FOLHAPRESS
O dólar voltou a se aproximar do patamar de R$ 5,00 nesta sexta-feira (10), com investidores avaliando dados de inflação do Brasil e dos Estados Unidos, bem como desdobramentos do acordo de cessar-fogo no Oriente Médio.
A possibilidade da moeda romper o piso e voltar a ser cotada na casa dos R$ 4 ganhou tração nesta semana. Na véspera, ela já fechou na menor cotação em quase dois anos, a R$ 5,06.
Nesta manhã, por volta das 11h50, o dólar estava em queda de 0,75%, cotado a R$ 5,024. Na mínima do dia, chegou a R$ 5,007. Já a Bolsa avançava 0,94%, a 196.964 pontos, a caminho de renovar o recorde histórico mais uma vez. No pico até aqui, chegou a 197.553 pontos, nova máxima intradiária.
As movimentações desta sessão estão sendo pautadas, principalmente, por um maior otimismo em relação ao cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã e pela expectativa de reabertura do estreito de Hormuz, uma das principais vias do mercado de energia global.
Algumas embarcações já estão atravessando o estreito. Segundo dados de rastreamento de navios das plataformas Kpler e Lloyd’s List Intelligence, a maioria delas tem ligação com o Irã.
Três navios-tanque -um superpetroleiro que pode transportar 2 milhões de barris de petróleo, um navio-tanque de abastecimento e um navio de petróleo menor- deixaram as águas iranianas nas últimas 24 horas.
Quatro navios graneleiros -incluindo um que carregava minério de ferro do Irã com destino à China- também navegaram no último dia.
Ainda que a área esteja fechada para outras bandeiras, as negociações para normalização seguem em curso. Representantes de EUA e Irã terão as primeiras conversas de paz no Paquistão a partir deste sábado (11).
“Caso haja avanço nas conversas, é provável que se observe uma extensão das quedas nos preços do petróleo, impulsionada pela expectativa de reabertura gradual do estreito”, diz Bruno Cordeiro, especialista de inteligência de mercado da Stonex.
O barril do Brent, referência internacional, estava em queda de 0,6% nesta manhã, cotado a US$ 95,34.
“Por outro lado, uma frustração nas negociações pode resultar em novas altas nos preços do petróleo e seus derivados. Isso refletiria um mercado já pressionado por um balanço global apertado, em função da redução significativa das exportações de energia provenientes do Oriente Médio.”
A extensão do cessar-fogo, segundo o analista, depende agora de negociações também envolvendo Israel e Líbano, previstas para ocorrer em Washington na próxima semana.
Os governos Donald Trump e Binyamin Netanyahu afirmaram que a luta contra o Hezbollah não está coberta no cessar-fogo, mas isso fez com que o Irã ameaçasse romper a trégua estabelecida na terça-feira.
“À luz dos repetidos pedidos do Líbano, eu instruí o gabinete ontem a começar negociações diretas o mais rapidamente possível. Elas vão focar em desarmar o Hezbollah e estabelecer relações pacíficas entre Israel e o Líbano”, disse em nota Netanyahu.
As tratativas entre Tel Aviv e Beirute provocaram “um novo suspiro de alívio nos mercados por enquanto, ainda que moderado”, afirmou John Kilduff, analista da Again Capital.
O cenário injeta ânimo e apetite por risco nos mercados globais, derrubando o dólar. O índice DXY, que compara a moeda ante uma cesta de seis divisas fortes, tinha queda de 0,25%, a 98,57 pontos.
Bolsas pelo mundo também registram ganhos: a de Xangai, por exemplo, fechou a semana no positivo pela primeira vez desde o início da guerra, em 28 de fevereiro. O índice SSEC terminou o dia com valorização de 0,51%, e o CSI300, que reúne as principais companhias em Xangai e Shenzhen, subiu 1,54%.
Os outros mercados asiáticos também se valorizaram, como Tóquio (1,84%), Hong Kong (0,55%), Seul (1,4%) e Taiwan (1,6%).
Na Europa, o índice Euro STOXX 600, referência na União Europeia, também registra alta de 0,94%, o que é repetido em Frankfurt (0,92%), Londres (0,32%), Paris (0,66%), Madri (0,63%) e Milão (0,76%).
“Os mercados passaram de uma atitude baseada no medo para um otimismo orientado para o futuro”, avaliou Stephen Innes, da SPI Asset Management.
Os efeitos da guerra, porém, já são sentidos por aqui. A inflação oficial do Brasil, medida pelo IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), acelerou a 0,88% no mês passado, após marcar 0,70% em fevereiro, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
O índice foi pressionado pelas altas dos grupos transportes (1,64%) e alimentação e bebidas (1,56%) -o primeiro inclui os combustíveis. Juntos, eles responderam por 76% do IPCA de março, conforme o IBGE.
“A leitura de março foi amplamente impactada pelos impactos globais do conflito no Irã, como se nota no comportamento dos combustíveis. Com o cessar-fogo de 2 semanas, a chance de uma contaminação do restante da inflação pelo choque do petróleo diminui”, diz André Valério, economista sênior do Inter.
Ele pondera que, mesmo que o cessar-fogo tenha sido alcançado sob bases frágeis, a expectativa é que ele persista pelo menos nas próximas duas semanas.
“Ainda assim, não vemos a melhora do conflito como suficiente para dar tranquilidade ao Copom, mas esperamos que o comitê continue o ciclo de cortes, em ajustes de 0,25 ponto percentual. O elevado aperto monetário, além do comportamento do câmbio, que tem operado consistentemente abaixo de R$ 5,10, dá tranquilidade suficiente para o Copom manter o ritmo de cortes.”
Nos Estados Unidos, dados de inflação medidos pelo CPI (índice de preços ao consumidor, na sigla em inglês) registraram o maior aumento mensal em quase quatro anos, também afetados pela disparada do petróleo.
A alta foi de 0,9% no mês passado, o maior aumento desde junho de 2022, quando os preços dispararam em resposta à guerra entre Rússia e Ucrânia. Em fevereiro, a subida havia sido de 0,3%.
Nos 12 meses até março, o índice avançou 3,3%, contra 2,4% registrado em fevereiro. Os dados vieram em linha com as expectativas de economistas ouvidos pela Reuters.
Por outro lado, o núcleo do CPI, que exclui alimentos e energia, reportou um crescimento “bem mais contido”, diz Nickolas Lobo, especialista em investimentos da Nomad. A alta foi de 0,2% no mês, acumulando ganho de 2,6% em 12 meses, ambos 0,1 ponto percentual abaixo do esperado.
Para Lobo, os números indicam que, apesar do choque externo, a inflação permanece sob controle, o que pode levar o Fed (Federal Reserve, o banco central dos EUA) a dar menos relevância ao pico causado pelo preço do petróleo e manter o foco na trajetória inflacionária de longo prazo.
“A leitura sugere que a inflação núcleo está desacelerando, o que corrobora a sinalização de integrantes do Fed sobre uma possível redução de 0,25 ponto percentual nos juros, embora o timing exato continue incerto e o mercado ainda precifique poucas chances de cortes agressivos ao longo de 2026”, afirma.
“O mercado interpretou positivamente o resultado.”