São Paulo, 24 – Em linha com a onda de valorização global da moeda norte-americana, o dólar voltou a subir frente ao real nesta quinta-feira, 24, mas exibiu ganhos bem inferiores aos de quarta-feira, quando avançou 1,28%. Novos sinais de vitalidade da economia dos EUA, em meio à escalada dos preços do petróleo, estimularam apostas em altas de juros pelo Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), cujos dirigentes adotam tom cada vez mais conservador.
Embora a dinâmica da formação da taxa de câmbio esteja muito atrelada, nos últimos dias, ao ambiente externo, operadores apontam que a notícia exclusiva do Estadão sobre ligações do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com Daniel Vorcaro coincidiu com as máximas do dólar, na casa de R$ 5,20.
O candidato do PL à Presidência da República tentou fazer contato telefônico com o ex-controlador do Master quatro dias antes da prisão do banqueiro, em 17 de novembro do ano passado.
Depois de tocar a máxima de R$ 5,2019, o dólar à vista encerrou o pregão em alta de 0,49%, a R$ 5,1937 – maior valor de fechamento desde 28 de agosto. Com o avanço de 1,78% nos dois últimos dias, a moeda norte-americana passou a apresentar ganhos em setembro (0,26%), após valorização de 2,16% no mês passado. O real sofreu menos nesta quinta-feira que pares como o peso colombiano e o mexicano, que acentuou as perdas à tarde após o Banco Central do México anunciar a manutenção dos juros em 6,5%
“O comportamento da taxa de câmbio está bastante relacionado ao exterior hoje. Temos um movimento de valorização global do dólar e de alta dos juros dos Treasuries, impulsionados pela alta do petróleo. Isso está por trás das perdas das divisas emergentes”, afirma a economista-chefe do Ouribank, Cristiane Quartaroli.
As cotações do petróleo até se afastaram das máximas à tarde após a “Reuters” informar que Estados Unidos e Irã tentam costurar um entendimento para reabrir o Estreito de Ormuz, mas, ainda assim, fecharam em forte alta. O barril do Brent para dezembro subiu 3,41%, a US$ 106,60, e já acumula valorização de quase 4% na semana e de mais de 18% no mês.
No quadro doméstico, o sócio da Valor Investimentos Marcel Lima vê um arrefecimento do otimismo com a perspectiva de vitória da oposição na corrida presidencial, com a estagnação das intenções de voto de Flávio Bolsonaro nas últimas pesquisas eleitorais. Investidores aguardavam a divulgação, no período da noite, de nova sondagem do Datafolha.
“A expectativa de vitória de Flávio esfriou um pouco depois de uma leve euforia com as pesquisas mostrando empates técnicos entre os candidatos. Embora Flávio ainda não tenha apresentado um plano fiscal, o mercado acredita que a possibilidade de um ajuste após a eleição dele é maior”, afirma Lima.
Referência do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY avançava 0,18% perto do fim da tarde, aos 101,274 pontos, após máxima aos 101,398 pontos, nos maiores níveis desde julho. O Dollar Index já avança mais de 1% na semana e quase 2% no mês.
Depois da surpresa na quarta com a alta acima das expectativas dos índices de gerentes de compras (PMI, na sigla em inglês) dos EUA em setembro, os pedidos semanais de auxílio-desemprego vieram abaixo do esperado, ao passo que as vendas de moradias novas em agosto superaram as expectativas. Duas presidentes de distritos do Fed – Beth Hammack (Cleveland) e Anna Paulson (Filadélfia) – engrossaram o coro contra a inflação, sugerindo mais altas de juros nos EUA.
“A economia e o emprego não estão precisando de juros baixos. Por outro lado, a inflação americana está há cinco anos acima da meta. A falta de solução para a guerra entre EUA e Irã é mais um motivador para o Fed seguir subindo os juros”, afirma o sócio-diretor da Wagner Investimentos, José Faria Júnior.
Bolsa
Ao longo do período da tarde desta quinta-feira, o Ibovespa intensificou as perdas e renovou a mínima em 183 mil pontos, em resposta a uma piora no exterior para ativos de risco, sobretudo para os mercados emergentes. Com mais um dia de alta do petróleo, os riscos inflacionários e a consequente alta de juros voltaram a dar o tom dos negócios, enquanto os investidores mantêm posições mais cautelosas à espera de pesquisas eleitorais no Brasil.
No fim da sessão, o Ibovespa caiu 0,99%, aos 183.965,91 pontos, com mínima em 183.834,97 pontos e giro financeiro de R$ 19 bilhões.
Embora as bolsas norte-americanas tenham tido um pregão melhor, os mercados emergentes seguiram para um fechamento no vermelho: o EEM, maior ETF ligado a esses mercados, por exemplo, cedeu 0,70% em Nova York. A performance acontece em meio à forte abertura das Treasuries, com o título de 10 anos chegando a tocar 5,20%.
Segundo Gabriel Gonçalves, analista de alocação da Ghia Multi Family Office, o movimento dos mercados locais acompanha tanto o “risk-off” (fuga do risco) global, quanto o noticiário político-eleitoral. No primeiro caso, ele observa que o petróleo Brent em alta – nesta quinta em US$ 106,60 o barril (+3,41%) – costuma beneficiar a Petrobras, mas que a queda do papel no dia indica um receio de que a política monetária doméstica precise se readaptar ao cenário no exterior.
