capacitar pesquisadores nessa nova linguagem, segundo a presidente da empresa. A Arábia Saudita, com uma região do país muito semelhante ao semiárido brasileiro, quer conhecer tecnologias nacionais para esse ambiente, mas as negociações ainda estão no campo da conversa.
América Central e Caribe também estão interessados em tecnologia brasileira. A República Dominicana está traduzindo para o espanhol os cursos da Embrapa mais apropriados para o desenvolvimento do país. Já o IICA (Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura) quer montar um hub da Embrapa em seu escritório central, na Costa Rica, para facilitar a transferência de tecnologia para os países da América Central e do Caribe.
A Embrapa leva o conhecimento que adquiriu na agricultura tropical, mas os países parceiros têm o desafio de implementá-lo de forma contínua. A agricultura se tornou mais preditiva. Assim como no Brasil, esses países têm de se basear em três pilares básicos: ciência e tecnologia, capacitação e políticas públicas associadas, afirma Silvia.