São Paulo, 28 – Alinhado à onda global de fortalecimento da moeda norte-americana, o dólar abriu a semana em alta firme frente ao real e voltou a fechar acima de R$ 5,20, nos maiores níveis desde o fim de março. Embora haja cautela com o quadro eleitoral doméstico, com investidores absorvendo medidas recentes do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em especial a proibição das bets, a formação da taxa de câmbio está mais ligada ao ambiente externo, observam operadores
O impasse nas negociações entre Estados Unidos e Irã para o encerramento do conflito no Oriente Médio e na reabertura total do Estreito de Ormuz mantém as cotações do petróleo em níveis elevados. Temores de mais pressões inflacionárias, em um quadro de dados fortes de atividade nos EUA e falas duras de dirigentes do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) nos últimos dias, jogaram as taxas dos Treasuries para cima, castigando divisas emergentes.
“A expectativa de mais aumento de juros pelo Fed levou a um fortalecimento do dólar frente a todas as outras moedas nos últimos dias. E a preocupação com a inflação não está relacionada apenas à alta do petróleo. Há questões de migração, que afetam a mão de obra, e o efeito das tarifas”, afirma o economista Fabrizio Velloni, ressaltando que há muitas dúvidas sobre como o presidente dos EUA, Donald Trump, vai lidar com a situação no Oriente Médio à medida que se aproximam as eleições parlamentares de meio de mandato, no início de novembro.
Pela manhã, com a frustração das expectativas de algum entendimento entre EUA e Irã no fim de semana, o dólar superou os R$ 5,22. Diante da moderação dos preços da commodity, após informações de acenos do presidente Donald Trump ao Irã, houve um leve alívio ao longo da tarde.
A moeda voltou a acentuar os ganhos na reta final da sessão e terminou o dia em alta de 0,86%, a R$ 5,2265 – maior valor de fechamento desde 30 de março. A divisa acumula alta de 0,90% em setembro, após valorização de 2,16% em agosto.
O real, que costuma sofrer mais em picos de aversão ao risco, apresentou perdas inferiores às de outras divisas latino-americanas. Apesar de pesquisa Quaest divulgada nesta segunda-feira mostrar que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) deixou a liderança numérica em eventual segundo turno, a percepção é de uma disputa muito apertada. Ambos aparecem com 42% das intenções de voto, ao passo que na sondagem anterior, Flávio tinha 42% e Lula, 41%.
Velloni avalia que as medidas recentes adotadas pelo governo, como o reajuste do Bolsa Família e a proibição das bets, apontam para uma piora das contas públicas, mas não se refletem no aumento do prêmio de risco embutido na moeda brasileira pela perspectiva de alternância de poder, dado o acirramento da corrida presidencial. “A expectativa de que a oposição pode realmente vencer as eleições faz com que o real não se desvalorize como os pares. Mas devemos ter um aumento da volatilidade nesta semana com um jogo mais pesado nas campanhas dos candidatos”, afirma.
Para o estrategista-chefe de câmbio da BMO Capital Markets, Mark McCormick, os mercados parecem “estar precificando” um determinado resultado mesmo em meio a uma disputa muito acirrada “A narrativa é simples. Lula é menos favorável ao mercado, enquanto Flávio está associado ao ajuste fiscal. Uma vitória de Flávio pode não ser positiva para a moeda, além de um rali inicial”, afirma McCormick, ressaltando que eventual “maior credibilidade fiscal poderia reduzir o prêmio de risco”, abrindo espaço para mais cortes da taxa Selic, “erodindo o carry, um dos maiores suportes do real”.
Bolsa
Com a cautela predominante no mercado de ações brasileiro, o Ibovespa começou a semana com tom levemente negativo, encerrando o pregão com viés de baixa (-0,26%) e com giro financeiro reduzido, de R$ 18 bilhões. Em um ambiente de menor propensão à tomada de risco no exterior e às vésperas da eleição no Brasil, o índice oscilou entre a faixa de 181 mil pontos pela manhã e 184 mil pontos ao longo do dia, acomodando-se nos 182 mil pontos no fim dos negócios (182.991,13 pontos).
A pequena queda desta segunda-feira consolida o quarto pregão seguido de baixa do índice, que chega na reta final do mês com alta acumulada de 3,14%; no ano, o avanço é de 13,57%.
O chefe trader sênior de renda variável da Lince Investimentos, Wagner Atoguia Lima, avalia que o mercado local permaneceu sem direção definida, mas com comportamento bastante instável. A desaceleração do petróleo ajudou a aliviar a pressão sobre a Bolsa, à medida que a contenção da commodity ajuda a afastar os receios de uma disparada da inflação globalmente. Ainda assim, sem avanços mais claros nas negociações para reabertura do Estreito de Ormuz, a tendência de alta da commodity segue no pano de fundo.
“O petróleo, que chegou a subir 3% a 4%, perdeu força com a leitura de que o Irã aceitaria interromper o enriquecimento de urânio em troca de alívio nas sanções dos EUA. A bolsa reagiu, mas o dia segue muito volátil”, afirma. Negociado na Intercontinental Exchange de Londres (ICE), o petróleo Brent para dezembro fechou em leve alta de 0,4%, a US$ 97,83 o barril
Para o head de renda variável da Lifetime, Lucas Tambellini, o pregão refletiu sobretudo um movimento de saída de ativos de risco globalmente. Ele destaca que o investidor espera o resultado das urnas no Brasil para se reposicionar nos ativos. “A sensação, perto da eleição, é de compasso de espera, e uma saída mais clara do Ibovespa da faixa de 183 mil pontos para 187 mil pontos depende de mais clareza após o primeiro turno”, diz.
