São Paulo, 09 – O dólar avançou nesta quarta-feira, 9, e voltou a fechar acima de R$ 5,10 diante do aumento da aversão ao risco no exterior e de uma provável saída de recursos da bolsa doméstica. Divisas emergentes, em especial latino-americanas, apanharam com nova rodada de alta das taxas dos Treasuries, impulsionadas sobretudo por temores inflacionários com a escalada do petróleo.
As cotações da commodity avançaram mais de 3% em meio ao recrudescimento do conflito no Oriente Médio, com atritos entre Estados Unidos e Irã, além de ataques ucranianos à infraestrutura de energia na Rússia. O contrato do Brent para novembro avançou 3,36%, a US$ 101,21 o barril – pela primeira vez acima da marca de US$ 100 desde fins de julho.
No momento de maior estresse, pouco depois das 12h, o dólar à vista tocou máxima de R$ 5,1153. Após rondar os R$ 5,10 pela maior parte da tarde, a moeda voltou ao nível de R$ 5,11 na reta final do pregão e fechou a R$ 5,1123, alta de 0,52%. O real, que brilhou nos primeiros pregões de setembro, amargou o pior desempenho entre as divisas mais líquidas. A moeda americana recua 1,31% frente ao real no mês, após avanço de 2,16% em agosto.
Para o gestor de portfólio da Azimut Brasil Wealth Management, Marcelo Bacelar, além da piora do ambiente externo com os conflitos internacionais, houve uma “realização técnica” em relação a ativos domésticos, após o rali estimulado pela reconfiguração do quadro eleitoral, com crescimento da oposição nas intenções de voto.
“A parte eleitoral já entrou no preço dos ativos, com uma diminuição de prêmio de risco que favoreceu a moeda”, afirma Bacelar. “Hoje [quarta-feira] o dia é ruim com a questão da guerra, mas o petróleo pode ajudar o real pelos termos de troca, enquanto a abertura da curva americana, com a perspectiva de alta de juros pelo Federal Reserve, é ruim para a moeda”.
Por volta das 15h30, o governo anunciou a assinatura de um decreto com redução de PIS/Cofins sobre a gasolina e zeragem de tributos sobre o etanol, além de uma Medida Provisória que prevê alívio de mais R$ 1 no litro do diesel. Em vídeo, o presidente Lula disse que não vai “permitir” que uma guerra “irresponsável” abale o poder de compra dos brasileiros. Após o anúncio da medida, os juros futuros acentuaram o ritmo de alta e o dólar passou a oscilar ao redor de R$ 5,11.
O especialista em câmbio Nicolas Gomes, da Manchester Investimento, afirma que o mercado se mantém atento aos desdobramentos da disputa entre ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), que afeta “diretamente o cenário eleitoral”. Com o mercado de câmbio já fechado, saiu a notícia de que o presidente do STF, Edson Fachin, suspendeu a tramitação da ação sobre diálogos entre o ministro Alexandre de Moraes e o ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, que estava sob os cuidados do ministro André Mendonça.
Lá fora, o índice DXY, termômetro do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, rondou a estabilidade ao longo da tarde e subia 0,04% por volta das 17h, aos 98,828 pontos. O Dollar Index foi contido mais uma vez pela apreciação do iene, com a expectativa de alta dos juros no Japão no fim da semana que vem. A coroa norueguesa, relacionada ao petróleo, avançou cerca de 0,30%.
Bacelar, da Azimut, pondera que o ambiente para o real parece menos promissor com a política monetária divergente no Brasil e nos EUA. A expectativa é que a superquarta, dia 16, seja marcada por novo corte da taxa Selic em 0,25 ponto porcentual, para 13,75% ao ano, e uma elevação dos juros em 0,25 ponto pelo Fed.
“É um cenário ruim para o real. Eu acredito que o BC corta 0,75 pontos-base neste ano, com redução na semana que vem e nas duas últimas reuniões do ano”, afirma Bacelar, lembrando que nesta sexta-feira, 11, sai o IPCA e o índice de preços ao consumidor (CPI, em inglês) nos EUA.
Bolsa
Depois da recente animação dos investidores com o avanço de Flávio Bolsonaro (PL) nas pesquisas eleitorais, o mercado passou por um dia de maior aversão ao risco que predomina no exterior, onde novas notícias a respeito dos conflitos no Oriente Médio provocaram um ajuste de posições globalmente. O Ibovespa se afastou das mínimas no fechamento, firmando-se nos 185 mil pontos (185.629,04 pontos), mas seguiu em queda (-0,93%) até o fim dos negócios.
Nesta quarta-feira, 9, novos ataques a bases e navios dos EUA no Estreito de Ormuz levaram o petróleo Brent para novembro, negociado na Intercontinental Exchange de Londres (ICE), a fechar em alta de 3,36%, a US$ 101,21 o barril, voltando ao teto registrado no fim de julho. A alta do petróleo motiva ajustes nas carteiras dos alocadores globais pelo receio de que isso gere efeitos inflacionários no mundo. Na esteira do movimento da commodity, a Petrobras foi a única ação entre as blue chips a sustentar um pregão positivo.
