TAMARA NASSIF E MATHEUS DOS SANTOS
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
A despeito das apostas mais pessimistas sobre o rumo do dólar em 2026, ano eleitoral, a moeda norte-americana rompeu o piso de R$ 5 e voltou a um patamar que não era visto desde o começo de 2024.
A cotação de R$ 4,997, segundo especialistas ouvidos pela Folha de S.Paulo, é resultado de uma convergência de fatores que colocou o mercado brasileiro como um dos mais bem posicionados para enfrentar as turbulências globais causadas pela guerra no Irã.
E isso, pontuam eles, acontece apesar da situação das contas públicas do Brasil até então apontada como a principal responsável pela alta do dólar até o pico de R$ 6,27, em dezembro de 2024.
Analistas veem uma retomada do fluxo de investimentos estrangeiros para países emergentes, beneficiando o real. No começo deste ano, esse movimento levou o dólar a R$ 5,12 e a Bolsa brasileira a bater diversos recordes em fevereiro. O fluxo, contudo, foi interrompido com a guerra no Irã.
O principal catalisador para a retomada veio justamente do cenário geopolítico: o cessar-fogo entre Irã e Estados Unidos, anunciado em 7 de abril, reduziu a aversão ao risco global e reacendeu o apetite dos investidores por ativos de mercados emergentes.
A trégua, ainda que frágil, incentiva a retomada de um movimento apelidado de “rotation”, ou rotação, no qual investidores buscam ativos fora dos Estados Unidos para diversificar carteiras. Essa estratégia, em curso desde que Donald Trump assumiu a Casa Branca pela segunda vez, foi o motor da disparada da Bolsa brasileira no início do ano e, no câmbio, da desvalorização global do dólar.
Desde o início de 2025, quando o republicano reassumiu o comando da Casa Branca, o dólar acumula queda de 18,9% frente ao real.
A isso se soma um diferencial de juros “bastante elevado”, diz Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research. Com a Selic no maior patamar em quase duas décadas, a 14,75%, e a taxa dos Estados Unidos na banda entre 3,5% e 3,75%, investidores aproveitam da diferença para apostar no “carry trade”.
Nessa estratégia, investidores captam recursos em países de juros baixos para aplicar em economias com taxas mais elevadas, como o Brasil.
A distância do Brasil em relação ao conflito é outro ponto a favor. Para Lucca Bezzon, especialista em inteligência de mercado da StoneX, “investidores estrangeiros buscam exposição a mercados emergentes com menor exposição ao risco”.
Segundo ele, tanto a Bolsa quanto os títulos públicos brasileiros acabam se beneficiando do fluxo. O comportamento também beneficia o real, que precisa ser comprado para dar acesso aos ativos do mercado brasileiro.
No último mês, com a escalada da guerra no Irã, o dólar voltou a ser buscado como ativo de proteção e se valorizou. O índice DXY, que mede o desempenho da moeda frente a uma cesta de seis divisas fortes, subiu 2,40% em março. Ainda assim, o Brasil mostrou resiliência: no período, o dólar avançou apenas 0,90% frente ao real.
No entanto, a euforia é recebida com cautela por parcela significativa do mercado financeiro. O fato de 2026 ser ano eleitoral acende um alerta imediato entre gestores e economistas, que temem o ressurgimento de promessas de expansão fiscal à medida que a corrida ao Palácio do Planalto se intensifica.
O quadro das contas públicas ainda inspira desconfiança: o déficit primário segue pressionado, e qualquer sinalização de afrouxamento das metas fiscais tem potencial para reverter rapidamente o movimento de apreciação do real. Não à toa, o Boletim Focus desta segunda-feira precifica a moeda em R$ 5,37 no fim de 2026.
“A discussão sobre os gastos públicos brasileiros não diminuiu de importância. Ela só ficou em segundo plano em meio a esse fluxo dos últimos meses”, diz Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad.
“A partir do momento em que se começar a falar de gastos em ano eleitoral, a desconfiança deve voltar e provavelmente diminuir o fluxo de entrada. Não é que o fluxo vai parar ou se reverter, mas é muito provável que novos entrantes não sintam tanta confiança em investir no país.”
Há ainda o próprio fator guerra no horizonte. “O conflito não está encerrado, então ainda há incerteza, e a volatilidade pode voltar”, diz Sung.
Ele também avalia que a perspectiva de queda de juros no Brasil deve reduzir, ao longo do tempo, parte do suporte ao real, ao diminuir a atratividade do “carry trade”. O mais recente Boletim Focus prevê a taxa Selic em 12,50% ao ano no fim de 2026.