O aumento de posições ligadas à proteção via EWZ nas últimas semanas exemplifica a cautela com ativos brasileiros, segundo o estrategista e portfólio manager da GCB Investimentos, Rafael Espinoso. Ele também destaca a alta volatilidade no mercado local, em resposta às posições mais defensivas dos investidores. O índice S&P/B3 Ibovespa VIX subiu 4,29% nesta segunda, depois de cair no começo da semana passada e subir perto de 1% nas últimas sessões.
Calculado a partir das opções sobre o Ibovespa B3, o VIX Brasil mede a volatilidade implícita esperada para os próximos 30 dias. Na prática, funciona como um termômetro da percepção de risco do mercado. Por isso, também é chamado de “índice do medo”. É acompanhado por investidores, gestores e analistas em momentos de maior incerteza, sobretudo para estratégias de proteção de carteira.
Juros
A curva de juros futuros abriu a semana em alta e ganhou inclinação nesta segunda-feira, 28, mesmo com a moderação do petróleo. A commodity passou a operar perto da estabilidade em meio a relatos de que o Irã concordou em suspender o enriquecimento de urânio se os Estados Unidos flexibilizarem sanções. A perspectiva de uma política monetária mais apertada nos EUA, porém, manteve os Treasuries sob pressão, o que, aliado à cautela com o quadro eleitoral doméstico, elevou os prêmios dos contratos de Depósito Interfinanceiro (DIs), especialmente na ponta longa.
Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 subiu a 13,565%, de 13,548% no ajuste de sexta-feira. O DI para janeiro de 2029 aumentou de 13,814% no ajuste a 13,89%, e o para janeiro de 2031 avançou a 14,05%, vindo de 13,934%.
Em igual horário, a taxa da T-note de dez anos anotava alta de 5,165% a 5,233%, e a do T-bond de 30 anos tinha avanço de 5,496% a 5,550%. Os dois vencimentos chegaram a alcançar máximas em cerca de 20 anos na sessão, refletindo não só as incertezas sobre a guerra no Oriente Médio, mas também nas apostas para a condução dos juros pelo Federal Reserve (Fed).
“Vemos espaço adicional para que os juros continuem abrindo, à medida que os mercados precificam um pico mais alto para a taxa de juros do Fed”, afirmou a estrategista de juros do BofA Securities, Meghan Swiber. Sem forward guidance do presidente do BC americano, Kevin Warsh, ela avalia que os investidores provavelmente continuarão precificando altas adicionais enquanto o crescimento econômico nos EUA permanecer resiliente e a inflação seguir elevada.
Ainda no exterior, as cotações do petróleo tiveram uma sessão volátil, oscilando em meio ao impasse no diálogo entre Washington e Teerã e também com a navegação no Estreito de Ormuz ainda prejudicada. O barril do tipo Brent para dezembro, porém, fechou em alta comedida, de 0,4%, e abaixo de US$ 100 (US$ 97,83), tendo no radar relatos de que a Arábia Saudita elevou o fluxo no oleoduto Leste-Oeste.
Embora a aversão ao risco que contaminou a renda fixa global tenha sido o maior driver da alta dos juros nesta segunda, o gerente de Tesouraria do Banco Daycoval, Otávio Oliveira, acrescenta que a postura fiscal recente do governo e a proximidade das eleições também ajudam a explicar o comportamento dos DIs.
Para Oliveira, o reajuste do Bolsa Família, a ampliação do programa de renegociação de dívidas – o Desenrola -, as medidas para baratear os preços dos combustíveis e, por último, a Medida Provisória assinada para proibir a operação de empresas de apostas no País vão na direção de maior expansionismo fiscal às vésperas do primeiro turno da disputa presidencial, que ocorre neste domingo, 4.
“Todas as últimas ações do governo vêm corroborando o descontrole fiscal, a seis dias das eleições”, afirmou, num cenário de disputa bastante acirrada entre os dois principais candidatos, mas no qual grande parte do mercado adotou preferência pela direita pela expectativa de consolidação fiscal em 2027.
Ainda que mantendo o quadro de empate técnico entre o presidente Lula e Flávio Bolsonaro, as pesquisas divulgadas nesta segunda mostraram ligeira melhora das intenções de voto no petista. Lula tem 46% em eventual segundo turno contra Flávio, que registra 44%, segundo a BTG/Nexus divulgada nesta segunda. No primeiro turno, o presidente oscilou dois pontos para cima em relação à rodada anterior, a 42%, enquanto o senador manteve os mesmos 37%
Já na Quaest, Lula oscilou de 37% a 39% no 1º turno, e Flávio foi de 33% a 34%. No segundo turno, ambos aparecem com 42%, mas Lula ganhou um ponto em relação à edição anterior, enquanto o filho de Jair Bolsonaro marcou estabilidade.
Estadão Conteúdo