Além disso, ele afirma que os mercados “podem ter se assustado” com as notícias mais recentes envolvendo o senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro.
O envolvimento de Flávio com Daniel Vorcaro ganhou mais um capítulo depois das informações de que ele viajou da Flórida a Brasília, em 2025, em um avião que tinha o ex-banqueiro entre os cotistas. A notícia é avaliada como negativa para a imagem do senador, com possíveis implicações para a sua popularidade na corrida eleitoral.
Nas últimas pesquisas eleitorais de diversas casas, o presidente Lula (PT) e Flávio Bolsonaro aparecem tecnicamente empatados, e os investidores acompanham as reais chances de uma chapa à direita ganhar força na expectativa de que isso represente um maior compromisso com uma agenda fiscal mais dura.
“É uma combinação de externo, com entrave político cada vez mais difícil entre EUA e Irã. É muito preocupante, porque o Fed Federal Reserve pode adotar uma linha contracionista, com aumento de juros, e isso se reflete nos investidores estrangeiros. E o mercado começa a olhar ainda mais as pesquisas, é uma incerteza diante do que está saindo no noticiário e, nisso, a Bolsa corrige o movimento”, afirma Gustavo Bertotti, head de Renda Variável da Fami Capital.
Juros
O ambiente de pressão na renda fixa global e, em menor medida, o noticiário político doméstico elevaram os juros futuros no pregão desta quinta-feira. O principal vetor para o avanço foi a disparada dos retornos dos Treasuries, que reflete novos sinais de força da economia dos Estados Unidos e declarações mais duras dos dirigentes do Federal Reserve, assim como o aumento dos preços do petróleo. Novas notícias sobre a relação do candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro também contribuíram para a piora.
Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 avançou de 13,541%, no ajuste da quarta-feira, a 13,565%. O DI para janeiro de 2029 aumentou a 13,88%, de 13,787%. O DI para janeiro de 2031 subiu de 13,965% a 14,045%.
Às vésperas de um primeiro turno bastante disputado, qualquer evento negativo relacionado à oposição repercute nos ativos domésticos porque reduziria, na percepção de parte do mercado, as chances de alternância do poder em 2027 – e, consequentemente, de uma consolidação fiscal.
As taxas futuras, porém, perderam fôlego em sintonia com o petróleo, que se afastou das máximas intradiárias ao longo da tarde. Mas as incertezas sobre os diálogos entre Estados Unidos e Irã à margem da Assembleia da ONU mantiveram o barril do Brent perto de US$ 107 no fechamento – o que, junto à perspectiva de aperto monetário adicional nos EUA, elevou os rendimentos dos Treasuries e afetou também o mercado local de renda fixa.
Por volta das 17h30, o juro da T-Note de dois anos anotava alta de 4,895% a 4,940%. O retorno da T-Note de 10 anos tinha elevação de 5,116% para 5,22%, e o do T-Bond de 30 anos disparava de 5,402% a 5,497%, também na máxima. “Acho difícil vermos uma melhora muito forte nos DIs sem uma notícia favorável da política no Brasil ou uma melhora externa das curvas de juros”, afirma o sócio e economista-chefe da G5 Partners, Luis Otávio de Souza Leal.
Em sua visão, como o comportamento mais benigno recente dos DIs veio na esteira do crescimento de Flávio nas pesquisas eleitorais, a questão política pode ter contribuído para a piora desta quinta dos juros, mas o movimento foi essencialmente global, tendo como pano de fundo a pressão da renda fixa internacional. “A notícia sobre o Flávio só deu um susto na hora”, apontou.
Os rendimentos dos Treasuries estão alcançando níveis não registrados desde o início dos anos 2000, destaca Leal, seja na ponta longa, em meio a preocupações com o aumento da dívida pública nos EUA e, mais recentemente, também nos trechos curtos, que reagem a dados que indicam resiliência da economia norte-americana e a declarações mais duras de dirigentes do Federal Reserve.
Nesta quinta, três deles se pronunciaram na mesma direção: a presidente do Fed da Filadélfia, Anna Paulson, afirmou que o BC norte-americano pode precisar elevar novamente os juros para conter a inflação, que permanece “persistentemente elevada”; a presidente da distrital de Cleveland, Beth Hammack, disse que a inflação do país permanece elevada com riscos para cima; e o presidente do Fed de Richmond, Tom Barkin, apontou que vetores recentes de pressão sobre os preços podem ser “mais duradouros” do que se antecipava.
Por aqui, o Relatório de Política Monetária (RPM) reforçou a mensagem de que ainda há espaço para cortes da Selic, mas a trajetória da política monetária dependerá essencialmente da evolução dos dados, sem impacto na curva. As falas do presidente do BC, Gabriel Galípolo, e do diretor Paulo Picchetti para comentar o relatório também não fizeram preço.
Para o economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini, o documento foi “um pouco decepcionante”, uma vez que uma das funções da autarquia é orientar as expectativas à frente, mas endossa a avaliação de um BC dependente de dados e que mantém porta aberta para novas reduções do juro básico.
Estadão Conteúdo