“O mercado é muito movido pelas surpresas, o que vem afetando os mercados são variações do mesmo tema. Enquanto não tiver um movimento definitivo do fim do conflito entre EUA e Irã em que diminua o risco e a eleição brasileira, os ativos vão oscilar bastante”, afirma Rodrigo Knudsen, sócio da Portogallo Family Office.
Na última hora do pregão, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) assinou decreto que reduziu o PIS/Cofins sobre a gasolina em R$ 0,63 por litro de gasolina e que corta o PIS/Cofins em R$ 0,19 por litro do etanol, zerando toda a tributação do produto. Também assinou Medida Provisória que prevê alívio de mais R$ 1 no litro do diesel. Para os especialistas e analistas, porém, o efeito sobre a renda variável local foi limitado.
“Com o Brent beirando US$ 100, o petróleo mais alto significa inflação mais alta e, com isso, menos espaço para cortes de juros. Isso penaliza os ativos de risco. Nesse cenário, quem vai melhor são petróleo e commodities. E essas medidas do governo para conter o preço dos combustíveis, na minha visão, não fazem muito preço, o movimento do setor vem muito mais da alta do petróleo do que da medida em si”, afirma Rodrigo Alvarenga, sócio da One.
Lucas Tambellini, head de renda variável da Lifetime, concorda que o efeito das medidas anunciadas fez pouco preço. “O mercado mudou pouco depois dessa notícia. Hoje temos espaço para o investidor embolsar mais lucros, além de estarmos importando esse movimento de risk off fuga do risco global por conta dos Estados Unidos e do Irã, já que o conflito entre eles só tem se agravado. Mas vejo espaço para a bolsa andar mais à frente, porque a nossa bolsa continua com um valuation avaliação de preço bem descontado”, diz.
Juros
Os juros futuros interromperam nesta quarta-feira, 9, uma sequência de cinco quedas, impulsionados pela disparada do petróleo no exterior e, também, por fatores domésticos. As taxas longas chegaram a saltar mais de 20 pontos-base rumo ao final da sessão, após o governo anunciar medidas para reduzir os preços dos combustíveis. A iniciativa, além de piorar as contas públicas, foi considerada eleitoreira, apesar do potencial alívio à inflação no curto prazo.
Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 subiu de 13,571%, no ajuste da véspera, a 13,58%. O DI para janeiro de 2029 avançou a 13,865%, vindo de 13,705%. O DI para janeiro de 2031 aumentou de 13,902% a 14,095%.
O presidente Lula assinou um decreto que diminuiu o PIS/Cofins sobre a gasolina em R$ 0,63 por litro, e cortou R$ 0,19 por litro do etanol, zerando toda a tributação do produto. Também assinou uma Medida Provisória que prevê subvenção adicional de R$ 1 por litro de diesel, para que os preços continuem estáveis nas bombas. Em vídeo, o presidente afirmou que o governo não vai permitir que os custos da guerra entre Estados Unidos e Irã afetem a economia brasileira.
O novo “pacote de bondades” foi divulgado no mesmo dia em que os contratos futuros de petróleo fecharam com alta de mais de 3%, e o Brent para novembro, que serve de referência para a Petrobras, atingiu US$ 101,21 o barril – maior patamar desde o fim de julho Depois de trocas de ataques entre os dois lados, o presidente Donald Trump reforçou nesta tarde que não está buscando um acordo com Teerã, e previu que a guerra só deve acabar em novembro, reacendendo expectativas de que a commodity energética seguirá pressionada.
“É uma medida ruim por todos os lados, não só pelo fiscal. A eleição está chegando e o ‘saco de maldades’ está solto”, afirmou um trader à Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado), em caráter reservado, sobre a redução da cobrança de PIS/Cofins sobre a gasolina. Em sua visão, ainda há mais medidas como essa que podem vir, às vésperas das eleições.
Nos cálculos de Andréa Angelo, estrategista de inflação da Warren Investimentos, a medida deve retirar 0,15 ponto porcentual do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) deste mês, sendo 0,11 ponto referente à gasolina, e 0,04 ponto ao etanol. Mesmo sob o aspecto inflacionário, porém, o subsídio teve uma leitura negativa pelo mercado.
“Melhora a inflação de curto prazo, mas piora a de longo prazo com o impulso gerado”, observa Eduardo Cohn, gestor de portfólio da Heritage Capital. Sob anonimato, um estrategista de uma grande tesouraria menciona que a medida gera um risco de rebote da inflação em 2027, que pode ficar “represada” este ano.
Nos EUA, os retornos dos Treasuries continuaram operando perto das máximas da sessão ao longo da tarde, impulsionados também pelo valor de recompra de títulos da dívida pública informado nesta quarta-feira pelo Tesouro. A atuação nos papéis de 10 a 20 anos, prevista para ocorrer nesta quinta, será de US$ 6 bilhões. Às 17h13, o rendimento da T-Note de 10 anos subia de 4,794% a 4,839%. “Hoje [quarta-feira] o mercado de juros teve uma correção e dinâmica do exterior amplifica esse movimento”, disse o economista-chefe do banco Bmg, Flávio Serrano.
Apesar do avanço na sessão desta quarta, a curva segue precificando ao menos mais dois cortes na Selic. De acordo com cálculos de Serrano, há praticamente 100% de chance de redução de 0,25 ponto porcentual em setembro, seguida por 60% de probabilidade de novo corte em novembro.
Estadão Conteúdo