LEONARDO VIECELI
RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS)
O PIB (Produto Interno Bruto) do Brasil deve mostrar variação próxima a zero no quarto trimestre de 2025 e crescimento superior a 2% no acumulado do ano passado.
É o que projetam economistas para os resultados que serão divulgados às 9h desta terça-feira (3) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
A mediana das previsões coletadas pela agência Bloomberg aponta taxa positiva de 0,1% para o quarto trimestre em relação ao terceiro. Caso as expectativas se confirmem, e não haja revisão no dado anterior, o PIB repetirá a taxa registrada no intervalo de julho a setembro (0,1%).
Para o acumulado do ano, a mediana coletada pela Bloomberg indica alta de 2,3%. Com isso, o PIB marcaria o quinto ano consecutivo de crescimento no país, mas em um ritmo inferior ao verificado nos quatro anos anteriores, quando a expansão anual ficou em 3% ou mais. Em 2024, a economia avançou 3,4%, conforme o IBGE.
A desaceleração tem sido chamada de suave por analistas e, segundo eles, reflete os efeitos da política monetária do BC (Banco Central) para conter a inflação.
A instituição iniciou em setembro de 2024 um ciclo de aumento na taxa básica de juros, a Selic. A taxa chegou a 15% ao ano em junho de 2025, e o patamar ficou inalterado desde então.
A Selic de dois dígitos encarece o crédito e tende a esfriar a demanda por bens e serviços com o passar do tempo. Assim, espera-se que a pressão sobre os preços também ceda.
De acordo com analistas, o crescimento do PIB em 2025 ficou concentrado no início do ano, quando houve o impulso da safra recorde de grãos.
O desempenho da indústria extrativa e a recuperação do mercado de trabalho também foram vistos como responsáveis pelo desempenho positivo, enquanto os juros criaram obstáculos para o consumo e os investimentos produtivos.
“As commodities não conseguem segurar tudo. O país estava crescendo 3% ao ano e desacelerou agora porque o resto da economia desacelerou”, diz o economista-chefe da consultoria MB Associados, Sergio Vale.
Ele projeta variação negativa de 0,2% para o PIB do quarto trimestre ante o terceiro e expansão de 2,2% para o acumulado do ano passado. A expectativa para o ano de 2026 está em 1,8%, o que significaria nova desaceleração.
Segundo o economista, as commodities não devem ajudar tanto e os juros ainda devem representar um freio para a economia neste ano, ao passo que o governo Lula (PT) aposta em medidas de estímulo antes das eleições. Um dos exemplos citados por Vale é a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5.000.
O economista Rodolpho Sartori, da agência classificadora de risco Austin Rating, prevê PIB com variação positiva de 0,4% no quarto trimestre de 2025 em relação ao terceiro. No recorte anual, a expectativa é de alta de 2,3% em 2025 e de 1,7% em 2026.
Sartori diz que a agropecuária foi o carro-chefe do crescimento em 2025 e que o Brasil deve colher mais uma boa safra em 2026, mas abaixo do recorde.
“A tendência é de que ela não seja capaz de alavancar a economia como no ano passado. Um ponto importante é esse. E os juros elevados vão continuar surtindo um efeito defasado”, afirma.
POSSÍVEIS IMPACTOS DA GUERRA
A divulgação dos dados do IBGE ocorre no momento em que a guerra no Irã provoca incertezas na economia mundial. O conflito já pressionou as cotações do petróleo e, caso se prolongue, pode gerar impactos na inflação no Brasil, de acordo com Sartori.
“Se a cadeia do petróleo como um todo tiver uma subida de preço, vai subir o preço do frete. Subindo o preço de frete, as empresas vão ter que colocar esse custo em cima do seu produto depois. Tem uma cadeia de repasse que pode ser preocupante.”
Sergio Vale, da MB Associados, avalia que a situação pode elevar as exportações de petróleo do Brasil, mas também diz que há risco de impactos na inflação, caso o conflito perdure.
De acordo com ele, a guerra ainda pode afetar o ritmo de cortes esperados para a taxa Selic neste ano. O BC volta a se reunir nos dias 17 e 18 de março para definir o patamar dos juros, e o mercado financeiro espera uma primeira redução ainda há dúvidas quanto à intensidade.
IBGE DIVULGA PIB APÓS NOVA TURBULÊNCIA
A divulgação do PIB ocorre depois de mais um capítulo da crise interna no IBGE, cujo presidente é o economista Marcio Pochmann.
A nova turbulência teve início com o anúncio da retirada da pesquisadora Rebeca Palis do cargo de coordenadora de contas nacionais. O departamento é o responsável pelo cálculo do PIB dentro do instituto.
A direção comunicou a decisão em 19 de janeiro, pegando o corpo técnico de surpresa. Pelo menos três pesquisadores da mesma área entregaram cargos de gerência após o anúncio, em um movimento interpretado como demonstração de solidariedade a Rebeca.
O servidor Ricardo Montes de Moraes foi escolhido como substituto. A gestão do IBGE disse em janeiro que o cronograma de transição seria definido de forma dialogada, mas não detalhou quem fará a apresentação desta terça.
A Folha de S. Paulo questionou o instituto sobre o assunto na manhã desta segunda (2), mas não recebeu retorno até a publicação desta reportagem. O pedido foi encaminhado por email para a assessoria de comunicação do órgão.
Em divulgações do IBGE, técnicos explicam os resultados em entrevistas a veículos de imprensa. No caso do PIB, essa tarefa era coordenada por Rebeca.
O anúncio da troca provocou grande repercussão porque a equipe chefiada pela pesquisadora conduzia um processo considerado complexo de revisão nas contas nacionais.
A atualização é recomendada na área estatística para captar de tempos em tempos as mudanças na economia, como transformações digitais e uso do meio ambiente.
Em 28 de janeiro, o sindicato dos servidores do órgão (Assibge) chegou a falar em “caça às bruxas” no IBGE. Rebeca foi um dos nomes que haviam assinado manifestações de técnicos com críticas à direção anteriormente.
Após a polêmica, Pochmann usou o X (ex-Twitter) para defender a sua gestão em uma série de postagens. Ele afirmou que o instituto ia “muito bem” e citou “mentiras patrocinadas por algumas fontes”.
A crise no IBGE teve início no segundo semestre de 2024, quando o sindicato e o corpo técnico se revoltaram com projetos da direção, incluindo o lançamento de uma fundação, a IBGE+, que abria brecha para a elaboração de pesquisas para o setor privado.
A fundação foi suspensa em janeiro de 2025 e está em processo de extinção após decisão do TCU (Tribunal de Contas da União).